Editorial foto loucomotiv O crítico foto loucomotiv Pelo retrovisor do
Jornal de Espiritismo nº 48 · Setembro 2011Página 26 min
carro, o pai leu a expressão daquele rosto doce, cheio de infância. Acabara de colocar uma questão inesperada, tão antiga como a humanidade: «Ó pai, eu não queria morrer...». O automóvel, agora estacionado, silenciou o motor. Condoído com a preocupação do petiz, o adulto sentiu o tempo parar naquele fim de dia citadino. Depressa se desenhou na mente uma síntese capaz de regenerar quaisquer agruras: «Já pensaste no que aconteceria se a semente ao cair na terra tivesse medo de morrer?
». Enquanto uma breve pausa enraizava a figura, tratou de reforçar: «Não saberíamos o que é uma floresta». Outra pausa. Insiste: «E se à lagarta acontecesse o mesmo, se tivesse medo de morrer?». Belarmino Silveira já frequentava há algum tempo aquele grupo espírita. Tinha sido atendido nos diversos tratamentos espirituais existentes na instituição, tinha participado dos estudos, e agora cooperava nalgumas actividades desenvolvidas naquele recanto espiritual.
No fundo, reconhecia-se ainda muito imperfeito, mas sentia-se feliz com a confiança depositada nele. Afinal, sabia que somente através de pequenos trabalhos se capacitaria a desenvolver actividades cada vez mais complexas. A casa era grande, e tinha uma enorme afluência de pessoas em busca de alívio para as suas dores, consolo e orientações. Observava as pessoas irem e virem, e percebia os resultados alcançados. Ele próprio tinha passado por aquele processo.
Quando chegou à casa, trazia tantas dúvidas, e tinha sido tão bem atendido... Tinha, inclusive, convidado muitas pessoas e acompanhado a sua melhoria ao longo do tempo. Na medida em que Belarmino participava dos trabalhos, mais se sentia envolvido pelos amigos espirituais, mais desejava participar. Sentia-se bem em estar naquele grupo de pessoas, com defeitos, mas desejosas de melhorar. Sempre que podia, acorria até ao local que sabia servir de ligação com os planos maiores da vida.
Belarmino seguia bem, mas um pequeno detalhe não estava a ser adequadamente cuidado, e acabou por comprometer toda a sua trajectória. Embora estudasse, Belarmino não conseguiu apreender o que representa a doutrina espírita na vida de cada um. Ele ligava-se às pessoas, e não ao sentido espiritual da casa. Ele vinculava integralmente as pessoas à doutrina, sem se dar conta que mesmo aqueles que, naquele momento, dirigiam a instituição, eram falíveis, encontravam-se em processo de crescimento.
Um belo dia, Belarmino aborreceu-se. Não importa aqui o motivo. Existem, na verdade, tantos Belarminos, e tantos motivos. Tudo, a partir dali, resultava em crítica. Onde antes via atenção, passou a ver intromissão. Onde antes via companheirismo, agora via hipocrisia. Já não via valor em qualquer actividade desenvolvida. Embora ele próprio tivesse sido amparado ali, embora tivesse visto tantas pessoas adentrarem a casa em completo desequilíbrio, sentirem-se melhor após o adequado tratamento, passou a uma completa descrença.
Só tinha, agora, olhos para o erro. Passou aos comentários. Sempre que o assunto vinha à tona, na sua residência, ou na própria instituição, pois ele continuava a desenvolver suas actividades lá, falava do seu descontentamento. Algumas pessoas, amarguradas como ele, passaram a dar-lhe ouvidos, mas a maioria começou a afastar-se. Afinal, é cansativo ficar a ouvir constantes reclamações. Havia quem perguntasse: Mas o que se passa com Belarmino?
Por que fala ele mal da instituição na qual ele próprio foi atendido e agora exerce as suas actividades espirituais? Não existe afinal nada de bom nesta casa? Será que são todos marionetas na mão de pessoas inescrupulosas? O tempo passou e Belarmino estava cada vez mais isolado. Certa noite, ao subir a escada do prédio até ao salão de palestra, ouviu a conversa de um grupo, na qual se elogiava a casa, falava-se do sentido que havia sido dado às suas vidas, antes tão confusas.
Decidiu assistir à palestra e diferentemente do que habitualmente fazia, prestou atenção às palavras do expositor. Talvez por inspiração dos seus amigos espirituais, talvez pela conversa ouvida na escada, talvez porque gostasse do expositor, talvez... Ele pensava: eu o conheço, e sei que ele irá, certamente, colocar certas pessoas desta casa no seu devido lugar. O orador, tranquilo, começou a contando uma conhecida história, que fala a respeito da crítica.
