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Opinião foto arquivo Quem são os deficientes?

Jornal de Espiritismo nº 48 · Setembro 2011Página 124 min

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Merece destaque o artigo do jornal «Público» sobre a nadadora Natalie du Toit, que esteve em Portugal a competir, de igual para igual, com pessoas que têm as duas pernas... Antes de mais, os nossos parabéns ao entrevistador Hugo Daniel Sousa, ao autor da soberba fotografia, e ao jornal, que não escondeu o artigo perturbador num cantinho discreto, antes lhe deu destaque. Porque é perturbador, quer queiramos quer não.

Durante os larguíssimos milhares de anos de evolução do homem na Terra, perder um membro significava uma grande desvantagem, na fuga aos perigos, na obtenção de alimento, na protecção da família e da comunidade, na reprodução, na guerra, no trabalho. Ainda hoje a simetria é especialmente prezada na Arte e na Engenharia, enquanto a assimetria é energicamente rejeitada por quem não tem formação estética ou mecânica. E isso deve-se possivelmente a uma associação inconsciente com a geometria do corpo, mutilado ou não.

Motos, automóveis, tractores, máquinas industriais de corte e prensagem, vieram facilitar a vida a toda a gente, proporcionando o alívio de tarefas fisicamente exigentes, a rapidez das deslocações, e uma liberdade que dantes não havia. Mas trouxe também os acidentes graves, na proporção da força dos cavalos-vapor das ditas máquinas. Dantes só se perdiam membros por doença degenerativa grave ou na guerra, decepados ou amputados posteriormente.

Antes de ter conhecido a doutrina espírita eu, como tanta gente, tinha um receio acentuado de um dia ter que ser amputado. Nunca tive medo da morte, mas a ideia de ficar sem um membro assustava-me muito. Agora só me assusta moderadamente. Um dia, um palestrante espírita abordou de passagem o assunto, e lembrou, com bom humor, que só o corpo físico é amputado, o corpo espiritualréplica fluídica do corpo “propriamente dito”, que nos acompanha no Alémesse, fica intacto.

É muito bom exorcizar os medos através do riso. A gargalhada saudável que percorreu a sala nesse dia, diluiu muitas apreensões, e quebrou o tabu de considerarmos friamente o que faremos se suceder um dos nossos piores receios. Não é preciso ser-se adepto da doutrina espírita, não é preciso acreditar-se sequer em Deus e na imortalidade da alma, para se enfrentar este receio ou para se lidar com sucesso com uma amputação.

Há um relato célebre de um ascensorista em Nova Iorque que teve um acidente gravíssimo que lhe estropiou o corpo, mas que o fez pensar na vida de outra forma. Aceitou que era inevitável, não se suicidou, e em vez disso passou a tirar o melhor partido de tudo o que o acidente não lhe retirou: a vida, a família, os amigos, o trabalho, o discernimento, a vontade de ser útil. Temos no Blog de Espiritismo um “post” sobre Dale Carnegie , que foi quem contou ao mundo este caso.

Nesta entrevista, a nadadora é bem clara: não é algo que se ultrapasse nesta vida, é penoso, é muito duro, mas ela resolveu fazer como o ascensorista. E não sabe, certamente, que esta vida terrena é uma de muitas, que é o elo de uma longa cadeia evolutiva, em que estamos alternadamente no mundo material e no mundo espiritual. Tem ainda mais valor, acho eu. A Terra é ainda aquilo a que chamamos um mundo de provas e expiações.

Outrora, quando foi mundo primitivo, perder um membro era muito mais grave, e até fatal. Antes de ter conhecido a doutrina espírita eu, como tanta gente, tinha um receio acentuado de um dia ter que ser amputado. Nunca tive medo da morte, mas a ideia de ficar sem um membro assustava-me muito. Actualmente há mais recursos médicos e mais sensibilidade humana, como a que rodeou esta atleta e a impediu de renunciar. Quando a Terra for um mundo mais evoluído (de regeneração), a medicina terá evoluído ao nível da reconstituição do organismo, ou dos membros artificiais, e a prova será menos penosa.

Não nos seria possível conceber um Deus infinitamente justo e bom que permitisse que uma rapariga perdesse uma perna aos 17 anos num acidente de viação, e deixasse outras pessoas, aleatoriamente, com pernas e braços. Para não falar dos que já nascem com graves deficiências do corpo ou da mente. A existir Deus, o que sucedeu a esta rapariga tem de ter um propósito. Pode tratar-se de um sofrimento que ela precisa de atravessar para sua evolução, consequência de más condutas em vidas anteriores.

Ou não: pode ser simplesmente uma prova. E ela está a passá-la com distinção. Quando regressar ao Além, verificará que o corpo espiritual continua tão completo e perfeito como antes, e que a deficiência física é preferível à deficiência moral. No nosso mundo, ainda governado pelos paradigmas materialistas, deficiente é o que teve um percalço no seu corpo perecível, temporário, que daqui a 100 anos será pó. Para Deus, deficientes são os que estacionam nos sentimentos inferiores da inveja, do ódio, da cupidez, e do orgulhoque é raiz de todos eles.

Deficientes são os que exploram de forma obscena o trabalho alheio, os que roubam (à mão armada ou de colarinho branco), os que espoliam sem pudor a afliçãoeo sofrimento dos seus irmãos, vendendo milagres e curas que nunca chegam. São os que humilham, que torturam, que assassinam, que oprimem, que perseguem, que discriminam. Esses não vão para o Inferno, porque o Inferno não existe. O verdadeiro Inferno é a consciência pesada que os há-de fazer desejar ardentemente reparar os erros passados.

De preferência compensando em bem a ignorância a que por comodidade de linguagem chamamos o “mal”. Entretanto, o nosso reconhecimento a Natalie du Toit, pelo seu exemplo.