Opinião a Tvi
Jornal de Espiritismo nº 51 · 2012Página 128 min
TV: mediunidade nas crianças
A TVI, através da apresentadora Fátima Lopes, abordou o tema “Mediunidade nas Crianças”, no pªlgrama “A tarde é sua”, numa quarta-feira, dia
Em estúdio estiveram dois casos de crianças com mediunidade e um membro da Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal (ADEP) para comentar.
Da apresentadora Fátima Lopes, o míinimo que pode dizer-se é que é brilhante. E que [tarefa nada fácil), consegue “apagar-se', e deixar que os entrevistados brilhem. É ímpar a sua capacidade de criar um ambiente de empatia. Sem lamechices. As pessoas, ao pé de Fátima Lopes, como que “aparecem”. Numa conversa televisiva conduzida por ela, parece que somos todos amigos de longa data.
No programa de hoje, talvez sem mesmo ter a noção do excelente serviço que prestou, Fátima contribuiu para que
se desse um passo de gigante neste problema tão comum, mas ainda tão incompreendido, da mediunidade nas crianças.
Como frisou o convidado da ADEP presente no estúdio, a mediunidade é uma faculdade orgânica, que nada tem de sobrenatural ou de anormal. É médium todo aquele que tem sensações e percepções oriundas do mundo espiritual. E como o mundo espiritual e o mundo material se sobrepõem, há muitas pessoas que sentem com particular intensidade esse contacto. São esses os chamados portadores de mediunidade. Todos os que perambulamos na Ter-
ra, somos Espíritos, vindos do mundo espiritual e temporariamente reencarnados/nascidos no mundo material, para que aprendamos mais um pouco e nos aperfeiçoemos. Às crianças, sendo Espíritos recém-chegados, estão ainda muito ligadas ao mundo dos Espíritos, que acabam de deixar. Daí que tenham muitas vezes percepções mediúnicas muito nítidas.
Na nossa sociedade há duas ideias dominantes, duas propostas de explicação da vida: a ideia religiosa tradicional e a
ideia ateísta/materialista. As religiões tradicionais, ou não têm explicação para a mediunidade, ou atribuem-na, umas vezes a intervenções de Deus e dos anjos, outras, aos supostos diabos”. Já o materialismo/ateísmo, põe tudo por conta de distúrbios mentais, e os médicos materialistas/ateus, não sabendo o que fazer, receltam calmantes. Paralelamente às posições das religiões tradicionais e da ideologia materialista (que raramente logram sucesso quando o problema são manifestações mediúnicas menos agradáveis), pululam
os negociantes do infortúnio alheio.
São conhecidos os propagandistas dos “cofres abertos”, das “moradas abertas”, que vendem (a bom preço!) uma parafernália de completas inutilidades
- são amuletos, defumadouros, rezas, benzeduras, rituais, pós para trazer na carteira ou dentro dos sapatos (!), e toda a sorte de bizarrias e quinquilharias, que por vezes ultrapassam a Imaginação, tal é o refinamento dos expedientes para sacar dinheiro aos desafortunados que lhes caem nas mãos.
São resquícios de épocas passadas, quando as religiões primitivas, mágicas, acreditavam poder-se aliciar os “deuses” com oferendas, ou combater os seus desígnios com objectos especiais ou esconjuros. Sempre foi assim, e já no tempo de Moisés o povo recorria a estes negociantes, a ponto de o Patriarca do Povo Hebreu ter proibido tais actividades, a bem da ordem pública.
É certo que as crianças podem ter os seus amigos imaginários. Mas há casos em que esses amigos dificilmente serão imaginários. Nas associações espíritas aparecem casos de crianças que afirmam ter visto e conversado com pessoas que depois se descobre terem falecido antes de elas nascerem, e das quais nunca viram fotografias, nem cogitavam sequer da sua existência. Noutros casos há aparições, materiali-
zações até. Famílias que jamais ouviram falar de Espíritos, pessoas convictamente cépticas ou até ferozmente anti-espíritas, descobrem-se por vezes a braços com casos destes.
A mediunidade não é o problema. O problema é o desconhecimento, que faz com que os pequenos sejam muitas vezes tomados como mentirosos, sucessivamente castigados, e de outras vezes cercados de preconceitos que podem mesmo acabar por traumatizá- -los. Há quem, não sabendo como lhes responder, simplesmente ignora os seus relatos e deixa as suas dúvidas sem respostao que também não é aconselhável.
Como não nos cansamos de dizer, a mediunidade é neutra. Há quem tenha experiências mediúnicas péssimas, e quem as tenha óptimas.
No Evangelho, por exemplo, encontramos o caso da Transfiguração de Jesus Cristo: Jesus sobe com alguns dos seus apóstolos ao Monte Tabor, e aí conversa com Moisés e Elias (que haviam deixado este mundo séculos antes). É um episódio de mediunidade, tal como o aparecimento dos chamados anjos”. E foi de certeza muito agradável, pois os apóstolos, na sua simplicidade, até sugeriram ao Mestre que se montasse umas tendas, para pernoitarem ali com os patriarcas...
Nos Evangelhos também, encontramos o caso do menino que era perseguido por maus Espíritos, que o levavam a perder a consciência a atirar-se para o fogo. Este caso, obviamente, era tudo menos agradável. Mas teve resolução, com a intervenção do Mestre Jesus. Hoje, Jesus não está entre nós fisicamente, mas os seus ensinamentos estão, graças a Deus. E não é com mezinhas ou palavras mágicas que se afastam os maus Espíritos. É com esclarecimento e amor ao próximo que os maus se tornam bons, quando se lhes
chega ao coração. E Isso, que se saiba, não está à venda...
