Opinião Ouvir bem “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” – Jesus de Naza
Jornal de Espiritismo nº 46 · Maio 2011Página 134 min
Opinião Ouvir bem “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” – Jesus de Nazaré A Dona Alice gosta muito de falar. Costumo-lhe dizer, na brincadeira, que o seu passatempo favorito é “dar ao trinquete”. Naquela manhã, enquanto engolia apressado o pequeno-almoço, contava-me entusiasmada uma qualquer cena de uma das novelas que tanto gosta de assistir. foto loucomotiv Arrastado pelo desinteresse e alguma sobranceria, viajei algures para parte incerta enquanto o meu corpo permanecia à sua frente.
Quando regressei, surpreendido por um estranho silêncio, a sua cara enrugada estava tristonha e as lágrimas suspensas esperavam um motivo para se libertarem. Atravessava um momento difícil da sua já longa vida octogenária, e não me apercebi que as suas palavras se tinham desviado do pueril tema “noveleiro”. Envergonhado pela evidência crua da minha incapacidade para ouvir, tomei a decisão de ficar atento para averiguar se aquela havia sido uma situação esporádica ou patológica.
Fiquei surpreendido com os resultados: apresentava sintomas de uma surdez funcional. Não me parece que eu seja um caso único. É que apesar de dispormos actualmente de condições excelentes para partilharmos informações, sentimentos e experiências, revelamos detalhes comportamentais que prejudicam a qualidade do processo comunicativo. O Espírito de Emmanuel diz-nos que “Quem aprende a ouvir com atenção aprende a falar com proveito.
” As lágrimas da Dona Alice ensinaram-me que para melhorar a minha habilidade de comunicação não era necessário frequentar cursos de oratória, desenvolver o vocabulário ou aumentar o número de palavras que saem da minha boca. Preocupados com os duros vincos da aparência, alimentamos ambições descabidas e ideias grandiosas para mostrar aos outros aquilo que ainda não conseguimos ser, deixando para trás as pequenas coisas, os detalhes quase invisíveis que constroem a teia da nossa vida.
Ouvir bem é um desses detalhes. Engana-se quem pensa que ouvir é aquela actividade passiva que acontece quando estamos calados numa conversa. Na realidade, ouvimos muito mal e isso é um problema sério. A esmagadora maioria dos atritos que ocorrem nas relações humanaspara além de serem uma consequência óbvia das imperfeições da alma, dos vícios comportamentais adquiridos em vidas passadas e da inabilidade para compreender quem está ao nosso redortêm como causas deficiências gritantes no processo comunicativo.
Na ausência de comunicação, ou sendo ela deficiente, as relações tendem a estabelecer-se através de preconceitos, pressupostos e sobretudo pelo julgamento de intenções que se imaginam nos outros. Este facto potencia a desconfiança, o medo, as ideias mirabolantes, as mais esdrúxulas teorias de conspiração, promovendo a discórdia e os sentimentos de antipatia entre as pessoas. Embirra- -se com alguém não por algo que essa pessoa tenha dito ou feito mas pelas supostas intenções com que o fez.
É um comportamento leviano e superficial que mina as relações pessoais, criando inimizades e clivagens profundas que alimentam muros de segregação à nossa volta. Por vezes, numa troca de palavras, há unicamente a preocupação em convencer o interlocutor das ideias próprias e nenhuma disposição para aceitar o que vem do outro lado. Há uma incapacidade funcional para escutar e sentir o próximo, apenas aguardando uma oportunidade para ripostar, esgrimir argumentos e fazer valer a sua razão.
Quando não ouvimos, criamos um impedimento à ligação que o processo comunicativo exige, como se fossem dois corpos que se repelem. Com o trabalho que estou a empreender para debelar a minha surdez funcional, percebi que ouvir bem é um difícil exercício de atenção. É um processo mental que exige um esforço tremendo e, por isso mesmo, é uma genuína manifestação de amor. Ninguém pode amar através de palavras ou intenções.
Nós amamos quando, por vontade própria e vencendo a inércia do egoísmo e da preguiça, excedemos os nossos limites por alguém. Quando ouvimos verdadeiramente, colocamos em prática o amor pelos outros. Por vezes, numa troca de palavras, há unicamente a preocupação em convencer o interlocutor das ideias próprias e nenhuma disposição para aceitar o que vem do outro lado. A Dona Alice ofereceu-me uma oportunidade preciosa para amar, para ser atencioso, gentil e solidário.
Desperdicei- -a. Noutras situações, podemos amar praticando o respeito pela diferença, aceitando o outro como alguém que tem o direito de discordar das nossas ideias. Noutras, exercitando a humildade ao reconhecermos os erros próprios. Ou ainda apurando a sensibilidade ou crescendo em sabedoria ao colocarmos em dúvida as certezas de que não queremos abdicar. Desperdiçamos tantas oportunidades para amar! Para deixarmos de o fazer, é indispensável ir muito mais além do que a simples distinção dos sons que formam as palavras.
As palavras são uma pequeníssima parte da mensagem emitida. Apenas ouvindo com toda a nossa alma perceberemos aquilo que as palavras não conseguem dizer. Ouvir com a alma é estarmos atentos não só à atitude, aos gestos e à entoação da voz do nosso interlocutor mas também ao magnetismo que ele emana, ao clima mental de que é possuidor. Rubem Alves resume isto desta forma brilhante: “É preciso saber ouvir. Acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente.
” Ao termos esta atitude como ouvintes, criaremos laços de empatia que nos ajudarão a sentir aqueles que nos falam, quase tocar as suas emoções. Ao procurarmos a sintonia alma com alma ouvindo sem preconceitos, compreenderemos mesmo não concordando com o que é dito, estaremos mais sensíveis às necessidades das pessoas. A compreensão gera compreensão. O amor produz ainda mais amor. Cultivando o nosso amor nestes pequenos detalhes das relações humanas, o jardim da nossa vida encher-se-á gradualmente de beleza, enriquecido por canteiros coloridos e bandos de pássaros cantores.
Quando ouvimos de forma eficiente poderemos não igualar a estonteante penugem dos pavões, nem o inebriante canto das carriças, mas seremos a pequena abelha trabalhadora que, zumbindo quase incógnita, vai propagando o pólen da harmonia em todos os corações. - Dona Alice, o que se passou na novela de ontem?
