Opinião
Jornal de Espiritismo nº 64 · Maio 2014Página 124 min
Através da sua expressão, por vezes desconfortável e pouco apelativa, importa buscarmos a ideia genuína, certos de que nem ela teria por fim descoroçoar-nos nem o nosso Modelo e Guia era um visionário extravagante, mas sim “Caminho, Verdade e Vida” (João 14: 6), como exemplificou sobejamente. Com alguma reflexão e apoio no contexto, para lá da forma surge a mensagem divina e o brilho da sua validade permanente, actualmente apurada pelo próprio desenvolvimento científico.
No livro “Pensamento e Vontade”, Ernesto Bozzano (l862-1943), prestigioso docente de Filosofia na Universidade de Turim, discorre sobre ideoplastia, tema que Jesus versou amplamente, sem empregar o termo (ainda inexistente). Cunhou-o a pesquisa científica no século 19, depois de experimentalmente lhe verificar a realidade, reforçada pelo astrofísico Arthur Eddington (1860-1944), nos alvores da física quântica, ao estabelecer: “a matéria-prima do Universo é a mente”.
O conceito de ideoplastia, já talvez enunciado laboratorialmente, por certo ainda não estava divulgado entre o mundo científico nos anos 40 do século passado, quando o espírito André Luís o abordou psicograficamente através do medium Chico Xavier. Kardec já discorrera sobre ele em 1864 (“O Evangelho segundo o Espiritismo”, capítulo 27), ao analisar a natureza da prece. (Sobre ideoplastia, o Boletim Informativo nº 74, Fev2014, da Associação Cultural Espírita Mudança Interior, Vale de Cambra, www.
acbmi.org, publica um texto excelente, complementado com dois breves trechos de André Luís, muito elucidativos). A mente, tal como o corpo físico, não é o nosso ser mas sim um instrumento para educarmos e aprendermos a utilizar da melhor maneira: primeiro racionalmente, depois, racional e espiritualmente. O Homem mediano actual, evolutivamente a caminho da consciência de si, da sua identidade real e eterna, ainda confunde bastante as coisas, fazendo do corpo físico o seu centro de consciência: não transcende facilmente da inteligência racional para a emocional e a espiritual (medidas por QI, QE e QS, respectivas siglas em inglês), ocupando-se em geral muito mais com ter, parecer, “triunfar”, do que natural e simplesmente SER.
No multimilenar trajecto evolutivo, acumulou ideias deturpadas, preconcebidas, enraizou-as no inconsciente individual e colectivo, formando complexas ideoplastias que se transmitem por gerações sucessivas e sucessivamente lhes condicionam a percepção do mundo. Com vida espiritual (estudo, meditação, arte, religião isenta de ritualismos e mitologia), a Humanidade, pelos seus indivíduos mais ávidos de conhecimento em todas as áreas, tem recebido clarões de inspiração que rompem equívocos ancestrais, clareando aos poucos a nossa visão do mundo e das coisas.
O mundo não é para todos uma realidade única, concreta (quase unanimemente julgada má e desoladora): é sim uma diferente percepção dele para cada um de nós e para grupos com as mesmas ideoplastias; mas, integrado na lei universal de evolução, o mundo tem o destino irreversível de progredir sem cessar para a perfeição (“santos sereis, porque eu, o senhor vosso Deus, sou santo” - Levítico: 19,2; “sede vós perfeitos como o vosso Pai é perfeito” - Mateus: 5,48).
A lúcida visão de Francisco de Assis já sabia encontrar em tudo a infinita perfeição divina, fazia-o sentir-se irmanado com cada criatura (o irmão sol, irmã Lua, irmã flor, irmão lobo, irmão enfermo…). Não se tratava de poesia, sentimentalismo nem beatice de frade; mas da lucidez com que Francisco via a Criação e as criaturas, enquanto a maioria de nós sistematicamente vê nelas hostilidade, ameaça, concorrência, ataque potencial, perigo de contágio.
A dúlcida energia anímica de Francisco ainda hoje impregna de paz e encanto os locais onde ele viveu, e até a literatura narrativa do seu viver cristão. O hábito de recolhimento mental predispõe para inspirações superiores, pois ocasiona momentos de sintonia com frequências energéticas muito altas, donde jorra luz para a sombra dos nossos problemas O hábito de recolhimento mental predispõe para inspirações superiores, pois ocasiona momentos de sintonia com frequências energéticas muito altas, donde jorra luz para a sombra dos nossos problemas (conforme a natureza deles: científica, técnica, artística, filosófica, religiosa, de saúde, etc.
, podendo iluminar também o entendimento de textos sagrados na sua profundeza). Novas de alegria Albert Einstein afirmava ao seu biógrafo Huberto Rodhen que a descoberta científica não provém de um processo lógico, racional, mas duma iluminação súbita, uma espécie de êxtase, depois é que a razão a vai testar experimentalmente. Reflexão atenta e perseverante é também fonte de luz para nos guiar até ao bom entendimento dos textos evangélicos e do estilo em que eles foram grafados há dois mil anos.
Assim, ponderando a recomendação aparentemente nada persuasiva de “renegar-se a si mesmo” para seguir a Jesus, concluímos que tal renegação só pode ser a do próprio ego (falso eu), de tendências reactivas, astuciosas, frívolas, egoístas; de modo nenhum se trata de renegar o eu real, eterno, imortal, imagem e semelhança do seu Criador, exortado a amar o próximo “como a si mesmo” (Mateus 22:39, e muitas outras passagens).
Amar a si mesmo resultará de, em estado de recolhimento mental, de oração, procurarmos o cerne luminoso e nobre de nós mesmos, essencialmente perfeito e amorável, conducente a pressentirmos no próximo idêntica natureza (inconsciente ou já despontada), para além de todos os defeitos que o seu ego (tal como o nosso) possa ostentar. E notemos como o divino amigo nos propõe mansamente, sem impor nem obrigar: “se alguém quiser…”.
Paralelamente, o desenvolvimento já alcançado pela psicologia do nosso tempo, também define os estados de sanidade psicológica como produzindo auto-estima, a qual, mesmo leigo na matéria, garantiria que enaltece não o egoísmo e sim o que de mais salutar e prudente erigimos no nosso íntimo. Texto: João Xavier de Almeida foto loucomotiv Oriunda do grego, a palavra “evangelho” significa “boa nova”. No entanto, o evangelho de Jesus aparenta às vezes exigência e dureza pouco atraentes à nossa auto-estima e bom senso.
