Entrevista foto arquivo foto arquivo Chico Xavier não foi Kardec Dada
Jornal de Espiritismo nº 45 · Março 2011Página 117 min
a sua extensão, retomamos em continuidade a entrevista de José Lucas a Raul Teixeira neste número. Raul é físico, doutorado na área da educação. Reformado há apenas dois anos, foi professor da Universidade Federal Fluminense, de Niterói, Rio de Janeiro e responde às perguntas colocadas num congresso realizado em Espanha em fins de 2010, num exclusivo do «Jornal de Espiritismo».
Existe algum planeamento no sentido de levar os cientistas a descobrir Deus, a descobrir o Espírito, a curto prazo, ou seráamédio ou longo prazo, ao longo deste milénio? Raul Teixeira – Vejamos. Aprendi com os bons espíritos que as leis de Deus funcionam sempre rigorosamente. Do mesmo modo que ninguém fez planos de trazer à Terra o Espiritismo e no momento certo ele chegou, a despeito do que pensassem os outros, não existe nenhum trabalho nosso no sentido de levar os cientistas a aceitar o Espírito, o Espiritismo.
Isso era uma pretensão muito grande, como se nós tivéssemos uma argumentação capaz de convencer o cientista. Então acredito que os cientistas, realizando o trabalho honesto que eles vêm realizando, não têm outra saída senão encontrar Deus. Como já vem acontecendo com muitos deles, individualmente. – Estava a referir-me especificamente a eles descobrirem, por exemplo, a essência do perispírito, a vibração. Raul Teixeira – Gradativamente eles estão a chegar lá.
Na área da Física, nós temos a área das micro-partículas e os físicos cada vez que mergulham nas micro-partículas descobrem partículas ainda menores. Estamos a encaminhar-nos para o campo das energias puras e ao chegarmos ao campo das energias puras não haverá saída para a admissão de um mundo de energias puras, chame-lhe a ciência como lhe chamar, nós chamamos-lhe mundo normal primitivo, ou mundo dos espíritos. Os cientistas já se dão conta há muitos anos que há possibilidade (a ciência tem esse cuidado), de haver vida noutros mundos, noutros planetas.
Já estão a instalar antenas de captação de sinais de rádio para essa tentativa de registar algo cósmico. De maneira que os cientistas dotados desse amor pela humanidade, de querer descobrir coisas novas, de inventar coisas novas, eles certamente são bem inspirados pelos guias que velam pelo nosso planeta. Não precisamos, nós os espíritas de ter nenhuma ansiedade, vamos cumprindo o nosso trabalho. Enquanto nós estivermos com qualquer pensamento de convencer o cientista, ou a quem quer que seja, estaremos deixando de lado a nossa vivência espírita, que é mais fundamental.
De modo que cada um vai ter a sua época de chegar, do mesmo modo que nós demorámos o tempo x, y, z para chegar e aceitar o Espiritismo, ainda que, nas proporções que o fazemos, chegará o dia em que cada cientista, cada filósofo, cada pensador, cada materialista, cada ateu vai encontrar seu caminho de Damasco. – Também usa telemóvel? Raul Teixeira – Ah, sim, uso telemóvel, insiro-me no progresso possível ao meu tempo.
– Dentro do conhecimento que tem, viu o filme «O Nosso Lar». Aquilo está próximo da realidade, retrata mais ou menos a realidade no mundo espiritual? Raul Teixeira – Tendo em vista que o filme foi orientado e teve a participação de muitos espíritas que opinaram, os factos ali mostrados estão muito próximos da realidade. Naturalmente que o mundo espiritual é muito mais intenso, muito mais rico. As cenas que nós registamos do mundo espiritual umbralino, das regiões de sofrimento, são muito mais intensas do que se pode fazer num filme.
Até porque, no mundo dos espíritos, na medida em que os espíritos vão pensando nos seus tormentos, esses tormentos vão-se expressando como se existissem “materialmente”, e naturalmente isso o filme não podia mostrar. Mas está muito próximo da realidade. Eu lamento que sempre que assistimos a um filme desse teor, não tenhamos a oportunidade de fazer um debate em torno dele, para que extraiamos do filme o que a massa do público não consegue extrair.
Nós vemos mas não entendemos, ninguém sabe por que é que aquilo foi posto no filme. – Mas Raul, como físico que é, o André Luiz ditou isto na década de 40. Raul Teixeira – Na década de 30. – Já lá vão 80 anos. Quer dizer que nesta altura já está desactualizado? O mundo espiritual já deve ter evoluído? Raul Teixeira – Não, não, a Terra é que evoluiu para chegar ao que o mundo espiritual era há 80 anos... – O mundo espiritual não evolui tecnologicamente?
Raul Teixeira – Sim, mas acontece que esses conhecimentos que o mundo espiritual tem hoje, nós só vamos obtê-los daqui a muito tempo, porque estamos hoje a materializar o que no mundo espiritual já era facto corriqueiro há muito tempo. Nós não temos esse imediatismo, nós não conseguimos captar imediatamente o que o mundo espiritual já produz. Recordo-me que há quase 40 anos, experimentei um desdobramento espiritual em que fui levado por entidades benfeitoras a penetrar um antro de espíritos obsessores que planeavam obsidiar um grupo de criaturas terrestres; fui usado como um isco para que eles, ao verem-me, corressem atrás de mim e pudessem manifestar-se nas reuniões mediúnicas, como aconteceu.
