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Sendo um homem de uma cultura ímpar, transversal a vários países e épo

Jornal de Espiritismo nº 54 · 2012Página 128 min

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Sendo um homem de uma cultura ímpar, transversal a vários países e épocas, foi escritorautor de mais de 80 obrasjornalista, filósofocatedrático de filosofia e titular durante alguns anos da cadeira de Filosofia da Educação da Universidade Estadual de São Paulo mas também um zelador da originalidade da mensagem espírita, protegendo-a dos ataques internos e externos. Conseguiu, como poucos, tocar a profundidade da obra de Allan Kardec, compreendendo-a essencialmente como uma proposta pedagógica, uma forma inovadora de pensar e sentir a vida, uma maneira singular do homem se relacionar consigo próprio, com os outros e com Deus, e que em sintonia com o avanço das diversas ciências, teria condições para revolucionar o progresso do pensamento humano, ajudando à implantação do reino de Deus entre os homens.

No dia 14 de Julho do ano de 1972, com o auxílio do seu amigo Jorge Rizzini, gravou uma entrevista com o objetivo

de ser tornada pública apenas 40 anos depois. Nessa altura, Herculano Pires falou para o futuro e para aquilo que

ele julgava que seria o mundo de então. A data foi escolhida para relembrar a Tomada da Bastilha, evento central da Revolução Francesa que ocorreu a 14 de julho de 1789. No passado dia 14 de julho de 2012, a entrevista foi finalmente divulgada no site da Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires e a sua versão integral pode ser consultada no link: http://www.herculanopires.org.br/ entrevistaparaofuturo.

Na entrevista, Herculano Pires começa com uma revelação sobre uma encarnação passada em Portugal: “No século passado, eu estive na França realmente, mas não era francês; eu era português, eu morava em Portugal, tive uma encarnação em Portugal. Eu fui parar na França como exilado, e como exilado eu tomei conhecimento do espiritismo. Mas não aceitei o espiritismo, porque eu era católico, e era um tipo de católico muito interessante [...)

um católico que discordava dos padres, brigava com o clero e não aceitava muito o catolicismo. O meu desejo era encontrar uma forma de fazer o cristianismo voltar ao seu estado primitivo, quer dizer, voltar à verdade pura do Cristo. Como naquela época eu era também jornalista, como sou hoje, isso ficou gravado em alguns jornais portugueses, de modo que isso me facilitou muito a verificação da realidade.

na codificação da doutrina espírita foi também abordado: “Kardec foi aquele que veio trabalhar na era decisiva da implantação do reino de Deus em maior amplitude, quando o reino de Deus

vai se efetivar na Terra. Kardec é que trouxerecebendo o amparo do Espírito da Verdade [...) - esta possibilidade extraordinária de abrir as perspetivas do mundo para uma era inteiramente nova, que está nascendo aos nossos olhos neste momento.” Herculano Pires

Herculano Pires (1914-1979) é unanimemente reconhecido como um dos maiores estudiosos de Espiritismo e um dos seus mais acérrimos

abordou também o aspecto científico

do Espiritismo e a sua comprovação pela ciência moderna, falando sobre diversos temas científicos do domínio da astronomia e física: “Ora, a descoberta da antimatéria representa inegavelmente um rompimento de toda estrutura puramente materialista da física do século 18 e do século 19. [...) os astrónomos, diante das conquistas progressivas da física no campo na antimatéria,

uma perspetiva inteiramente nova nas ciências e que vem confirmar princí-

pios básicos do espiritismo. [...) O corpo perispiritual, que é considerado no espiritismo como semimaterial [...)] - quer

dizer, contendo elementos de matéria

e elementos espirituaiseste corpo serve de intermediário entre o espírito e a matéria. Pois bem, a teoria física para explicação da convivência de mundos de antimatéria e mundos de matéria no

Sobre o papel do Espiritismo na transformação do mundo, deixou palavras que nos proporcionam saudáveis reflexões: “O importante é que o espiritismo sirva de fermento, aquele fermento de que fala Jesus no Evangelho, o fermento que modifica, que leveda a massa do mundo e a transforma. E esta a grande função do espiritismo.

passaram a admitir a existência de mundos de antimatéria. Esses mundos de antimatéria no cosmos podem ser considerados por nós, espíritas, como aqueles elementos que constituem o outro mundo, o mundo espiritual de que fala o espiritismo. Ora, descobrindo-se então a existência dos mundos espirituais no espaço, nós estamos em face de

espaço vem reproduzir simplesmente no plano cósmico a teoria espírita existente para o microcosmo, que é o nosso corpo. Acho que este passo da ciência é de grande importância. Mas sabemos que posteriormente, dois ou três anos depois, os cientistas soviéticos materialistas descobriram, nas suas pesquisas de laboratório, que a antimatéria existe

aqui mesmo na Terra, e ligada mesmo ao átomo; o antiátomo eoátomo estão interpenetrados. Esta outra descoberta traz uma posição também muito favorável ao espiritismo, porque vem confirmar a Interpenetração de espírito e matéria, que é sustentada como fundamento da doutrina espírita.”

Sobre a influência do Espiritismo no mundo do futuro, Jorge Rizzini questionou o amigo: Acredita que o espiritismo, pelo seu desenvolvimento no sentido da amplitude do movimento espírita de todos os países, irá dominar totalmente e as religiões irão desaparecendo aos poucos, em face das conversões do povo, das massas?” Herculano respondeu: “Allan Kardec [...] não pretendeu

de maneira alguma fazer uma nova religião, entre tantas religiões existentes na Terra. Ele queria, como codificador do espiritismo, dar uma contribuição para a modificação das religiões, para a modificação da conceção humana a respeito da vida na Terra. [..) A modificação produzida pelo espiritismo não será igualitária do homem, não iIrá estabelecer uma igualdade absoluta, mas irá criar a possibilidade de uma sintonia, no tocante aos problemas fundamentais.

