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Jornal de Espiritismo nº 56 · Maio 2013Página 76 min
Transe mediúnico e depressão Gláucia Lima conhece bem a temática espírita é psiquiatra e dá continuidade a esta secção do jornal: responde a um par de perguntas entretanto surgidas. foto arquivo JANEIRO.FEVEREIRO 2013 de Vi-a em outubro passado na televisão e gostei muito do que disse. Tenho pena de não ter acompanhado o programa desde o princípio. Ouvi-a dizer que a prática mediúnica já não é considerada oficialmente pela psiquiatria uma perturbação da saúde do médium.
Pode explicar melhor isso, por favor? Dr.ª Gláucia Lima – O transe mediúnico, ou a prática da mediunidade, está descrito pela psiquiatria como um ‘transtorno” no qual há uma perda temporária tanto do senso de identidade pessoal quanto da consciência plena do ambiente, podendo o indivíduo agir como se tomado por uma outra personalidade , espírito, “divindade” ou “força”, segundo o Código Internacional das doenças, capítulo V, dos Transtornos Mentais e do Comportamento.
Entretanto, só é considerado como um transtorno ou perturbação, incluindo - -se no capítulo (F. 44.3) referido como patologia, quando são involuntários ou indesejados, intrometendo-se no quotidiano do indivíduo, ocorrendo fora do âmbito ou das situações em que são praticadas e aceites culturalmente. Ressaltamos que apesar da psiquiatria aceitar o fenómeno quando enquadrado culturalmente, como forma de expressão religiosa ou de culto, na prática podem existir médiuns natos, que independentemente das suas crenças, por vezes, até contrárias, e da ausência de uma prática dirigida para o exercício mediúnico, evidenciam uma mediunidade ostensiva, por vezes, indesejável, alterando o seu dia a dia, mas, nem por isso, o médium seria detentor de uma patologia.
Observamos também, que no início da prática mediúnica, muitas vezes, o médium não tem o domínio sobre si mesmo e sobre o intercâmbio espiritual, podendo haver situações onde ocorram comunicações ou “transe mediúnico’, involuntários, fora do contexto onde eles são aceites ou praticados, não sendo por esse facto, os médiuns, considerados doentes do foro mental. Para o Espiritismo, são médiuns que precisam de um equilíbrio que podem alcançar através da educação da sua mediunidade.
Excluem-se os fenómenos de “pseudotranse e possessão” secundários à fatores orgânicos, tais como, indivíduos com epilepsia do lobo temporal; traumatismo craniano grave; intoxicações por substâncias psicoativas, nos quais podem acontecer alterações da sensopercepção, como alucinações visuais (visões) e auditivas (vozes) secundárias à lesão orgânica. Nestas condições, não estariam incluídas neste capítulo (F.44.3.) Este reconhecimento académico da Psiquiatria, apesar de limitado na sua definição, por si, traduz um avanço na compreensão fenomenológica do transe mediúnico, para o qual se dirigem ainda muitos olhares de preconceitos e desinformação no meio médico, atribuindo-se a pessoas com pouca formação, excessivamente crentes ou incapazes de um raciocínio lógico - -científico.
Aceitar a existência do fenómeno mediúnico é um passo para questionar a natureza do mesmo e uma porta aberta para o espírito. O que faz com que os homens compreendam os fenómenos não é a clareza dos mesmos, mas, sim a capacidade e a maturidade para os entender. Vivemos num tempo propício a um maior aumento de depressões. Cultivar alguma forma de espiritualidade é importante para atenuar esse efeito? Segundo o psiquiatra brasileiro, Dr.
Lotufo Neto, 1997, “A espiritualidade trata da busca humana por uma vida satisfatória e com sentido, descobrindo a natureza essencial de si mesmo e seu relacionamento com o universo”. Seria ainda o processo pelo qual os indivíduos reconhecem a importância de orientar suas vidas a algo não material.” Sendo a depressão uma doença da alma, fruto muitas vezes da falta ou da perda do sentido existencial, a busca da espiritualidade como caminho vem indivíduo o que comanda a vontade desse indivíduo, e não, afinal, o processo eletroquímico neuronal.
