março | abril 12 Confesso que fiquei preocupado ao aperceber-me de uma
Jornal de Espiritismo nº 51 · 2012Página 147 min
Confesso que fiquei preocupado ao aperceber-me de uma nova doença que afeta a sociedade ocidental: chama-se SIT.
Curiosamente, ao ler “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, verdadeira pérola da literatura mundial, onde está confinada a parte filosófica da doutrina espírita (que não é mais uma religião nem mais uma seita, mas sim ciência, filosofia e moral), no seu capítulo VII intitulado “Lei de Sociedade”, podemos encontrar questões interessantes:
“766 A vida social está na Natureza? “Certamente. Deus fez o homem para viver em sociedade. Não lhe deu inutilmente a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação.”
767. É contrário à lei da Natureza o isolamento absoluto?
“Sem dúvida, pois que por instinto os homens buscam a sociedade e todos devem concorrer para o progresso, auxiliando-se mutuamente.”
768.Procurando a sociedade, não fará o homem mais do que obedecer a um sentimento pessoal, ou há nesse sentimento algum providencial objectivo de ordem mais geral?
“O homem tem que progredir. Isolado, não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contacto com os outros homens. No isolamento, ele se embrutece e estiola.” Homem nenhum possui faculdades completas. Mediante a união social é que elas umas às outras se completam, para lhe assegurarem o bem-estare o progresso. Por Isso é que, precisando uns dos outros, os homens foram feitos para viver em sociedade e não isolados.”
O ser humano, estimulando a sua inteligência, vai criando e modificando a matéria e o mundo material, tornando- -o mais agradável para a sua vida no quotidiano, que por sua vez se torna mais confortável e mais feliz.
Vemos ao longo destes últimos 100 anos, um incremento fantástico ao nível tecnológico, contribuindo sobremaneira
Numa breve viagem efetuada em serviço profissional, não pude deixar de constatar o mundo que me rodeia, desde o embarque no avião, a viagem, o desembarque, enfim as múltiplas ações e reações das
pessoas na sua interação social.
para uma maior e melhor qualidade
de vida do ser humano. Curiosamente, esta tecnologia ao invés de contribuir para uma partilha saudável de vivências entre os seres humanos, tem contribufí-
a, uma solução... De perfeita saúde!!!
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do para um uso desajustado, levando-o ao isolamento.
Paradoxalmente, nestes tempos que deveriam ser de alegria, face ao incremento da tecnologia, a sociedade sofre
de grave doença mortal, a solidão, mesmo quando rodeados de uma imensidão de pessoas.
“O homem tem que progredir. Isolado, não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta- -lhe o contacto com os outros homens. No isolamento, ele se embrutece e estiola. (Allan Kardec)
Naquele avião potente, com 200 pessoas a bordo, meditava fascinado no avanço da tecnologia, naquele grande pássaro de ferro rasgando o ar, tranquilamente e, verificava com alguma tristeza, que naquela hora e meia de viagem as 200 pessoas lam, cada uma delas, imersas no seu mundo (com auriculares ouvindo música ou outra coisa qualquer, com computadores trabalhando ou jogando, agarrados interminavelmente aos seus telemóveis e/ ou agendas eletrónicas, dormindo ou descansando de olhos fechados), ao invés de aproveitarem o tempo para conversarem, fazerem novos conhecimentos, trocarem ideias, partilharem opiniões, enfim, sociabilizarem-se.
Foi aí que me apercebi da grave doença, que se val instalando silenciosamente, que nos afeta nos dias de hoje: a “SIT” (Solidão, Isolamento e Tecnologia).
Se as novas tecnologias são uma bênção para a humanidade, o seu uso deve ser efetuado com parcimónia, de modo a que o rumo orientador de socialização apontado em “O Livro dos Espíritos”, nos itens acima referidos, não venham a ser postos em causa por este flagelo que associa a tecnologia ao isolamento e à solidão do ser humano.
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Origens do movimento espirita no Brasil
As primeiras notícias, no Brasil, sobre o fenómeno das mesas girantes que ocorriam na Europa e nos Estados Unidos datam da metade do século XIX.
Como introdutores da doutrina espírita temos Cassimir Lieutaud que escreveu a primeira obra espírita publicada no país, além de Adolphe Hubert e madame Collard. Eclodindo na Bahia, em meados da década de 1860, sobretudo por grupos de imigrantes franceses de prestígio socio-económico que ainda se mantinham ligados ao pensamento cultural do país.
Neste período, os espaços intelectualizados da sociedade brasileira viviam sob a influência das principais correntes filosóficas e científicas migradas da Europa.
