Editorial Julho.agosto.2014
Jornal de Espiritismo nº 65 · Abril 2014Página 24 min
EDITORIAL JULHO.AGOSTO.2014 O quarto réu abeirou-se do estrado real e suplicou: - Perdão, perdão ó rei justo! Assaltei a casa do avarento Aquibar, porque não mais suportava a penúria… Tenho mulher e nove filhos famintos e enfermos!… Sou um cão batido pelo sofrimento… Cresci na areia, sem ninguém que me quisesse… Sei que Alá existe, porque é impossível que haja sol e caia chuva sem um pai que nos olhe do céu, mas nunca aprendi a soletrar o nome do Eterno!
… Extremamente comovido, Tajuan solicitou ao ministro expedisse socorro urgente à choupana do infeliz e ordenou que um mestre o instruísse nos deveres do homem de bem, antes que a falta subisse a mais ampla consideração dos juízes. Por último, apresentou-se um homem de porte orgulhoso, que fez a reverência de estilo e solicitou: - Sapientíssimo rei, peço a vossa benevolência para mim, que tive a desventura de furtar um adereço de brilhantes, na festa de Joanan ben Kisma, judeu rico e preguiçoso, conhecido inimigo de nossa nação… Conheço as leis que nos regem e acato os ensinamentos do Profeta, mas não pude resistir à tentação de levar comigo uma jóia do usurário que as possui aos montões… Benevolência, ó Rei Tajuan!
Rogo a vossa benevolência!… O soberano, porém, franziu a testa, contrariado e, com assombro de todos os circunstantes, determinou que o árabe culto recebesse, atado a um poste, trinta e seis chicotadas, ali mesmo, diante de seus olhos, para, em seguida, ser trancafiado no cárcere por dois anos. - Pela glória de Alá, ó rei sábio! – exclamou, confundido, o vizir a cuja autoridade se rogara auxílio para o distinto acusado – como interpretar a vossa munificência?
Destes medicação a um criminoso, escola a um ébrio e socorro material e moral a dois ladrões, e indicais pena assim tão cruel a um filho de nosso povo que venera o Profeta, unicamente pelo fato de haver desaparecido uma jóia dos tesouros de um agiota desprezível? - Por isso mesmo, ó vizir, por isso mesmo! – falou Tajuan, desencantado – por saber tanto, é mais responsável… Os quatro primeiros eram ignorantes e todos os ignorantes são infelizes, mas o quinto culpado é um homem finamente instruído e sabe perfeitamente o que deve fazer!
Texto: Irmão X (Espírito) Livro «Relatos da Vida», Francisco Cândido Xavier (médium). Consciências Passar aqui é quase um privilégio, uma bênção, uma boa oportunidade de melhorar para abraçar o porvir. Na escola um grupo de alunos defronta uma estrutura de arame, fria e espartana, com a forma de um cavalo. No fim do trabalho, uns revestiram-no de mais arame, outros de papel cinzento e outros de papel de cor – cada mente cada leitura.
E ao sol desta manhã vejo a nossa Terra, olhos nos olhos, a jangada de pedra em que viajamos sem paragem, de forma esférica, azul vista do Espaço, a rodopiar entre constelações. Para uns é um corpo planetário que segue caminho sob a batuta das leis da física. Para outros é coisa nenhuma ou pouco mais. Tenho de confessar que para mim hoje ela parece um bocado a bola-de-berlim, o doce que conheci na infância, com fio de creme amarelo, polvilhada de açúcar, que estimula o palato infantil e inunda a máquina cerebral de glicose.
Não é que a queira engolir. Pelo contrário, numa escala de tempo geológico, a mim parece a Terra uma estrutura de ação rápida que senta o viajante no banco de escola e faz com que se acabe por deixar cair excessos e se abra espaço a novas conquistas interiores, aquelas que não se perdem nunca mais. Será de vê-la, a nossa Terra, como o palco multimilenar onde aprendemos e voltamos, em que repassamos lições pouco compreendidas, passo a passo, aperfeiçoamos.
Mas quanto mais se configura na nossa mente, este é o chão de uma casa onde se sedimentam demoradas sessões de amor, em jeito de terapia libertadora. Quantas camadas de afeto, esta energia feita sentimento e este sentimento feito energia, percorrem estes palcos evolutivos, em eras incessantes? Pais que amam filhos muito além de si próprios, filhos que aprendem a amar os pais, irmãos que se estimam além da pista apertada de uma existência, amigos que levam a amizade a distantes horizontes vidas sobre vidas, cônjuges que aprendem por fim que só se amam quando deixam cair o livro de faturas sem pedir nada em troca, amigos presentes entre o visível e o invisível, sempre tão atuantes quanto possível… A Terra não é só isto, mas é também isto – de quanto amor se reveste a nossa escola, redonda e talentosa como um ovo, capaz de misturar o perfume das flores das orlas dos bosques com o luar e o brilho das estrelas.
Passar aqui é quase um privilégio, uma bênção, uma boa oportunidade de melhorar para abraçar o porvir. Não há prece à sua altura senão a de todos os momentos, expressa sem formalidades ou encenações nas nossas atitudes em pleno quotidiano. De nada vale uma oração se for seguida de atitudes feitas de banalidades emocionais, mas de muito vale manter um sentimento de amor que se desdobre o mais possível nas pequenas coisas que tecem o dia-a- dia.
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