Nesta história, um expositor arrumara, cuidadosamente, uma mesa, cobrindo-a com uma belíssima tolha de linho branco, que tinha uma pequena mancha numa extremidade. Quando perguntou às pessoas o que estavam a ver, elas responderam: uma mancha na toalha. Aquela história caiu sobre Belarmino como um raio. Achou que todos olhavam para ele. Baixou a cabeça, até ter coragem de olhar à volta. Percebeu que ninguém olhava para ele, as pessoas estavam atentas à palestra, buscando absorver os conceitos que eram apresentados.
Os seus olhos brilharam, como há muito não ocorria. Por que seria? Parou para reflectir, e chegou à seguinte conclusão: o brilho jamais deixou de existir, ele, Belarmino, é que havia perdido a capacidade de alcançá-lo. Acostumara-se a criticar, e achava que tudo o que diziam era para ele. Belarmino sentiu-se envergonhado, os seus olhos ardiam, mas não conseguia chorar. Olhou, novamente, à volta. Deteve-se em alguns rostos, viu esperança em uns, alívio em outros, mas ainda existiam rostos aflitos, expressões perturbadas.
Aí, então, Belarmino chorou. Concluiu que, nos últimos tempos, as suas opções foram erradas. Poderia ter escolhido desanuviar essas expressões perturbadas, aliviar os corações aflitos. Mas a sua opção fora a da crítica contínua. As lágrimas ainda corriam, quando se deu conta de que a reunião tinha terminado eopúblico já se levantava. Levantou-se, também, e sorriu. Sentia-se leve como há muito tempo não se sentia. Deteve-se nos quadros de aviso, leu as mensagens, cumprimentou as pessoas.
Desde aquele dia, Belarmino mudou a sua atitude. Quando percebia uma falha qualquer no trabalho, e muitas existiam, não mais criticava. Ele perguntava: o que posso fazer para corrigir esta falha? Oferecia-se para ajudar, cooperando no atendimento das pessoas. Belarmino, agora, parecia entender o que é ser espírita. http://www.espirito.org.br/portal/artigos/diversos/comportamento/na-casa- espirita.html Concluiu: «Não haveria borboletas.
Não tenhas medo disso. Eu não tenho. Ainda és muito pequenino para te preocupares». Uma ideia de continuidade, de transformação, de passagem de um estádio evolutivo a outro dissipou a sombra na mente infantil e o assunto terá ficado por ali, para já. Mais não desejava o progenitor. Ponderou que passar assuntos complexos à mente infantil, numa hora de ocaso, cheios de convicções pessoais, pode aturdir mais do que ajudar.
Alguns anos depois, conseguirá perceber os casos de quase-morte, fenómenos em que alguém com o corpo físico em coma sai do veículo corporal e experiencia, percepciona, pensa, age e reage, sendo capaz de descrever o que se passou entretanto, naquele espaço e até noutros. Poderá ler estudos vários sobre o que se sente ao sair do corpo por efeito da morte corporal, de acordo com a experiência dos espíritos que já passaram essa barreira vibratória e comparar descrições, aferir dados e tirar conclusões, graças a obras de origem mediúnica publicadas em várias geografias e fases da história.
De repente, um dia vai deparar com um daqueles casos em que um médium sério inesperadamente vê alguém que já partiu deste plano material num quadro de intervenção dialogada, sem que este de modo algum o possa ter conhecido, e perceber que, afinal, a ideia espírita é uma luz que cintila no horizonte experimental e ergue uma filosofia de vida com fronteiras muito mais alargadas do que as que a sociedade hodierna quer fixar a ferro e fogo.
Tudo a seu tempo. Há o momento da semente ser apenas semente, há dia para despertar, instante para crescer, dias para florir e por fim frutificar. Além das cores seguem-se as formas e a capacidade de ver mais além revela um amadurecimento interior, nem sempre compreensível para qualquer um. A imortalidade do ser, a conservação da individualidade no plano espiritual, a possibilidade da comunicação entre os planos de vida material e espiritual, as vidas sucessivas, semear e colher no campo do autoconhecimento, tudo isso resulta de cortinas que se abrem, pouco a pouco, à medida que alguém trata de se aproximar e afastar véus.
São também sementes que aqui deixamos, para nós próprios, para si. Enquanto se superam as crises pessoais e colectivas, temos gosto em desejar-lhe boa leitura!
