47 — índice de conteúdos

Opinião A mulher adúltera e o amor foto loucomotiv As pequenas históri

Jornal de Espiritismo nº 47 · Julho 2011Página 146 min

Partilhar
Idioma

Opinião A mulher adúltera e o amor foto loucomotiv As pequenas histórias que se desenrolam em torno dos ensinamentos do Cristo, consistem na maioria em episódios de fé, esperança, conversão ou redenção. Mas esta é uma história, de amor. O episódio da mulher adúltera terá ocorrido no segundo ano da vida pública de Jesus, quando o Mestre começava a tornar-se conhecido pela doutrina de amor e perdão que professava. É durante o mês de Outubro, findas as Festas dos Tabernáculos, que a cena decorre.

Também Jesus viera a Jerusalém para participar nas festividades, mas em simultâneo queria conviver com o povo e, talvez, dar-se a conhecer a este. Muitos já O tinham visto, pelo que a sua presença provocava já reacções entre os populares e, de cariz diverso, entre os doutores da lei. João no seu evangelho relata que Jesus terá pernoitado no Monte das Oliveiras e de madrugada dirigiu-se ao templo onde se sentou a ensinar.

Foi nesse momento que “os doutores da Lei e os fariseus trouxeram- -lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio e disseram-lhe: - Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?” O Mestre demora-se na resposta verbal, como que preparando em silêncio a interpelação que verbalizaria até que, erguendo-se, diz: “Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!

- E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra. Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: - Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? - Ela respondeu: - Ninguém, Senhor. - Disse-lhe Jesus: - Também Eu não te condeno. Vai e não voltes a pecar.” (João: VIII 1 – 11). Demorando-nos na análise da narrativa, percebe-se que durante o período de tempo decorrente entre a interrogação dos doutores da lei judaica “- E Tu que dizes?

” e a resposta do Mestre, algo terá ocorrido que parece ter alterado a disposição da turba inflamada. Deixando a exigência cega da condenação pelo apedrejamento, o grupo vai optando pelo silêncio. Ao mesmo tempo, reporta João, palavras desconhecidasaté recentementevão sendo escritas no chão por Jesus, pelo que é lícito estabelecer uma relação entre esta alteração de humor e o que o Messias terá inscrito no solo durante o seu silêncio verbal.

O plano espiritual esclarece a ambas as interrogações com o mesmo facto: - o que o Filho do Homem escrevia no solo com o seu dedo, não era mais do que os defeitos dos que, a cada instante O observavam, recordando-os das suas próprias imperfeições, fossem ladrões, caluniadores ou … adúlteros. (Cfr. Luz do Mundo: 13) A consciência incriminava no silêncio, a cada um. Daí que, quando a resposta de Jesus é finalmente verbalizada, a reflexão impulsionada pela culpa já havia induzido à indecisão pela condenação… faltava apenas desmontar a armadilha fundamentada na lei moisaica.

Qualquer que fosse a opção tomada pelo Mestre, seria sempre alvo de crítica. Para casos de adultério, a lei de Moisés era clara quanto à pena: morte por apedrejamento – como acontece ainda hoje em alguns países. Porém, ainda que o Cristo anui-se com esta medida, estaria a ir contra as determinações de Roma, que apenas permitia ao Imperador e seus representantes nas regiões conquistadas, como era o caso da Judeia, dispor da vida de terceiros.

E sendo certo que pairava no ar uma certa tolerância para com todos dado o clima de festividade, optar declaradamente pelo perdão poderia ser interpretado como um incentivo ao adultério e como tal, imprudente. Jesus, então, devolve como resposta uma outra pergunta, deixando a quem o interpelava a responsabilidade da acção. Não houve castigo. Mas a história desta mulher não fica por aqui. Esvaziada a praça condenatória, a indiciada, conforme a lei judaica, é por todos abandonada e naquela mesma noite busca o Messias com o propósito de modificar o seu curso.

Filha de uma mãe cega e paralítica (cfr. Contos e apólogos: 14), sem conseguir deixar de transparecer o drama que a apoquentava, solicitou um instante de conversação com Jesus. Aqui reproduz- -se parte desse diálogo: “- Sinto-me aturdida – ripostou em pranto – sem saber que rumo dar à minha existência. - Lutei muito antes de tombar (…) o sedutor rondou-me os passos (…) Meu esposo, passados os primeiros dias da novidade conjugal, retomou às noitadas alegres, deixando-me em solidão (…) carente, permiti-me envenenar por tormentos (…) com sede de ternura, embriaguei-me de concupiscência e ansiosa pela água pura do amor, chafurdei no lodaçal dos desejos doentios.

O resultado foi a tragédia (…) Abandonada e sem lar, agora padeço o desprezo e a zombaria geral.” Entretanto Jesus esclarecia que não é importante o que os outros pensam de nós, mas é vital o nosso equilíbrio íntimo para vivermos em tranquilidade: “- A paciência e a confiança em Deus serão as duas providências iniciais que te facultarão a cura e a renovação da saúde (…) Arma-te de humildade e confia no amanhã. A memória do povo é duradoura na referência às faltas alheias, sempre recordadas com o ácido da acusação e os acepipes da malícia.

(…) Busca a oportunidade de reparação e adapta-te à situação actual (…) Segue renovada na certeza do triunfo (...) Onde quer que vás, Eu estarei contigo...”. A mulher mudou-se para Tiro, onde passou a residir em humilde habitação. Daí que, quando a resposta de Jesus é finalmente verbalizada, a reflexão impulsionada pela culpa já havia induzido à indecisão pela condenação, faltava apenas desmontar a armadilha fundamentada na lei moisaica.

Dez anos depois, numa tarde amena, o marido adúltero chega trazido por caridade, a uma casa cuja maior riqueza era o amor prestado através da palavra do Cristo. Tinha o corpo repleto de chagas, em extrema penúria, quase morto sob o fardo de mil vicissitudes. Recolhido com carinho, teve as úlceras lavadas e aliviadas com unguentos medicamentosos e recebeu caldo reconfortante de mãos caridosas. Quando se recobrou do desalento, ouviu a mensagem de encorajamento em nome de Jesus e indagou interessado: “- Vós o conhecestes?

- Sim, eu o conheci oportunamente… - Também eu tive a honra de O conhecer – respondeu moribundo – mas não soube beneficiar-me. Egoísta e mau, O detestei, afastando-me da Sua presença confuso e amargurado (…) abandonei a companheira a quem infelicitara com os meus vícios e envenenei-me de dor. Passados anos, despertando para a verdade, tenho-a buscado em vão, até que a doença me devorou o corpo e aqui estou.” A mulher que era responsável por aquela casa humilde, querida e respeitada por todos, recordou-se naquele instante da praça e do diálogo nocturno com o Mestre, reconhecendo diante de si o companheiro do passado.

Jesus lhe havia dito: “- O arrependimento do erro, a confiança em Deus e a paciência, são os primeiros passos para a reparação de qualquer delito.” Ela soube continuar a caminhada, até receber a glória do perdão do seu acto, através da misericórdia para com quem a havia abandonado. (Cfr. Pelos Caminhos de Jesus: 15) O episódio da mulher adúltera vem narrado no ESE (Evangelho Segundo o Espiritismo X: 11-13) no capítulo Bem-aventurados os misericordiosos.

Recorda aos Homens que o amor sincero e devoto é capaz de suplantar o erro ainda na mesma existência, através do arrependimento.