Na física quântica, ao abordar-se questões que a física clássica não alcança, há trabalho feito que permite estudar a realidade imaterial do espírito. No entanto, Carlos Fiolhais quando fala sobre Espiritismo parece-me que confunde a árvore com a floresta. Eu também assim fazia até me ter debruçado sobre esta temática. Sim, não foi fácil vencer o meu pré-conceito, o atavismo de quem achava que já sabia tudo – porque era assim que vinha nos livros que me “davam” a ler.
Foi muito depois do curso em Coimbra que iniciei as leituras das obras de Allan Kardec, ele que, ao sistematizar o conhecimento sobre o espiritismo, explica, afinal, como é a realidade que nos envolve e que outras ferramentas (e perspetivas) há para a estudar e compreender. Danah Zohar, uma física americana residente em Oxford, lança uma hipótese relevante sobre o que é a consciência. A autora explica a consciência como uma sobreposição de informação e identidades.
Somos pois, mais do que simples átomos – matéria. A autora apresenta ainda uma explicação sobre a individualidade de cada um e sobre a sua possível ligação a um todo, tal como referia no âmbito do inconsciente coletivo o psicólogo e psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Aquela argumentação vai ao encontro do que é conhecido sobre a individualidade do espírito, bem como sobre a informação detida por cada um, derivada do processo de reencarnação.
Temos assim a física quântica como instrumento conceptual que poderá vir a formular, inclusive matematicamente, sobre sermos uma sobreposição de identidades, de informação. Assim, a ciência ao associar a moderna psicologia com a física põe-se no encalce de novas abordagens que explicam as coisas da alma, e como esta age sobre a matéria. Em suma, de que forma o espírito (instrumento da vontade) e o perispírito (invólucro transportador de informação de vidas passadas) formalizam a individualidade eaação do indivíduo.
Hernâni Guimarães de Andrade na sua obra o “PSI Quântico” vai mais longe ao lançar hipóteses sobre o uso da física quântica como instrumento para desenhar um modelo atómico que justifique a ligação entre a realidade do mundo das partículas materiais e quânticas, com a realidade subjacente ao plano espirituala dita quarta dimensão. Em resumo, a realidade é única. Todavia, os instrumentos que contribuem para a sua compreensão parecem não estar, ainda, totalmente dominados.
Novas hipóteses, em particular aquelas que vão para lá do formalismo materialista da física clássica, dita Newtoniana, indicam que não há as “coisas” da religião e as “coisas” da ciência, mas sim uma realidade única. Essa realidade encerra a existência espiritual e material, e compreende como verdade a premissa de que há uma causa primeira: Deus. Nessa perspetiva, a ação inteligente é fruto de uma vontade igualmente inteligente, a qual concretiza um efeito.
Todos os efeitos tiveram uma causa relativa a acontecimentos pretéritos. A sobreposição de acontecimentos justifica, inclusive, a sobreposição de memórias que molda a consciência do indivíduo. Novas hipóteses, em particular aquelas que vão para lá do formalismo materialista da física clássica, dita Newtoniana, indicam que não há as “coisas” da religião e as “coisas” da ciência, mas sim uma realidade única. Sim, tudo isto soa a estranho, mas Carlos Fiolhais sabe, por exemplo, que a química também o era até ser compreendida como parte integrante das leis da natureza.
Aqueles que faziam graçolas sobre a alquimia da altura vieram a compreender que a realidade se explica para lá do senso comum. Compreendemos que se tem que distinguir os “efeitos” de quem deles faz uso – bem ou mal, da compreensão das suas causas. A ciência está nas causas que explicam os efeitos, mas também no conhecimento que explica ambos. Sem o uso da razão pode sobressair o que o senso comum dá a perceber, ou por vezes a ignorância, a graçola – porque nos firma na zona de conforto.
O que o Espiritismo revela não seria nada de extraordinário se a nossa agilidade de pensamento e de herança sociocultural não nos retivesse – por aparente segurança, nesta zona de conforto.