Isto caracterizará a era espírita que, para nós, está surgindo agora no século 20. Essa era espírita está marcando já os pontos fundamentais, para os quais estão convergindo todas as correntes do conhecimento, como nós vimos no campo da ciência, da filosofia e da religião. É nesse sentido que eu acredito que haja uma igualdade, não total, não massiva, por assim dizer, mas uma igualdade num plano abstrato do pensamento, numa concentração de todos os espíritas para os pontos fundamentais da doutrina espírita.

Sobre o papel do Espiritismo na transformação do mundo, deixou palavras que nos proporcionam saudáveis reflexões: “O importante é que o espiritismo Sirva de fermento, aquele fermento de que fala Jesus no Evangelho, o fermento que modifica, que leveda a massa do mundo e a transforma. É esta a grande função do espiritismo. (...] Como escreveu Humberto Mariotti, o nosso companheiro da Argentina: o espiritismo está como uma estrela de amor no horizonte do mundo, esperando que todas as correntes do conhecimento cheguem até ela.

A ciência está chegando, a filosofia está chegando, a religião está chegando, a estética está chegando, a técnica está chegando. [...) e é como dizia sir Oliver Lodge: nós estamos trabalhando dos dois lados de uma montanha, furando um túnel, dizia ele. Do lado de lá está o mundo espiritual, do lado de cá o mundo material. Nós cavoucamos o túnel através da montanha, do lado de cá, mas os espíritos estão cavoucando do lado de lá.

E vamos nos encontrar no meio do túnel.

Herculano Pires deu uma enorme contribuição para a concretização desse túnel. Quanto a nós, façamos a nossa parte e ajudemos a “cavoucar”.

O envelhecimento humano pode ser um amargo desistir de viver, mas não por fatalidade da natureza; exemplos de bonomia e paz de espírito até ao derradeiro alento, registam-se por toda a parte, resultando de hábitos de espiritualidade, vinculada ou não a religiões ou a alguma

Os primeiros cristãos, perseguidos mas prósperos em espiritualidade, curavam pela oração, como já fizera Eliseu e outros profetas. Mary Baker Eddy, precursora das atuais igrejas pentecostais, no século XIX sarou espiritualmente duma enfermidade grave; recolhida nos três anos seguintes em estudo bíblico e oração, quase sem vida social, entendeu finalmente o mecanismo da sua cura e passou ela própria a curar e enSinar a curar espiritualmente; fundou a igreja “Christian Science” que se espalhou pelo Mundo e vem, de então para cá, registando e documentando as suas curas espirituais por toda a parte. Nos nossos dias, o conhecido padre dominicano Emiliano Tardif, instantaneamente

curado de doença grave, tornou-se

por sua vez protagonista de inúmeros episódios de cura dentro do movimento carismático internacional.

Na clínica neurológica da Universidade de Viena, o Dr. Viktor Frankl entusiasmou a Europa com a logoterapia, método à base de “um sentido para viver”. Nas últimas décadas do século XX, na Universidade de Harvard, o Dr. Herbert Benson estudou e demonstrou em simpósios o grande potencial terapêutico da fé religiosa. A ideia tem alastrado

a programas de pesquisa científica similares, sobretudo nas Américas do Norte e do Sul, e terá influenciado a Organização Mundial de Saúde, quando esta aditou o termo espiritual ao seu

anterior conceito de SAÚDE: “estado de completo bem-estar físico, mental, social e espiritual”.

Consideremos em traços breves a evolução histórica da ideia de fé. No século IIl, Tertuliano (vigoroso pilar da teologia cristã) toma o ato de acreditar por elemento fundamental da fé, e consagra a rigidez do “creio porque é absurdo”; a qual, só questionada mais de mil anos depois por uma parte da cristandade (princípio luterano do “livre exame”), veio a travestir-se no lastimável “crê ou morre!”" inquisitorial. O amadurecer do pensamento religioso-científico do século 18 (“das luzes”) acentuou-se

no século19: a contradição entre fé (no seu conceito tradicional, ainda exuberante no “Syllabus errorum” de Pio IX), e razão [entronizada pelo movimento racionalista), abriu caminho à síntese dum novo paradigma: “fé raciocinada”, do notável académico Allan Kardec

(“O Evangelho Segundo o Espiritismo”, 1864), despedaçando a suposta incompatibilidade entre fé e razão.

Contra inequívocas posições individuais de muitos cientistas durante mais de dois séculos, a ciência convencional tem resistido à ideia do espírito e à copiosa factualidade que a sustenta.

Ao encontro da “fé raciocinada”, cem anos depois veio de algum modo (não intencional ou formal, mas implícito] o princípio da “liberdade de consciência” consagrado pelo Concílio Vaticano |l, concluído em 1965; o qual, também

de certo modo, coroou o pensamento teológico livre (de alguns teólogos), em meu modestíssimo entender destinado a preponderar na Humanidade, fora e acima de dissensões.

Contra inequívocas posições individuais de muitos cientistas durante mais de dois séculos, a ciência convencional tem resistido à ideia do espírito e à copiosa factualidade que a sustenta. Hesitava em admitir a “energia” da fé, religiosa ou não, e a evidência dos seus efeitos materiais, quando a chamada