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Até quando a indiferença?

Jornal de Espiritismo nº 6 · 2004Página 154 min

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Por força das coisas, o progresso e o aperfeiçoamento da Humanidade é constante. “(...) Quando, porém, um povo não progride tão depressa como deveria, Deus o sujeita, de tempos a tempos, a um abalo físico ou moral que o transforma.”

que foram para o desemprego. Os números das estatísticas não se referem a coisas mas a pessoas, a famílias. Não é possível ficarmos indiferentes à Sua sorte.

Uma mulher é levada a tribunal por ter passado a um supermercado um cheque sem cobertura no valor de 100 euros. Desempregada há poucos meses, mãe solteira de quatro filhos menores a seu cargo, sem apoios de ninguém, passou o cheque, em desespero, para dar de comer à família. Quando o caso foi a tribunal, o supermercado retirou a queixa porque um anónimo, tocado pela situação de desespero daquela mãe, pagou a despesa.

A opinião pública manifestou-se revoltada porque se ia prender uma mulher cujo único crime foi tentar arranjar comida para dar aos filhos. Outra mulher, de dezanove anos, mãe de dois filhos menores, um de sete meses e outro a uma semana de completar dois anos, sem trabalho há vários meses, angolana, imigrante ilegal, abandonada pelo companheiro, pai das crianças, de quem desconhece o paradeiro, “que nunca quis saber de nada e nunca ajudou”, a viver num quarto onde mal cabe uma cama, pelo qual paga uma renda mensal de 150 euros (já em atraso porque não tem dinheiro), vai ser levada a tribunal por ter abandonado os seus filhos nas traseiras de um posto da Guarda Nacional Republicana.

“ Abandoneios para os ajudar, por amor, porque não tenho condições para os criar”, na esperança de que tratassem bem deles.

A família e os amigos mostraram-se surpreendidos com a situação de extremo desespero a que esta mulher chegou. Ela já tinha lhes pedido comida e dinheiro mas nunca ninguém supôs que ela estivesse numa situação económica tão grave. Inquirida, disse que contactou várias vezes a segurança social mas que ninguém a ajudou. “Nem quiseram saber se eu tinha ou não condições.” Até hoje, nunca a contactaram. “Ninguém compreendeu que nós não podíamos passar a vida a pedir, a depender dos outros”.

Infelizmente, este não é um caso único. Há idosos abandonados nos hospitais porque as famílias já não têm como mantê-los em casa. Abandonamnos para não terem que os deixar morrer à fome. Na verdade, a indiferença mata.

Ao mesmo tempo que tudo isto sucede à nossa volta, ouvimos a notícia de que já é possível, em Portugal, através da Internet, escolher o parceiro para o seu cão, fazer-lhe o “casamento”, escolherlhe a “roupinha”, os adereços, dar-lhe banho, no mínimo, por 40 euros, etc. Em contraste com a vida miserável de muita gente desesperada, este negócio canino, segundo a sua proprietária, não se queixa da crise nem da falta de clientes.

Estranho mundo, este em que vivemos! Isto faz-nos lembrar uma história que ouvimos há vários anos. Contamo-la de memória. Um padre católico, referindo-se ao período da segunda grande guerra na Alemanha, disse: “Quando prenderam os judeus, nós calamo-nos porque não era connosco. Depois foram os ciganos e nada dissemos, porque não era connosco. Depois foram os protestantes e nós nada fizemos porque não era connosco. A tudo fomos fechando os olhos e nada dizendo porque não era connosco. Quando chegou a nossa vez de sermos perseguidos, era connosco, mas já não havia quem gritasse por nós.”

Por isso, porque a fraternidade e o amor ao próximo não devem esmorecer, escrevemos estas linhas. Não falamos dos casamentos cor-de-rosa, não tratamos das figuras públicas, não lembramos aqueles que por alguns dias, meses ou anos vivem no pedestal da fama ou no gozo da fortuna que a presente reencarnação lhes permite. Lembramos a multidão daqueles que vivem no anonimato, que estão ao nosso lado, com os quais convivemos, aos quais devemos prestar mais atenção para não virmos a dizer: “Realmente, pediu-nos dinheiro, às vezes comida, mas nunca pensamos que estivesse numa situação tão má”. Porque se hoje são os outros, amanhã poderemos ser nós.

“Ardente e desvairada cobiça despertam nos vossos corações os bens que Deus vos confiou. Já pensastes, quando vos deixais apegar imoderadamente a uma riqueza perecível e passageira como vós mesmos, que um dia tereis de prestar contas ao Senhor daquilo que vos veio d'Ele? Olvidais que, pela riqueza, vos revestistes do carácter sagrado de ministros da caridade na Terra, para serdes da aludida riqueza dispensadores inteligentes?

Portanto, quando somente em vossos proveito usais do que se vos confiou, que sois, senão depositários infiéis? O que é que resulta desse esquecimento voluntário dos vossos deveres? A morte, inflexível, inexorável, rasga o véu sob o qual vos ocultáveis e vos força a prestar contas ao amigo de que vos haveis esquecido e que nesse momento enverga diante de vós a toga de juiz.

1. Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. 3º Parte, Cap. IIl, Da Lei do Progresso, pergunta 783. FEB, 54º edição, 1981.

2. Idem. Idem. 3º Parte, Cap. III, Da Lei do Progresso, comentário à pergunta 783. FEB, 54º edição, 1981.

3. Ibidem. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XVI, Não se Pode Servir a Deus e a Mamon: Desprendimento dos bens

terrenos. FEB, 97º edição, 1987, pp. 277-278.

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