Albert Einstein
Jornal de Espiritismo nº 6 · 2004Página 166 min
Materialismo x espiritualismo
O mecanismo do descobrimento não é lógico e intelectualé uma iluminação subitânea, quase um êxtase. Em seguida, é certo, a inteligência analisa e a experiência confirma a intuição. ALBERT EINSTEIN
Ao longo da História, o materialismo tem-se erguido em vagas persistentes, colhendo naturais desaires na frustração endógena que o mina pela base, sem que contudo nada o impeça de contribuir também para a... espiritualidade humana. É desencadeado em vários contextos histórico-sociais: umas vezes, em reacção ao arrogante espiritualismo de religiões dominantes (o qual não raro, paradoxalmente ou não, enferma de um materialismo beato ou sacralizado); outras vezes, simplesmente por insensatez e orgulho dos mortais; outras, ainda, pelos grandes avanços pontuais da ciência humana, que triunfalmente, por algum tempo, aparentam resolver quase todas as dúvidas e acabar de vez com a ideia de Deus (por alguma razão, inexpugnável até hoje).
Tudo isso muito cientificamente, segundo metodologias próprias, materiais e materialistas; isto é, muito restritas. Quero dizer que a dita ciência se restringe a essas metodologiaso que é curtinhoe por muito que, mais ou menos foscamente, vislumbre algo além delas, os seus restritos critérios não lhe consentem a ousadia de tentar equacionar o que não lhes é mensurável.
A doutrina espírita é um dos recursos mais eficazes, se não o mais eficaz, que a sabedoria divina concedeu à Humanidade, para ela se resguardar dos danos e equívocos do materialismo. Não admira que o primeiro quesito da codificação espírita cuide de saber O que é Deus?, seguindo-se-lhe várias páginas quanto aos atributos da Divindade. A ciência académica, que a princípio negava sistematicamente a fenomenologia espírita, foi impelida a criar novas áreas, como a metapsíquica, a parapsicologia, a psicotrónica, que, mesmo assim, tardou em reconhecer como científicas.
Um jovem e prestigioso neurobiólogo português*, justo motivo de orgulho para os seus compatriotas, por ser uma autoridade mundial na área das suas pesquisas, declarou em entrevista recente crer na existência da alma; não como transcendente à matéria (o cérebro), mas como emergente deste, o que segundo ele em nada a diminui. Pessoalmente crente em Deus (como ele próprio diz inseguro, afinal, do seu materialismo intelectual mas não cultural nem imanente), afirma que o prosseguimento dos estudos da equipa de investigação neurobiológica que lidera irá talvez determinar um dia a existência, ou não, de Deus.
Considerando o mais elementar bom senso, não há por que regatear os melhores auspícios para o progresso e bem-estar da Humanidade, graças à investigação avançadíssima do nosso laureado compatriota. Sem contudo deixarmos de ponderar que já desde há décadas funciona perfeitamente, nos domínios da física quântica, o princípio de que “a matéria-prima do Universo é a mente”. Verificou-o laboratorialmente sir Arthur Edington, estabelecendo uma noção hoje pacífica entre os seus pares académicos.
Um conferencista californiano da Christian Science cita a afirmação do prémio Nobel de física, Wolfgang Pauli, de que “a física se tornou
o estudo da estrutura da consciência”, no livro The Interpretation of Nature and PsycheImprensa Universitária de Princeton, p. 175. Citado pelo mesmo conferencista, Freeman Dyson, da Universidade de Princeton, declara: “Não podemos compreender a fundo a mecânica dos quanta, se não compreendermos também a natureza do pensamento” (The Crhristian Science Monitor, 14/6/1988, p. B 4). Já o filósofo grego Anaxágoras (500 - 428 a. C.), mesmo sem lograr dar expressão matemática à sua intuição (o que apenas veio a suceder 2500 anos mais tarde) intuiu lucidamente: “Tudo o que vemos é a materialização do invisível” e”Aquilo que vemos, não é; e o que não vemos, é” (Divaldo Franco,
História da Paranormalidade Humana, conferência audiogravada pelos Estúdios Alvorada, Salvador, Brasil).
