ciados, de um grupo de padres ou dirigentes
Jornal de Espiritismo nº 50 · Janeiro 2012Página 134 min
O centro espírita continua a ser esse portal para o entendimento de uma nova realidade, que catapultará inevitavelmente o ser humano de um nível existencial egóico para uma dimensão existencial mais fraterna, compreensiva, tolerante, nesta fase de transição, para que um dia se instale na Terra o “reino de Deus”, isto é, que sejamos um mundo mais evoluído, onde não haja mais fome nem guerras e onde todos se auxiliarão e amarão como irmãos universais.
Por José Lucas DJORNAL DE ESPIRITISMO - 50 - janeiro | fevereiro 2012
O ano de 2012 inicia-se em Portugal sob o auspício da restrição económica. Perante as opções políticas dos nossos governantes, que condicionarão a nossa vivência terrena nos anos vindouros, o espírita não pode deixar de formular um juízo e, daí decorrente, assumir uma atitude. A interrogação surge: Apoiar, protestar ou conformar — como proceder? Será que o Cristo nos deixou alguma lição especificamente aplicável para estes tempos? Deixou sim. A lição do imposto de César.
Na época de Jesus a região da Judeia vivia sob o controlo militar do Império Romano e as estruturas sociais tinham-se adaptado à convivência com a governação de César. Os tribunais civis irmanados com as sinagogas judaicas, mantinham as suas práticas inspiradas na lei moisaica, ainda que, sobretudo em matéria penal, estivessem subjugados à última palavra do Governador local. O pagamento do imposto ao César Romano era dos assuntos mais controvérsia trazia. As seitas Judaicas mais conservadoras tinham-no tornado num problema religioso. Por essa razão, fariseus e herodianos procuram colher o testemunho de Jesus acerca
do assunto e interrogam-no: - Diz-nos, pois, que te parece? É lícito pagar tributo a César, ou não? Jesus, porém, percebendo
Na parábola inicial, nota o Bom Pastor que os filhos do mundo”, inescrupulosos e despreocupados da moralidade dos meios para alcançar os fins, procedem com mais argúcia para com os semelhantes, do que os Ffilhos da luz”.
a sua malícia, respondeu: Por que me experimentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe apresentaram um denário. Perguntou-lhes ele: De quem é esta imagem e inscrição? Responderam: De César. Então lhes disse: Dal, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Ao ouvirem isso, ficaram admirados; e, deixando-o, se retiraram” (Mateus XXII; 15:22).
Cumpre desde já esclarecer que aos olhos do povo, concordar com o pagamento do imposto era, mais do que emitir uma declaração de apoio à governação de Roma, reconhecer a supremacia do César sobre o Deus único dos judeus. Acerca desta questão, as traduções orientais esclarecem o tipo de pagamento a que se refere o debate. Não era em relação aos impostos decorrentes das suas actividades econó-
micas que os judeus se opunham a pagar. O motivo da discórdia centrava-se num outro tipo de imposto, que era pago pelo “rei” dos judeuscom fundos do tesouro realao Imperador de Roma, em acto considerado de adoração submissa. Ora
o povo judeu entendia que apenas deveria prestar submissão ao Deus único, pelo que proceder ao pagamento deste imposto era considerado um acto de idolatria violador da lei moisaica e, por isso, uma blasfémia. Em oposição, ao não concordar com tal pagamento, Jesus assumiria uma posição contestatária em relação ao Governador local que seria imediatamente sobredimensionada, capaz de deturpar toda a mensagem de amor, tolerância
e perdão, e obrigando as autoridades romanas a perseguirem-no (Gospel Light; George M. Lamsa, 1964).
É na Codificação que encontramos as orientações que esclarecem a causa do porquê do debate ter assumido contornos religiosos tornando claro que, com tal proposta, o Cristo dá seguimento à máxima de “proceder para com os outros como queiramos que os outros procedam para conosco” [ESE: Xl; 5a 10). Mas é Emmanuel quem, subsequentemente, nos proporciona orientações mais precisas acerca do problema, situando-o logo pasSível de ser associado ao governo estatal e aplicado em qualquer lugar e momento.
De acordo com o ex-senador romano, o “aprendiz do Evangelho não deve invocar princípios religiosos ou idealismo individual para eximir-se dessas obrigações. Se há erros nas leis, lembremos a extensão de nossos débitos para com a Providência Divina e colaboremos com a governação humana, oferecendo-lhe o nosso concurso em trabalho e boa-vontade, conscientes de que desatenção ou revolta não nos resolvem os problemas.” A possibilidade da contestação pública fica assim colocada de parte.
Enveredar pela mobilização ao protesto é perigoso desafio em virtude de abrir campo para a manifestação, difícil de controlar, do entusiasmo dos outros. À iniciativa dificilmente se manteria envolta de ambiente equilibrado e salutar. Então, que fazer? A resposta é tão clara quanto, eventualmente, desconcertante: “Preferível é que o discípulo se sacrifique e sofra a demorar-se em atraso [...) por indisciplina diante dos princípios estabelecidos [...)
Se pretendes viver retamente, não dêsaCésar o vinagre da crítica acerba.
ele e nós somos filhos do mesmo Deus.” (Pão Nosso; 102) Desconcertante talvez, mas impossível de ser questionada na sua coerência. À orientação da espiritualidade maior, no cumprimento das orientações de Jesus, não poderia, na verdade, ser outra.
É por isso que, ainda acerca deste episódio, o mentor de Chico Xavier sublinha a associação feita no Evangelho Segundo
o Espiritismo e recorda que a regra de ouro do cristão é “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mateus: XXII; 39). Talvez os governados de hoje sejam os governadores de ontem, ou os carenciados da actualidade são os esbanjadores do pretérito. Talvez precisemos de passar por esta prova, uns por débitos contraídos, outros para a aquisição de ensinamentos, mas todos por Amor fraternal. Afinal, se Portugal deve assumir a tarefa de divulgar as máximas do cr