O Espiritismo é uma doutrina filosófica e moral cristã. Ao contrário das religiões propriamente ditas, o Espiritismo não acolhe o conceito de sobrenatural. Para o Espiritismo, tudo é natural. O que há são leis no universo que o ser humano ainda desconhece. Nem as da física e da química ainda dominamos, e são mais fáceis de estudar.
O intercâmbio entre dois mundos, contudo, tem sido estudado desde há mais de século e meio, por cientistas espíritas e não espíritas, e quem se meteu a estudá-lo, concluiu que há vida após a morte do corpo físico, e que há uma multiplicidade de fenómenos que o atestam. Charles Richet, Prémio Nobel da Medicina, não era simpatizante da filosofia espírita, e assim concluiu. Carl Gustav Jung (um dos grandes nomes da psicologia/psiquiatria), também não era espírita, e foi o grande inspirador da corrente da psicologia transpessoal, que aceita o concelto de imortalidade da alma, ainda que com outras designações.
Fazemos votos de que o programa de hoje tenha deixado boas sementes. Estamos certos disso. A apresentadora, Jjá dissemos que esteve excelente, como sempre. O representante da ADEP,
e as pessoas que foram dar os seus testemunhos, outra coisa não têm a movê-los que não o desejo de valer a outros, como em tempos lhes valeram a elas, ou aos seus familiares. Para que as mentalidades progridam, e para que, neste caso, haja cada vez menos crianças a sofrer a incompreensão
que advém da ignorância. Para que os preconceitos medievais e as crenças pré-históricas dêem lugar a uma visão racional dos fenómenos mediúnicos.
Quase milénio e meio antes de Cristo, Moisés grafou os primeiros cinco livros da Sagrada Escritura. AÍ figuram os Dez Mandamentos que ele recebera mediunicamente nas tábuas da lei (escrita direta ou pneumatografia, na terminologia espírita).
Possuindo o decálogo mosaico a universalidade e transcendência de leis de Deus (como Jesus demonstraria mais tarde), ainda subjaz ao atual direito positivo das nações, em geral; a espiritualidade de então, mal despontando da materialidade ancestral, é que não apreendia da lei senão
os aspetos mais imediatos, como a imperatividade garantida pelas duras sanções promulgadas logo a seguir. É usual ouvir-se que Jesus baniu as leis bíblicas ditas de talião (pena e delito proporcionais entre si: vida por vida, olho por olho, dente por dente...) estatuídas no Êxodo, Levítico e Deuteronómio. No tocante ao relacionamento interpessoal, na verdade foram exautoradas pelo Bom Pastor, que nos exortou, quando vítimas, a prescindir delas como um direito pessoal e optar antes pelo amor, o perdão, a indulgência.
Mas no aspeto de leis naturais, perfeitas, cosmicamente integradas, de modo nenhum o Rabi as aboliu ou quereria sequer suspender-lhes a vigência imutável. Repare-se que até as corroborou, quando ensinava: “na medida em que julgardes, sereis julgados”, “a cada um segundo as suas obras”, “quem com ferro fere, com ferro será ferido”.
O divino Amigo, desaprovando inequivocamente a violência pessoal
ou de grupos, o rancor, a mágoa, vingança, falou também da harmonia cósmica sem “perdões” nem favores, refletida na lei mosaica da qual (frisou bem) não passará um jota nem um ápice sem que tudo se cumpra (Mateus 5:18); e que, violada, demanda reposição até ao último ceitil (Mat 5:26).
A lei natural de causa e efeito, referida em “O Livro dos Espíritos”, está implícita naquele ensino de Jesus. “Expiar até ao último ceitil” significa repor totalmente a harmonia cósmica infringida, através da ação reeducativa da expiação e/ou edificante do Amor.
Por exemplo: quem deliberadamente causar cegueira, ativará a mecânica de alta precisão das leis do Universo, desencadeando fatores condizentes que lhe provocarão também a cegueira (lei de karma das filosofias orientais). Mas não necessariamente: se reconhecer o erro e se arrepender, tomando abnegadas iniciativas de amparo a cegos, ou de prevenção à cegueira, ou devotando-
se a atividades similares, com o AMOR assim exercido “apagará uma multidão de pecados” (1.º Pedro 4:8); isto é: a energia “positiva” que accionou, extinguirá a de sinal contrário que acionara antes.
“O Livro dos Espíritos”, está implícita naquele ensino de Jesus. Expiar até ao último ceitil” significa repor totalmente a harmonia cósmica infringida, através da ação reeducativa da expiação e/ ou edificante do Amor.
A noção eclesiástica de inferno [eterna abominação de Deus ao condenado, etc.) carece de qualquer sustentação lógica, ou teológica não confessional, pois ignora a boa nova messiânica do infinito Amor divi-
no, de todo incompatível com ódio ou sequer indiferença pelas suas criaturas; paralelamente, aquela gigantesca desproporção entre pena e infrações contradiz nitidamente a Justiça plena do Pai dulcíssimo, que o Bom PastorCaminho, Verdade e Vidaveio proclamar à Humanidade. Considere-se ainda a total impossibilidade de erro da Inteligência suprema, criando seres não programados para o único desígnio possível: o Bem eterno, mesmo com desvios e atrasos ao longo do percurso evolutivo rumo ao destino.
Nem o ser mais depravado e perverso de um dado momento, encarnado ou desencarnado, poderá eximir- -se ao determinismo de perfeição intrínseca do Universo, com os seus inesgotáveis recursos.
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