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Jornal de Espiritismo nº 47 · Julho 2011Página 157 min

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Blogosfera O chique e o choque foto arquivo Aviso-vos desde já que estas linhas vão ser um bocadinho confusas. Mas a culpa não é minha. É de um senhor careca, de barbas enormes, que ontem vi na televisão. Capítulo 1: Nada contra, cada um usa as barbas do comprimento que quiser, mas ele parecia mesmo Deus, na representação antropomórfica de Michelangelo. e se calhar é, ou crê-se, uma espécie de Deus, pelo que me foi dado entender.

Ontem, como acontece muitos sábados, vi um programa chamado TEDTALK. Pronunciava-se um cavalheiro ateísta, com aquela superioridade chique dos ateístas, que começou por falar de Charles Darwin. Charles Darwin é um emblema do movimento ateísta, apesar de não ter sido ateu. E é-o porque é tido como autor da Teoria da Evolução das Espécies. Alfred Russel Wallace, que desenvolveu simultaneamente estudos idênticos, que se pôs em contacto com Darwin a propósito dos mesmos, e que apresentou a comunicação da teoria à Academia, conjuntamente com Darwin, é esquecido, quer pelos religiosos, quer pelos ateus.

Wallace era espírita. Capítulo 2: O cavalheiro ateísta leu em tom jocoso uma objecção de um crítico da época às teorias de Darwin. A ideia geral do texto era de que do nada não pode sair alguma coisa. O que parece lógico. Já dizia outro grande cientista que nada se perde, nada se cria, e tudo se transforma. Mas o tudo que se transforma, de onde veio? É esse paradoxo que os ateus se recusam a considerar. E o referido senhor prosseguiu, no mesmo tom jocoso, superior, que é o chique do chique do Ateísmo, troçando de um enunciado que dizia mais ou menos isto: Conhece alguma máquina que não tenha tido um construtor?

SIM ___ NÃO ___ Conhece alguma obra de arte que não tenha tido um autor? SIM___ NÃO ___ Conhece alguma pessoa que não tenha tido pais? SIM___ NÃO ___ Se respondeu NÃO a alguma das questões, justifique. Capítulo 3: A suposta desmontagem da argumentação acima descrita (saudada com gargalhadas de desdém por parte da chique assistência) foi a que seguir descrevo. O cavalheiro mostrou imagens de raparigas esbeltas, de bolo de chocolate, e de um bebé.

E perguntou, respondendo-se: Porque é que os jovens se sentem atraídos por estas raparigas? Porque são belas. Porque é que o bolo de chocolate nos faz salivar? Porque é doce. Porque é que nos enternecemos com o bebé? Porque é “fofinho”. Então, triunfal, passou a “demonstrar” que Deus não existe... Capítulo 4: A “demonstração” consistiu em mais uma série de preposições: As jovens não são belas. Se estivéssemos programados para achar belas raparigas gordíssimas, com quatro olhos e bigode, seriam essas que nos atrairiam.

A beleza é um conceito relativo, que a Evolução nos criou, e que significa “fertilidade e saúde”. - O bolo de chocolate não é doce. Etc. - O bebé não é fofinho. Etc. Capítulo 5: Correndo o risco de ser um bocadinho rústico, pergunto: e o que tem a ver o traseiro das calças com a feira de Borba? Acharão os chiques ateus que as pessoas que crêem em Deus não sabem que a bosta é uma iguaria para um escaravelho rola-bosta, ao passo que a bosta, para nós, humanos, é uma...

bosta? O que prova isso contra a existência de Deus? Para quem crê em Deus, essa é mais uma das maravilhas da Criação... ops! Dissemos a palavra proibida! CRIA Ç Ã O! Não há nada que deixe os ateus chiques mais repugnados do que a palavra Criação, que consideram ser o oposto irracional da racional e evoluída EVOLU Ç Ã O... Allan Kardec, há século e meio, explicou que a ciência e a religião são compatíveis, desde que a fé seja raciocinada e não pretenda desautorizar o veredicto da observação, da ciência e do raciocínio.

E é por concordar com isso que sou espÌrita. Capítulo 6: A Evolução das Espécies não é incompatível com a Ideia de que o Universo foi criado. A Teoria do Big-bang, a explosão primordial que fez nascer o Universo material, foi produzida por um crente, o astrónomo, físico e... sacerdote católico belga Georges Lemaître. Demos a palavra a Marlene Nobre, que é médica ginecologista e investigadora, agora aposentada, e que, apesar de ter a estranha fraqueza de ser espírita, cita como fontes cientistas credíveis que não padecem desse estranho mal que afecta tantas mentes brilhantes: «(...)

Reconhecemos o grande valor da Teoria Neodarwiniana e de seus pressupostos básicosa evolução das espécies, a mutaçãoea selecção naturaljá comprovados pela investigação científica. Ela, porém, tem-se revelado insuficiente para explicar a evolução como um todo, porque tem no acaso um dos seus pilares. O mesmo acontece com todas as outras teorias que buscam complementá-la, mantendo a mesma base explicativa, como as de Orgel, Eigen, Gilbert, Monod, Dawkins, Kimura, Gould, Kauffman.