Acresce que a ciência humana, por mais altos píncaros que alcance, com a lógica em que se movimenta jamais provaria que Deus existe, ou que não existe. Não são contas do seu rosário, não faz disso o seu objectivo. Se acaso pretendesse fazê-lo, lembraria um invisual de nascença a quem descrevessem as maravilhas da luz, das cores, das formas: o cego, habituado aos apurados sentidos de que dispõe, ansiosamente apuraria mais ainda o seu excelente ouvido, por exemplo, para se deliciar com a impressão da luz e das cores; mas em vão, naturalmente, porque nunca poderia captá-la com o ouvido e sim se porventura lograsse criar e desenvolver o sentido da visão, o sentido apropriado para perceber a luz.
Também Deus nunca poderia ser objecto de míseros sentidos ou instrumentos materiais, ainda que apuradíssimos, mas unicamente do sentido ou compreensão espiritual (O Livro dos Espíritos, quesito 11).
Jesus, o Bom Pastor da Humanidade, nunca estudou física nuclear nem dispunha de aceleradores de partículas, nem de retortas ou quaisquer equipamentos laboratoriais, quando nas bodas de Caná modificou a composição molecular da água e a transmutou em vinho; quando fez aparecer uma moeda valiosa na boca dum peixe; quando fez cinco pães e dois
peixes saciarem uma multidão; quando sarou toda a espécie de enfermidades. Simplesmente, na sua condição crística invocou o Princípio Divino de tudo, o qual agiu sobre o fluido universal e lhe imprimiu a forma desejada. Junto aos discípulos, o Mestre insistiu em que não se tratava de milagres, mas que todos esses feitos estavam ao alcance deles. Tal como posteriormente eles constataram, e como sempre até aos nossos dias tem acontecido, no seio de várias religiões e fora delas.
Serão milagres, ou factos inexplicáveis, apenas numa perspectiva material e materialista. Do ponto de vista espiritual e divino, tudo é possível e natural, nada é milagroso ou minimamente prodigioso. O conhecido filósofo e filólogo Huberto Rohden (que em 1969 proferiu conferências em Portugal e aqui deixou discípulos e um centro de estudos), conviveu com o genial Albert Einstein na Universidade de Princeton e escreveu mais tarde sobre a sua vida e o seu pensamento.
Ouçamo-lo, para terminar: “Paradoxo, em grego, e absurdo, em latim, quer dizer ultramental, como são todas as grandes verdades. O que não é paradoxal não é integralmente verdadeiro. Os 81 aforismos do livro Tao Te King, de Lao-Tsé, primam por uma estupenda absurdidade. Einstein convida-nos a aceitar que o espaço é curvo; que a menor distância entre dois pontos não é a linha recta; que as medidas de tamanho variam com a velocidade; que um corpo em movimento diminui de volume mas aumenta de massa...
À luz da ciência analítica essas informações são incompreensíveis, mas à luz da matemática intuitiva elas são geniais. O próprio Einstein nunca explicou a Teoria da Relatividade. O que é explicável não é integralmente verdadeiro. O talento explica, implica e complica, mas o génio sabe intuitivamente o inexplicável. Uma intuição matemática não pode ser analisada pela ciência. A Realidade não é explicável pelas facticidades.
O mesmo acontece na mística, que é essencialmente idêntica à matemática; ambas são a consciência da Realidade. Os Mestres da mística exigem: que o Homem morra voluntariamente a fim de viver gloriosamente; que perca tudo para possuir tudo; que se esvasie para ser plenificado; que renuncie ao ter a fim de ser. Tudo isso é incompreensível, por ser genialmente verdadeiro. Há escritores eruditos que pretendem submeter as experiências místicas a uma análise científica, para saber se elas são verdadeiras.
De modo análogo poderia alguém perguntar quantos metros tem a verdade, qual o seu peso, qual a sua forma e a sua cor. O talento é uma expressão do nosso ego humano, mas o génio é uma invasão da alma do Universo no Homem”. Não obstante a clareza de Rohden, permitase-me apenas advertir algum leitor menos atento, que mística nada tem a ver com o termo “misticismo”, no seu conhecido sentido pejorativo.
Texto: João Xavier de Almeida
*Dr. Alcino Silva, entrevistado pela revista «Visão» em Agosto passado.

