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Jornal de Espiritismo nº 47 · Julho 2011Página 133 min
Opinião PUBLICIDADE PUBLICIDADE Música solar Procurando ir mais além na compreensão dos mistérios da atmosfera solar, cientistas da Universidade de Sheffield, em Inglaterra, utilizaram sofisticados recursos informáticos bem como os mais complexos modelos matemáticos na análise de imagens de satélite, e reproduziram, no Verão do ano passado, sons harmónicos associados à actividade magnética existente na coroa solara camada mais externa do Sol.
Na hiperligação que se segue, poderá ser ouvida uma reprodução dessa música solar: http://soundcloud.com/university- of-sheffield/sound-of-the-sun Esta revelação, embora inusitada, não é propriamente uma novidade para alguns sábios e poetas. William Shakespeare no final do Século XVI na sua obra “O Mercador de Veneza”, Acto V – Cena I, colocou uma das suas personagens a exprimir-se desta forma: “Observa como se acha o soalho do céu todo incrustado de pedacinhos de ouro cintilante.
Não há estrela, por menor que seja, de quantas aí contemplas, que em seu curso não cante como um anjo, em consonância com os querubins dotados de olhos moços. Na alma imortal essa harmonia existe. Mas enquanto estas vestes transitórias de argila a envolvem muito intimamente, não podemos ouvi-la.” Shakespeare, conjugando as palavras como uma doce melodia, já então imaginava as estrelas cantando hossanas ao longo do seu caminho sideral.
Também Pitágoras, filósofo e matemático Grego do século VI A.C., compreendia o Universo como uma estrutura musical, nomeando-a de “Sinfonia das Esferas”. O que estes dois génios não desconfiavam é que, com o excepcional avanço da ciência, seria possível ao Homem escutar o cântico do Sol, a estrela que mantém a vida orgânica neste pequeno planeta a que chamamos Terra. O fascínio pela natureza, o desejo irresistível de compreender e saber mais sobre os mistérios do mundo à sua volta, é uma das virtudes que melhor distingue os seres humanos e um dos mais preciosos instrumentos do seu progresso.
Reproduzir o ribombar de uma estrela é um acontecimento admirável que deveria humedecer os nossos olhos e deixar-nos sem fôlego. Mas, submergidos na velocidade estonteante com que a vida nos engole, acaba por se transformar em mais uma notícia corriqueira que atiramos para cima do entulho que guardamos nas gavetas do desinteresse e da indiferença. O som é toda a variação de pressão, densidade e temperatura que ocorre na Natureza.
O silêncio, tal como o imaginamos, não existe na realidade. O nosso rudimentar aparelho auditivo é que é ineficiente para detectar e descodificar a infinita gama de entoações que lhe chegam. Encanta-nos o ruído da água acariciando as pedras do riacho, inspira-nos a musicalidade do vento sacudindo as folhas de um carvalho, adormecemos embalados pela chuva que fustiga a calçada, reflectimos ao som das vagas marítimas que se espreguiçam ao longo das praias, mas continuamos surdos a melodias muito mais subtis: que composição cantará um molho de açucenas ao entardecer?
O que dirão às flores as gotas de orvalho pela manhã? Que hino trauteia a Lua espelhada sobre o mar? Que ode produzirá o sentimento de um grupo de pessoas unidas em oração? Tudo o que existe no Universo vibra de uma forma singular, compondo o seu cântico íntimo de energia. Todos os átomos do Universo pertencem à magistral orquestra de Deus, entoando uma sinfonia sublime e genuína. É pura poesia celeste que dispensa palavras, música excelsa que vibra pelo éter sob a batuta do maestro supremo.
Também nós fazemos parte da magna orquestra Universal e sob nossa responsabilidade dispomos de uns ferrinhos que precisamos afinar pelo tom do conjunto. É verdade que não é um instrumento complexo, nem mesmo imprescindível para o funcionamento de todo o Universo, mas o ouvido atento do maestro consegue descortinar se seguimos o diapasão que ele idealizou para a sua sinfonia ou se desafinamos e fugimos ao ritmo sugerido.
O maestro, ao contrário do que imaginamos, não é irascível nem frenético. Ele é paciente e infinitamente bondoso, oferecendo-nos constantes oportunidades para aprender e praticar. Com o tempo, e depois de inúmeros ensaios, audições e concertos em vidas sucessivas, já saberemos manifestar a nossa melodia de uma forma mais harmoniosa, e possuidores de uma tonalidade vibratória mais sublimada, teremos à disposição novos instrumentos para expressar de uma forma mais elevada o amor, a arte e a beleza que jorram da nossa Alma.
