Opinião (pág. 15)
Jornal de Espiritismo nº 64 · Maio 2014Página 153 min
É apenas lucidez: tranquila, calma e preenchida com alegria e encantamento. E isto não tem nada de transcendente, místico ou iluminado. Para sermos verdadeiramente lúcidos e livres, temos de desejar conhecer a verdade da vida mais do que desejamos sentirmo-nos bem. Porque se apenas quisermos sentirmo-nos bem, assim que o conseguirmos perdemos o interesse pelo conhecimento da verdade. Isto apenas quer dizer que se o desejo para nos sentirmos bem é maior do que o desejo de conhecer a vida, então esse desejo vai sempre distorcer a nossa percepção da realidade enquanto corrompe a nossa mais profunda integridade.
E também a nossa saúde. O Espiritismo oferece recursos de auto- conhecimento,instrução e auto-amor que nos capacitam para a busca pela saúde de forma eficaz e permanente. No entanto, como alerta o médico e espírita Andrei Moreira, “a grande maioria dos enfermos da humanidade deseja anestesia e não consciência”. Ou seja, anestesia sem o processo educacional que promove a saúde física e mental. Optar pela anestesia é como entrar numa casa de espelhos onde cada distorção de nós mesmos dá origem a alguns companheiros de viagem persistentes, com os quais precisamos de conviver e negociar soluções, pois eles manifestam-se ao longo da nossa vida de forma intermitente.
Um desses companheiros de jornada é a ansiedade. Há outros, como a raiva, a tristeza, o medo ou a depressão. Veja-se um exemplo. Um artigo recente do “The Guardian” aborda a realidade alarmante quanto a investigadores que trabalham na academia: depressão, distúrbios do sono e alimentares, alcoolismo, auto-mutilação, tentativas de suicídio e outras maleitas físicas e mentais que, curiosamente, são consideradas “normais” no mundo universitário.
São cada vez mais frequentes os casos de estudantes de doutoramento ou jovens em início de carreira que trabalham até perderem a saúde, as suas relações e, por vezes, a vida. O mais curioso é que existe uma pressão que influencia as decisões e ritmos desses estudantes para que assim seja. E porquê? Porque nos deixamos invadir e esquecemos esse precioso conselho dado na Bhagavadgita: manter externo o que é externo. Rigorosamente, tudo é externo.
Mas esse alerta serve para nos ajudar a não internalizar, não trazer para dentro de nós, coisas que inadvertidamente possamos carregar, sem necessidade. Carregar é no sentido de ter dentro da nossa mente, por exemplo, pessoas que não precisam ocupar esse lugar, situações que nos tiram a paz ou a tranquilidade. Essas situações, muitas vezes, esgueiram-se para dentro da nossa pele e não nos largam. Viajam connosco, vivem conosco, almoçam connosco e vão dormir connosco.
E quando analisamos estas coisas que nos levam por becos às vezes sem saída, como um doutoramento, um emprego desgastante, etc., vemos que nem sempre as nossas acções derivam da nossa liberdade, mas antes dos nossos condicionamentos e infinitos desejos. Assim, se queremos promover uma mudança e sair do pequeno espaço onde acontecem as pequenas tragédias da nossa vida, o melhor é fazer o bem comum, sem que o nosso livre-arbítrio fique refém de envolvimentos emocionais indevidos.
Se queremos que alguém seja diferente do que é, façamos o que tem que ser feito e façamos também uma prece pela pessoa. Porém, devemos manter a pessoa externa e não a carregar em nós. Fazer o que foto loucomotiv Optar pela anestesia é como entrar numa casa de espelhos onde cada distorção de nós mesmos dá origem a alguns companheiros de viagem persistentes, com os quais precisamos de conviver e negociar soluções Será possível viver com lucidez total?
A lucidez, tal como a liberdade, não tem de ser necessariamente excitante. MAIO.JUNHO.
