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Estamos tão preocupados em parecer mais do que os outros que nos esque

Jornal de Espiritismo nº 64 · Maio 2014Página 166 min

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Estamos tão preocupados em parecer mais do que os outros que nos esquecemos de ser melhores pessoas a cada dia que passa. Ninguém se atreveu a encará-lo numa luta solitária até que, David, um jovem pastor e tocador de lira, ofereceu-se para lutar com o gigante. Enquanto ouvia as gargalhadas irónicas dos Filisteus, David colocou um seixo na sua funda e com uma precisão cirúrgica derrubou Golias com uma pedrada na cabeça.

Israel exultou com aquela vitória. Mas a euforia do rei durou apenas até perceber que a fama de David suplantava a sua. Nas cidades as mulheres cantavam: “Saul matou mil, mas David matou dez mil.” O Rei sentiu-se desconsiderado, humilhado. As suas emoções sombrias agudizaram - -se e tornou-se um homem cada vez mais revoltado, perto da loucura. Um dia, ao encontrar David, que tocava serenamente a sua lira no palácio, Saul arrebanhou a sua lança e pensou: “Cravarei David na parede”.

No entanto, David foi mais ágil e fugiu, deixando o rei consumir-se na sua inveja. Sendo um instrumento de reflexão sobre o processo de aperfeiçoamento e evolução do homem do ponto de vista espiritual, o Antigo Testamento é fértil em histórias que através de uma linguagem figurada, alegórica e muitas vezes poética, procuram explicar os mais profundos mistérios e conflitos da existência humana. A inveja é uma das emoções mais antigas e, infelizmente, uma das mais devastadoras e corrosivas que a humanidade já conheceu.

Ela esteve na origem de conflitos tenebrosos, ódios sangrentos, assassínios cruéis e injustiças que a história não conseguiu apagar. Hoje, a inveja ainda é considerada tão abominável que temos muita dificuldade em reconhecer que a sentimos, mesmo para nós próprios. Associada há séculos a um pecado capital, a Doutrina Espírita entende a inveja de uma forma diferente. Aliás, a própria ideia de pecado não existe no Espiritismo já que é um conceito demasiado castrador da liberdade que nos foi concedida e da nossa condição de Espíritos numa jornada interminável de crescimento e aprendizagem.

A inveja, tal como qualquer emoção perturbadora, não é um pecado, é um veneno que destrói quem o destila. Saul sentiu na pele a dor e o abalo espiritual que a inveja provoca. As virtudes, êxitos e a admiração que David granjeava tornaram-se uma força tão irresistível que desfez o seu equilíbrio emocional, fragilizando o seu amor-próprio e a confiança nas suas capacidades criadoras. Sentia- se irredutivelmente inferiorizado perante a vida, recalcando sucessivos fracassos e frustrações, mesmo sendo um Rei tão poderoso.

É normal que em algumas situações possamos ser invadidos por pensamentos intrusivos de que determinado indivíduo é melhor do que nós em alguns detalhes, que poderão ser intelectuais, morais, físicos ou económicos. Se não tivermos a maturidade necessária para lidar com as limitações próprias da nossa singularidade, esses pensamentos transformar - -se-ão num instrumento que conduzirá ao medo, insatisfação e frustração.

No fundo, se não conseguirmos aceitar aquilo que temos e aquilo que somos, o fantasma daquilo que os outros têmesão irá assombrar-nos constantemente. Acossados por esse “inimigo” externo que passeia as suas virtudes debaixo do nosso nariz e pelo ditador interno que aponta constantemente as nossas imperfeições, desiludidos connosco mesmo e tomados por um sentimento de inferioridade que nos impossibilita de chegar mais adiante, resta-nos apelar a que aqueles com quem nos comparamos sejam despromovidos na sua pretensa jactância.

Essa é a lança de Saul, que não tendo a coragem para derrotar Golias, ambiciona destruir David. Este tipo de sentimentos ainda proliferam nos nossos dias porque andamos demasiado distraídos por uma sociedade que é cada vez mais materialista e competitiva, voltada para fora, para a aparência e para a ostentação. Estamos tão preocupados em parecer mais do que os outros que nos esquecemos de ser melhores pessoas a cada dia que passa.

Qual o sentido de andar constantemente a estabelecer comparações com aquilo que os outros são quando desconhecemos o melhor que podemos ser? Para erradicar o veneno da inveja da nossa alma é necessário aceitarmos verdadeiramente quem somos e aquilo que esta existência nos proporcionou. Invejar é uma brutalidade emocional e espiritual que paralisa o crescimento. Mas a água que afoga também sacia a nossa sede. Por isso, com a humildade suficiente, é possível transformar o cancro da inveja num saudável processo de admiração que impulsionará e instigará o desenvolvimento e a aprendizagem.

