Opinião Questões em volta do nascimento de Jesus A festa de Natal foi
Jornal de Espiritismo nº 49 · Novembro 2011Página 146 min
inicialmente adoptada para celebrar o nascimento anual do Deus Sol no solstício de inverno (natalis invicti Solis), tendo sido adotada como festa cristã pela Igreja de Roma no século III. Tinha como propósito facilitar a conversão dos povos pagãos que se encontravam sob o domínio do Império. Mas, não obstante ser vivenciada anualmente por milhões de cristãos, permanece envolta em diversos mistérios.
Quando terá nascido Jesus? Onde terá sido? Quem o terá visitado? Mas mais importante que todo o resto, qual a principal mensagem a reter. Um estudo mais apurado sobre alguns aspectos permite-nos desvendá- -los. O episódio do nascimento do Cristo é referido nos Evangelhos de Lucas e Mateus. Entre ambos existem diferenças curiosas que permitem traçar alguma complementariedade. Lucas situa o episódio durante a governação de César Augusto em Roma, antes de Quirínio ser governador da Síria, referindo ambos ser no tempo do rei Herodes.
A tradição marca o dia 25 de dezembro de 0000 como a data abençoada para a vinda da “Grande Estrela” ao nosso orbe. Mas os dados históricos contrariam esta possibilidade. Nem Herodes era rei em 000 nem o mês podia ser em dezembro. Esclareça- -se que só alguns séculos após o nascimento de Cristo é que se optou por atribuir a este acontecimento a origem de contagem do tempo. A proposta foi apresentada pelo monge Dionísío o Exíguo no ano 532.
Dionísio supunha que Jesus tinha nascido em 25 de Dezembro do ano 753 de Roma e propõe esta data para o início da era cristã. Mas, para além de um erro dos cronologistas que introduziram um atraso de 7 dias, transferindo o início da era cristã para 1 de Janeiro do ano 754 de Roma, é actualmente assumido pela comunidade científica que os cálculos estavam incorrectos e que Cristo terá nascido 5 a 7 anos antes. Com efeito, esta data é posterior ao édito do recenseamento do mundo romano (ano 747 de Roma ou mais cedo) e anterior à morte de Herodes (ano 750 de Roma) (cfr.
MNM, Director do Obs. Ast. Lisboa). Quanto ao mês, sabemos por Lucas que João é concebido findo o turno de Zacarias no Templo, o turno de Abias, nas duas últimas semanas do mês Tamuz, que coincide com os nossos meses de Junho / Julho. E o evangelista relata que Gabriel comunica a Maria, que ela espera um filho de Deus quando Isabel estava no 6.º mês de gravidez (Lucas 1:36). Podemos portanto concluir que o Cristo terá sido gerado entre dezembro e janeiro, e dado não existirem referências de que o parto terá sido prematuro, Jesus terá nascido, não em dezembro, mas em setembro ou outubro.
Aliás, só assim se compreende que, aquando do nascimento de Jesus, existissem pastores no relento da noite a vigiar os seus rebanhos. Naquela região, se fosse em dezembro, estaria demasiado frio para que isso acontecesse. Podemos portanto concluir que o Mestre terá nascido à sensivelmente 2017 anos, entre os meses de setembro e outubro. Mas onde? Devido aos censos decretados na época, José e Maria deslocavam-se para Belém, cidade natal de José, para casa de familiares seus.
Lucas diz- -nos que o Cristo terá nascido na manjedoura de uma estalagem, enquanto Mateus situa o nascimento no interior de uma casa. Contradição? Talvez não. Se pesquisarmos sobre a arquitetura das casas na região (que permanecem na actualidade semelhantes ao que eram na época), tratam-se de galerias largas escavadas na pedra, tendo no interior um átrio central para o qual convergem todos os compartimentos, que se multiplicam no piso térreo e num piso superior.
Alguns autores esclarecem que a tradução da palavra manjedoura (quando é de pedra), pode significar, “no piso de baixo”. Assim sendo, José e Maria podiam ter ficado no piso de baixo, (o que era reservado aos animais, (tal como acontece em algumas casas típicas do nosso país), dada a lotação da residência, enquanto outros familiares, que já teriam chegado, estariam no piso superior. É uma hipótese que não contraria a tradição, mas a espiritualidade confirma que o Cristo foi deitado numa manjedoura (Boa Nova:1; Caminho da Luz:12; e outros).