O facto é que, ao entrar numa das salas daquele contraforte, à beira do mar, vi uma série de televisõezinhas sobre as mesas, nas quais passavam os nomes das pessoas com as respectivas imagens. Não se falava de microcomputador ainda no Brasil, aquilo já era um microcomputador, quando eu narrei aos meus companheiros as televisõezinhas diferentes, que marcavam o nome das pessoas. E depois, quando eu vi o primeiro microcomputador da minha vida, reparei que era isso que eu tinha visto no desdobramento.
Então o mundo dos espíritos tem coisas que nós ainda nem sonhamos ter na Terra, porque precisam que aqueles espíritos reencarnem ou inspirem os indivíduos que estão na área da pesquisa tecnológica, para que eles então comecem a trazer para cá. Há muitos anos tive oportunidade de ver, no mundo dos espíritos, uma exposição de livros destinados a crianças, livros infantis, livros espíritas infantis onde as imagens saltavam das páginas.
Nós estamos longe ainda disso e no mundo espiritual isso já é corriqueiro. Não é facto que, na hora em que o mundo espiritual apresenta um desenvolvimento, a Terra já o assimile imediatamente. Porque, aquele indivíduo que preparou aquilo, que aprendeu aquilo no Além, tem de reencarnar, chegar à idade da razão, entrar na idade da pesquisa, e só então, com a dificuldade-limite do planeta, ele consegue exteriorizar aquilo.
De modo que o mundo espiritual está sempre muito à frente de nós, e nós, com a nossa mentalidade muito conservadora, ainda demoramos a assimilar as coisas novas do Além. – Porque é que há tanto mistério em torno de Allan Kardec? Nas «Obras Póstumas», que não faz parte da codificação, diz que ele voltaria para completar a sua obra. Uns dizem que o Allan Kardec poderia ter sido o Chico, outros dizem que podia ser o Divaldo Franco porque tem todo o perfil de educador, a obra, outros dizem que podia ser o Raul, outros dizem que ele estará no mundo espiritual, se está porque é que ele não se comunica, se ele se comunica, se usa pseudónimos ou não usa, porquê tanto mistério quando as coisas são tão simples?
Raul Teixeira – Existem nessas suas abordagens algumas questões equivocadas. Há muitos anos, Chico Xavier disse-me, pessoalmente, numa conversa que tivemos em Uberaba, que a mensagem mais autêntica de Allan Kardec que ele tinha lido, tinha sido recebida pela médium brasileira D. Zilda Gama, professora, que se achava num livro chamado «Diário dos Invisíveis». Eu procurei esse livro, que está esgotado, encontrei-o e estava lá a mensagem de Allan Kardec.
Depois disso, nós tivemos uma mensagem de Allan Kardec recebida por vários médiuns na França, no Brasil. Como é que nós podemos dizer que o Chico Xavier é Allan Kardec se ele dizia que a D. Zilda Gama recebera a mais autêntica mensagem? Se enquanto Chico estava encarnado outros médiuns receberam mensagens de Allan Kardec? O «Reformador» publicou essas mensagens. Enquanto nós estivermos com qualquer pensamento de convencer o cientista, ou a quem quer que seja, estaremos deixando de lado a nossa vivência espírita, que é mais fundamental.
Então, não é que nós queiramos fazer complexidade, é que as pessoas ficam tirando proveito da ignorância alheia. Quanto menos o povo sabe, eu posso dizer as minhas tolices. Agora as pessoas dizem isso, alegam que era por ele ser humilde; então ele enganou-me, porque podia ser humilde e não dizer nada. Mas se ele me disse aquela mensagem, ele era merecedor de crédito, eu não podia duvidar do que falava. Se ele diz a outras pessoas a mesma coisa, ele não podia estar a fingir, senão eu perco o crédito que eu dava à mediunidade de Chico Xavier e ao homem que ele era.
De modo que não existe confusão, existem exploradores. O Chico estando desencarnado, toda a gente fala dele o que bem entende, o que bem deseja, e ele não está aí para defender-se, de modo que nós, os espíritas é que temos de ter bom senso, e bom senso e água fluidificada não nos fazem mal jamais. Eu não posso acreditar em tudo o que dizem, tenho de ver aquilo que tem senso, que tem nexo, e se Allan Kardec estivesse aqui reencarnado, qual seria a vantagem disso para nós?
O nosso problema é viver o Espiritismo e não Allan Kardec. Porque também já dizem que Jesus Cristo está aqui reencarnado, e no Brasil há um que diz ser Jesus Cristo. – Tem algum tipo de informação de que Kardec estará ainda no mundo espiritual? Raul Teixeira – Para mim, ele está no mundo espiritual. Por José Lucas (Entrevista concedida pelo Dr. José Raul Teixeira a José Carlos Lucas, para o “Jornal de Espiritismo”, quando do 6.
º Congresso Espírita Mundial, Valência, Espanha, em Outubro 2010. Transcrição áudio de Conceição Venâncio).