É que, felizmente, o nosso mundo está repleto de Davides extraordinários que nos inspiram à sublimação. Por Carlos Miguel A lança de Saul OPINIÃO Segundo o Antigo Testamento, Saul foi o primeiro rei de Israel. Poderoso, reconhecido e amado pelo povo, preparava- se para enfrentar os Filisteus numa batalha no vale do Elá quando o gigante Golias desafiou a sua coragem e a do seu exército. MAIO.JUNHO.2014 foto arquivo Este filme é baseado numa história verídica escrita por um antigo correspondente e jornalista da BBC, Martin Sixsmith, e que deu origem ao livro “O Filho Perdido de Philomena Lee“.

Afastado da BBC devido a um escândalo político em que se envolveu, Martin é convencido a escrever a história de Philomena Lee, uma mulher Irlandesa a quem o filho foi tirado nos anos 50. Após ficar grávida na adolescência, foi abandonada pelo pai num Asilo de Madalena, um convento de freiras para “mulheres perdidas”, local onde esteve sujeita a vários tipos de humilhações emocionais pelo “delito” cometido. Depois do parto, foi ainda obrigada a permanecer naquele lugar em regime de quase escravidão, com contactos esporádicos com o filho, não conseguindo impedir que ele fosse vendido para adopção.

Apesar das tentativas efectuadas, nunca mais teve informações sobre ele. Após as investigações iniciais, Martin encontrou pistas que parecem conduzir a importantes descobertas, iniciando com Philomena uma jornada de iluminação mútua que só poderia ficar completa com a confrontação com a verdade. Com prestações extraordinárias dos atores Britânicos Judi Dench e Steve Coogan, e justamente nomeado para dois Óscares da Academia, um deles o Óscar de melhor filme de 2013, “Philomena” é um filme inspirador sobre as dimensões e os malefícios que a culpa religiosa mais ortodoxa pode alcançar, mostrando-nos ao mesmo tempo a milagrosa capacidade regeneradora que o perdão genuíno produz na alma humana.

Educada dentro do inflexível catolicismo da Irlanda profunda, onde conviveu desde sempre com a ideia castradora de pecado, Philomena nunca se conseguiu libertar verdadeiramente da culpa, associando o sofrimento pela separação do seu filho a um merecido castigo divino pela luxúria daquele momento na sua juventude. Por outro lado, ela mantém sempre uma serenidade admirável, uma fé a toda a prova, uma capacidade surpreendente para confiar e sobretudo, uma extraordinária habilidade para perdoar e exercitar a compreensão.

Ao longo do filme, Martinum ateu intelectual, sofisticado e cultovai percebendo que por detrás da simplicidade e inocência de Philomena, esconde-se uma sabedoria difícil de igualar. Mas é difícil para ele entender alguém que responde com delicadeza à mentira e com um sorriso triste à crueldade. Em algumas cenas, Martin dá voz ao próprio espectador que se debate com a vontade de ver Philomena a dar uma expressão mais enérgica à sua dor, confrontando cara a cara as responsáveis por aqueles atos execráveis em maldade mas também na incoerência com a bondade da mensagem que julgavam personificar.

“Quem faz sofrer, tem de pagar de alguma forma!”, este é ainda um dos maiores lemas da nossa sociedade. Uma torpe e insensível ideia que confunde justiça com vingança e que não deixa margem para que sentimentos verdadeiramente cristãos como o perdão, a compreensãoea educação possam ter espaço de manobra para regenerar a humanidade. Mas depois existem histórias como a de Philomena que nos inspiram e nos dão esperança.

Uma mulher que apesar de ter motivos suficientes, jamais se deixa vencer pelo ódio, não embarcando na viagem tortuosa pelos caminhos do ressentimento e do desejo de vingança. Apesar de ir descobrindo aos poucos uma verdade tenebrosa, ela continua a ver o mundo e as pessoas com os olhos de quem ama, confia e compreende, não perdendo a sua capacidade para ser afável e sentir compaixão pelos outros, mesmo aqueles que, continuando a acusá-la, não admitem o mal que lhe fizeram.

Haverá melhor personificação da mensagem cristã? Título Original: “Philomena” Realizado por Stephen Frears Grã-Bretanha, 2013 - 98 min.