Contudo, ter sido deitado é diferente de ter aí nascido. Aliás, uma versão diferente das de Mateus e Lucas é relatada nos Evangelhos Apócrifos atribuídos a Tiago e a Pedro. Reportam estes textos que o Messias teria nascido numa gruta no caminho entre Nazaré e Belém, e só depois teria sido transportado para um local onde havia uma manjedoura. Certo é que o exemplo de desprendimento absoluto era dado por Jesus logo no seu primeiro momento como encarnado.
O ser mais elevado que havia visitado o mundo, era aconchegado no feno que alimenta os animais. Refere Emmanuel que “A manjedoura assinalava o ponto inicial da lição salvadora do Cristo, como a dizer que a humildade representa a chave de todas as virtudes” (CL:12). E quem acorre a esse momento? A tradição consagrou a presença de duas visitas diferentes no cenário da natividade do Cristo: os pastores e os reis magos. Lucas refere somente os pastores, Mateus apenas os magos, mas a mediunidade de ambos permiti-lhes o contato mais íntimo com a espiritualidade.
Os mais humildes são os primeiros a serem chamados. Contudo, ninguém, por muito longe que vivesse, ficaria sem saber da chegada do Messias. A frase proferida pelos emissários celestiais “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre os homens de boa vontade!” (Luz do Mundo:2), adquiriria mais tarde formato semelhante: “Amai- vos uns aos outros e ao Pai acima de todas as coisas”. Quanto aos segundos, curiosamente, em nenhum lugar da narrativa evangélica é referida a realeza dos magos.
Ela é assumida por uma extensão interpretativa da passagem contida no livro dos Salmos: (71, 11) cumprindo a profecia “Os reis de toda a terra hão de adorá- -Lo”. Essa profecia seria cumprida mais tarde, por foto http://temporecord.wordpress.com/2010/12/20/prece-do-natal PUBLICIDADE PUBLICIDADE parte dos monarcas europeus e americanos, para além dos de outros povos. A improbabilidade de serem reis deduz-se pelo somatório simples de um conjunto de fatores: - nenhum rei viajaria sem algum luxo e criadagem; nem sem um exército que o protegesse; não existem relatos de historiadores judaicos, hebreus, persas, caldeus, ou quaisquer outros, de tal viajem (e não seria fácil esconder uma romaria simultânea de três reis para o mesmo local sem razão aparente); os reis magos não se apresentam ao representante de César na Judeia, como mandaria o protocolo.
Consideremo-los apenas magos, talvez astrólogos e astrónomos, ou até sacerdotes da religião zoroástrica da Pérsia, conforme confirma Eliseu Rigonatti no seu Evangelho dos Humildes. O verdadeiro significado da palavra mago é, aliás, sábio, sendo estes homens muito respeitados pelo povo. Terão tomado conhecimento das profecias referentes à vinda do Messias aquando do cativeiro dos israelitas na Babilónia, guardando tais profecias nos círculos iniciáticos.
Estudiosos da espiritualidade e adeptos da prática da mediunidade que eram, terão sido alertados pelos seus mentores espirituais, logo que Jesus reencarnou (Eliseu Rigonatti, Evangelho dos Humildes). Também o seu número não é exacto. Em nenhuma referência evangélica se encontra o número de três. Este é deduzido pela quantidade de presentes ofertados: ouro, incenso e mirra, sendo ao ouro atribuído o simbolismo da realeza ou do poder sobre a terra; ao incenso o simbolismo da fé, do poder espiritual, pois o incenso é usado nos templos para simbolizar a oração que chega a Deus; e a mirra, resina antiséptica usada em embalsamentos, pode ser conotada com a eternidade do espírito e a ressurreição entre os dois reinos.
Mas perante tantas dúvidas, como interpretar o Natal? Questionado sobre “O que representa o Natal para os espíritas?” Chico Xavier esclareceu: “A necessidade de nos amarmos uns aos outros, segundo Jesus nos ensinou, perdão das ofensas, o esquecimento das injúrias, o cultivo do trabalho, a fidelidade ao dever, a lealdade aos compromissos assumidos, o lar, a família, a alegria de nos pertencermos uns aos outros, através dos laços da fraternidade.
Isto tudo é Natal.” (Chico XavierO Homem, o Médium, o Missionário). Nasçamos todos para a Vida, com a bênção do Cristo.
