Opinião (pág. 14)
Jornal de Espiritismo nº 64 · Maio 2014Página 144 min
Ainda que sucintamente, ensina-nos que a reencarnação é necessária para a nossa elevação, como se processa e porquê. Exploremos o episódio. Nicodemos, não obstante a sua posição entre os setenta doutores da lei do Sinédrio, era “fariseu notável pelo coração bem formado e pelos dotes da inteligência” (BN:14). Porém sentia “... que algo de estranho e grandioso pairava no ar.” (PR:4). Naquela noite escolheu deslocar-se ao vale de Cédron, onde o Cristo pernoitava.
Pretendia perguntar- lhe “como pode o homem ver o reino de Deus?” Reporta-nos a espírito Amélia Rodrigues que o encontro ocorreu às portas de Jerusalém, em abril do ano 29, quando a cidade “quase dormia sob o véu espesso da noite alta”. O diálogo de ambos será mais tarde relatado por João ainda que, com Jesus naquela noite, somente estivessem Tiago e André. O sacerdote judeu entrou expectante na sala iluminada por lamparinas de óleo.
Ele representava a “humanidade inquieta, instável, ansiosa. Jesus [por sua vez] personificava a paz. Sereno, auscultava o amigo que fora interrogá - -LO.” (PR:4) “- Tenho empregado a minha existência em interpretar a lei, mas desejava receber a vossa palavra sobre os recursos de que deverei lançar mão para conhecer o Reino de Deus! O Mestre sorriu bondosamente e esclareceu:- Primeiro que tudo, Nicodemos, não basta que tenhas vivido a interpretar a lei.
Antes de raciocinar sobre as suas disposições, deverias ter-lhe sentido os textos. Mas, em verdade devo dizer - -te que ninguém conhecerá o Reino do Céu, sem nascer de novo.” (BN:14). Jesus explicava que a reencarnação era necessária e porquê. Uma existência não bastava. Cumpre aliás esclarecer que o verbo “nascer” está mal traduzido. No manuscrito grego o seu significado é gerar (obra do Homem), diferente de criar (exclusivo de Deus), e de nascer (que implicaria o ritual judaico do batismo).
Nicodemos teria então perguntado: “- como faço para chegar a ti?” E Jesus respondido: “- tens que ser O sacerdote tinha percebido o que Jesus tinha dito, mas pretendia conhecer o mecanismo da reencarnação. Faltava entender o porquê. gerado novamente.” Adiemos a análise do segundo ponto e vejamos como se processa. Procurando tal resposta o bom judeu questiona “- Como pode um homem nascer, sendo velho?” (João:III,4). Jesus explica-lhe “...
aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.” Recorde-se que à época existia a crença que a água era o elemento gerador da matéria. Logo o corpo, enquanto elemento material do ser, provinha da água. Por isso Jesus sublinha que existem dois componentes para se gerar vida: a água e o espírito; o material e o espiritual, independentes entre si. O sacerdote tinha percebido o que Jesus tinha dito, mas pretendia conhecer o mecanismo da reencarnação.
Faltava entender o porquê. Por isso o Messias conclui: “-É natural que cada um somente testifique daquilo que saiba (...) Se falando eu de coisas terrenas sentes dificuldades em compreendê-las com os teus raciocínios sobre a lei, como poderás aceitar (...) das coisas celestiais? (...)” Nicodemos raciocinava a lei, mas ainda não a sentia amorosamente. Faltavam-lhe novas reencarnações. Saiu confundido. A resposta parece abrupta, mas o desenvolvimento do diálogo com André e Tiago expõem as fragilidades de Nicodemos.
Solicitado Tiago a recordar o processo de redenção à luz dos mandamentos moisaicos, o apóstolo ortodoxo enunciou a lei de talião. Porém o Rabi advertiu-o: “- Também tu, Tiago, estás procedendo como Nicodemos (...) - Como todos os homens, aliás, tens raciocinado, mas não tens sentido. Ainda não ponderaste, talvez, que o primeiro mandamento da lei é uma determinação de amor. (...) Com a lei do amor (...) compreendemos que o verdugo eavítima são dois irmãos, filhos de um mesmo Pai.
Basta que ambos sintam isso para que a fraternidade divina afaste os fantasmas do escândalo e do sofrimento. (...) Aquela lição profunda esclarecia-os para sempre.” (PR:4). Por Hugo Batista e Guinote foto loucomotiv MAIO.JUNHO.2014 Um dos princípios fundamentais da doutrina espírita é a reencarnação. Porém, ele está longe de ser novidade. Foi antes apresentado pelo próprio Cristo há 2000 anos, sendo a sua primeira abordagem no encontro com Nicodemos.
devemos, mas deixar a mudança, se ela vier, nas mãos de Deus. Só quando conseguimos manter externo o que é externo realizamos coisas em prol da realidade que importa: a do espírito. Manter externo o que é externo é garantir para cada um o espaço para ser como é. Disse-nos Paulo: “no tocante às coisas sacrificadas aos ídolos, todos temos ciência. A ciência incha, mas o amor edifica. O ídolo nada é. Para nós, há um só Deus de quem é tudo e para quem nós vivemos” (I aos Coríntios, 8).
Manter externo o que é externo é ter sempre presente que “todos os recursos que não alcancem a sua verdadeira origem espiritual são transitórios” (Bezerra de Menezes, em “Rumo à Ciência do Espírito”, de Gilson Freire). Manter externo o que é externo é viver na sabedoria e vigilância peculiar assim sintetizada por Emmanuel: “O nosso pensamento cria a vida que buscamos através do reflexo de nós mesmos até que nos identifiquemos, um dia no decurso de milénios, com a Sabedoria Infinita e com o Infinito Amor que constituem o pensamento e a vida do nosso Pai” (“Pão Nosso”, psicografado por Chico Xavier).