O seu desenvolvimento foi impulsionado pela tradução das obras de Allan Kardec, primeiro pelo jornalista baiano Luiz Olímpio Telles de Menezes, fundador a 17 de setembro de 1865, em Salvador, na então província da Bahia, o Grupo Familiar do Espiritismo, primeira agremiação doutrinária no Brasil, na década de 1860 e, logo após, pelo médico Joaquim Travassos, membro do grupo Confúcio, embrião do espiritismo carioca, foi responsável pela tradução em português nos anos 70 das principais obras codificadas por Allan Kardec.
Posteriormente praticado em círculos de imigrados franceses no Rio de Janeiro, no princípio, eram apenas reuniões, sem muito vulto e com poucas publicações. Em seguida, os grupos de estudo foram formados a fim de desdobrar o conteúdo filosófico da doutrina, além de realizar sessões de efeitos físicos para melhor compreender e comprovar a existência dos espíritos, mas o que surgiu em grande número
foram os grupos assistencialistas, que, na prática da caridade, ajudavam os necessitados. Começam a aparecer os famosos médiuns receitistas que, em estado de transe mediúnico, realizavam passes magnéticos e receitavam medicamentos homeopáticos. Nessa época, registaram-se importantes adesões de membros da elite Imperial ao espiritismo, como médicos, advogados, jornalistas e militares, que fundaram a Federação Espírita Brasileira, em 1884. Entre eles estava o médico
e político cearense Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti, posteriormente
efeitos físicos, nome dado às manifestações físicas às que se traduzem por efeitos sensíveis, tais como ruídos, movimentos e deslocações de corpos sólidos.
A respeito de suas lideranças, podemos observar que essas costumavam ter destaque na sociedade, como defensores das causas abolicionistas e republicanas. A transição da elite para outras classes sociais pelo Espiritismo no Brasil atribuiu a esse um caráter mais popular, contribuindo para a formação de centros espíritas em lugares remotos, associado ao contexto de carência
O que surgiu em grande número foram os grupos assistencialistas, que, na prática da caridade, ajudavam os necessitados.
vindo a ser eleito com o presidente da referida instituição em 3 de agosto de 1895, consagrando-se como baluarte do espiritismo desde o princípio.
Assim nascia o movimento espirita no Brasil: no seio de uma elite intelectualizada e que pretendia afirmar-se enquanto uma doutrina religiosa e filosófica, mas que se procurava diferenciar legitimando-se como clêncla, tendo como referências os seus próprios adeptos. Em meados de 1865, tanto os grupos de franceses residentes no Rio de Janeiro, quanto pessoas de destaque político e profissional, passaram a dedicar-se à leitura dos livros de Kardec e às práticas das sessões de
Surgiu, assim, uma demanda social, associando as práticas doutrinárias às assistenciais, com as ações voltadas para o atendimento de pessoas carentes, integrando também os procedimentos de cura. Os princípios doutrinários difundidos pela doutrina espírita no Brasil deslocaram-se de forma mais intensa para o aspeto religioso, tornando-a de conotação mais voltada para questões humanísticas, de características peculiares, onde a prática do estudo é fundamental.
Notadamente, no Brasil a atividade social é praticamente compulsória, de tal maneira que na maioria das de-
pendências das instituições pode-se ler à máxima “Fora da caridade não há
Assim, o Espiritismo não apenas se estabeleceu como passou a fazer parte da cultura brasileira. Sendo o país com maior número de espíritas em todo o mundo, estima-se em 2,4 milhões de adeptos vinculados à Federação Espírita Brasileira (FEB) através das federativas estaduais, em cerca de 12 mil instituições, além do mercado editorial que ultrapassa quatro mil títulos editados e mais de 90 milhões de exemplares vendidos, por conseguinte ganhou um colorido que o fez diferente daquele existente na Europa, tomando nuanças éticas e morais, acentuando valores de amparo e promoção social em consonância com características existentes no país, desenvolvida e adaptada às condições locais e sob influência excelsa do médium Chico Xavier através das obras psicografadas.
A palavra psicografia vem do grego, e significa escrita da mente ou da alma, capacidade atribuída a certas pessoas de escrever mensagens ditadas pelos espíritos. Ao analisarmos a questão, verificamos que a doutrina espírita no Brasil, foi uma construção original, em face ao próprio contexto social, resignificando, transladando, na bricolagem da nossa cultura o universo de nossas crenças, em um país de diversidade e complexidade desde os seus primórdios.
Por Tânia Maria de Carvalho Câmara Monte