Demonstrou-se, por exemplo, através de cálculos matemáticos, a impossibilidade estatística (101000 contra um) de se juntar, ao acaso, mil enzimas das duas mil necessárias ao funcionamento de uma célula. Do mesmo modo, já se constatou que o acaso é insuficiente para explicar, passo a passo, de forma detalhada, científica, o surgimento de estruturas complexas, como o olho, o cílio ou flagelo, a coagulação sanguínea. «Por isso, acreditamos que a Teoria do Planejamento Inteligente, que não tem por base o acaso e é defendida por cientistas competentes, como o bioquímico Michael Behe, a bióloga Lynn Margulis, e os físicos Ígor e Grischka Bogdanov, possui argumentos científicos bem mais sólidos para explicar a evolução dos seres vivos.

Behe, em seu livro «A Caixa Preta de Darwin», afirma que não importa o nome que se lhe dê, mas, para ele, indiscutivelmente, a vida tem um Planeador. Esta mesma conclusão está em Deus e a Ciência, obra de J. Guitton e dos irmãos Bogdanov. Na mesma linha de raciocínio, Margulis e Sagan (2002, p. 289) afirmam: “nem o DNA nem qualquer outro tipo de molécula, por si só, é capaz de explicar a vida”. (...) Capítulo 7: Mas vamos mais atrás.

Não é preciso ser-se físico, astrónomo, médico, nem ter-se umas barbas, uns óculos e uma careca como o senhor do TEDTALK para intuirmos que o Nada não pode aquecer e explodir, num aparatoso Big-bang que originou o Universo. Não negamos o Big-bang. No Antigo Testamento ele tem outro nome: faça-se Luz. “Fiat Lux!, que foi o que Deus “disse”. E fez-se Luz. Capítulo 8: Antes do Big-bang alguma coisa forçosamente havia. Se tivermos uma caixa vazia, por muito que esperemos, ela não se enche de nada a não ser de ar e de poeira.

O Nada não aquece sozinho. Capítulo 9: Outro rapaz medianamente inteligente (hrmmm...hrmmm...), o super- cientista Stephen Hawking, refere-se amiúde a Deus nas suas obras, ainda que não seja um crente tradicional e dogmático. Obviamente, acrescento eu, pois Hawking é um defensor do raciocínio, por oposição ao dogma inquestionável, ao “mistério” a priori inexplicável. E porque eu também sou chiqueapesar de não ser ateuaqui vai uma citação, e em Inglês, para ser ainda mais chique: “There is a fundamental difference between religion, which is based on authority [imposed dogma, faith], [as opposed to] science, which is based on observation and reason.

Science will win because it works”.* Diz Hawking que há uma diferença fundamental entre ciência, e religiãoque se baseia na autoridade da fé dogmática e imposta, enquanto que a ciência se baseia na observação e na razão. E por isso a ciência sai a ganhar. Allan Kardec, há século e meio, explicou que a ciência e a religião são compatíveis, desde que a fé seja raciocinada e não pretenda desautorizar o veredicto da observação, da ciência e do raciocínio.

E é por concordar com isso que sou espírita. Capítulo 10: “Então se Deus criou o Universo, quem criou Deus?” - é a pergunta clássica dos ateus. Eu cá não sei “quem” criou Deus. Deus é por natureza incriado, eterno, existe desde sempre e existirá sempre. Creio em Deus porque reconheço que o Nada não produz alguma coisae muito menos o Universo. Creio em Deus porque pessoas como Jesus de Nazaré vieram d’Ele dar testemunho.

Creio em Deus porque nas coisas aparentemente banais vejo os milagresmesmo na actividade de um escaravelho rola-bosta. Creio em Deus porque está sobejamente provada a imortalidade da alma, e portanto a existência de inteligências incorpóreas. Creio em Deus porque a razão nos leva facilmente a conceber que “algo” terá criado tudo o que existe, ainda que não consigamos por enquanto conceber Deus, existindo desde sempre e existindo para sempre, Todo-Poderoso, infinitamente justo e bom.

Se os ateus preferem não pensar no que existia antes do Big-bang, eu não posso fugir a isso. Até porque o Big-bang pode ser apenas uma parte da história. Já o Hinduísmo tem um mito de um deus que adormece e sonha, e cada sonho desse deus é o nascimento e a morte de um Universo. Por detrás da sabedoria dos Antigos escondem- se coisas tão modernas, científicas e chiques como a teoria dos universos parelos, por muito que isto choque.

Epílogo: Ateus que nos leiam, não fiquem a pensar que há da parte dos espíritas qualquer tipo de acintosidade em relaçãoavós. Mas Deus por Deus, prefiro Deus ao senhor das barbas. E já puseram remotamente a hipótese de poderem afinal estar errados, e Deus existir mesmo, no sentido amplo e grandiso que Hawking ou Kardec lhe dão? Por André (Blogue de Espiritismo, 29.5.