entrevista Clóvis Nunes: as aparições e a transcomunicação É espírita
Jornal de Espiritismo nº 7 · 2004Página 98 min
Clóvis Nunes: as aparições e a transcomunicação
É espírita há cerca de 25 anos. Militante e dirigente de casa espírita e de sessões mediúnicas. «Venho de uma história de mocidade espírita, já fundei vários centros espíritas no Brasil. Participei muito no movimento espírita brasileiro, em congressos, conferências e eventos dos
mais variados», diz. Clóvis Nunes é técnico de edificações electrotécnicas, especializou-se em projectos de alta tensão. Está a fazer um curso de bacharelato em Física na Universidade. Habita hoje em Feira de Santana, na Baía. É a maior cidade do interior, depois da capital, e a maior
do interior nordestino deste país irmão.
Clóvis é também consultor da Rede Globo, televisão, na área dos fenómenos paranormais, desde 1994, «Fizemos oito programas da «Globo Repórter» e alguns quadros para o programa «Fantástico». O último que fizemos foi sobre a revelação do Museu das Almas do Purgatório, um museu da igreja católica, reservado ao conhecimento de poucas autoridades do Vaticano, e que guardava, há mais de 100 anos, 18 casos de aparições de espíritos de padres e freiras que voltaram do Além e deixaram rastos e marcas dessas aparições, tais como documentos e resíduos, dentro da própria igreja», afirma.
E continua: «Tudo nasceu no final do século passado, com o padre Vítor Jouet, da Ordem do Sagrado Coração do Sufrágio, uma ordem católica destinada a orar pelos moribundos e pelos mortos, principalmente os que morreram de maneira difícil. Essa ordem foi fundada em França, pelo padre Jules du Chevalier, em 1854, numa época bem contemporânea do nascimento do espiritismo. Surgia, assim, uma ordem católica, do nosso ponto de vista, com a finalidade de comunicação com os mortos, através de preces.
Então, o padre Vítor Jouet foi a Roma para inaugurar a primeira igreja dessa Ordem, situada a dois quarteirões do Vaticano, junto ao Rio Tibre. Quando decorria a cerimónia de inauguração do altar, houve um incêndio misterioso no mármore. Na verdade, tratou-se de uma parapirogenia, palavra que vem do grego piro, de fogo e genia, de geração, ou seja fogo gerado paranormalmente. Foi pedida ajuda aos fiéis que ali se encontravam e quando conseguiram apagar o fogo verificou-se que o mármore estava derretido e que nele, esculpido pelo fogo, apareceu um rosto de um homem atormentado.
Isto passou-se em 15 de Novembro de 1863».
— São então esses factos que está a pesquisar? Clóvis Nunes — Sim. O padre Jouet achou que foi um sinal do Além e que um espírito atormentado precisava de ajuda, pelo que o objectivo da Ordem estava a ser atingido positivamente. Procurou, então, o papa Pio X e pediu-lhe autorização para viajar por outros países, a fim de aferir se fenómenos semelhantes teriam ocorrido noutras igrejas. O papa autorizou e essa viagem durou seis anos!
Esse padre foi, mais tarde, embaixador do Vaticano em Roma e conseguiu manter uma grande amizade com o papa. Entretanto, nos seis anos que durou a sua viagem, escreveu quase duas mil cartas e trouxe 260 casos de aparições de espíritos de padres, freiras e outras personalidades ligadas à igreja católica. Daí nasceu o que ele definiu como o primeiro “museu cristão de além-támulo”. — Eonde é que fica esse museu?
CN — Fica na Igreja do Sagrado Coração do Sufrágio, na Rua Rio Tevere, n.º%, a dois quarteirões do Vaticano. É um museu secreto da igreja. — É mesmo secreto, não é aberto ao público? CN — Devia ser, mas não é tão aberto como isso. Contudo, com um pouco de curiosidade, pode entrar na igreja embora seja proibido filmar e fotografar.
Estive lá, com um amigo, ele não conseguiu entrar, mas eu entrei com o sr. Capogrosso, um cineasta profissional, de Roma. Conheci-o, ficámos amigos, pois ele é muito interessado no assunto. As fotografias desse museu tinham sido reveladas ao mundo pelo prof. Henrique Rodrigues e pelo dr. Molina, um parapsicólogo espanhol. Ele deu-me essas fotos.
Eu já tinha passado pelo museu em 1996, quando fazia pesquisas de TCI (transcomunicação instrumental) em Itália, e dei-me conta de que nele havia um verdadeiro “tesouro escondido”. Então, na minha viagem a Roma, em 2003, fiz a reportagem de capa do Programa “Fantástico” da Rede Globo, com a duração de 19 minutos, e que foi exibida em 9 países e esteve 15 dias em páginas da Internet. Essa reportagem sobre o museu repercutiu muito
no meio católico brasileiro, porque foi apresentada na véspera do Dia dos Mortos. Como nesse dia as igrejas estão cheias de gente, os comentários foram exactamente sobre esse assunto. O arcebispo da minha cidade procurou-me e, de uma maneira surpreendente, pediu-me informações para poder orientar os padres da sua região, uma vez que estavam a ser muito questionados, sobre o museu, pelos devotos católicos.
Então, o museu continuou com a mesma forma até aos anos 20. Após a morte do padre Jouet, o seu sucessor, o padre Benedito, mudou o nome do museu para Museu das Almas do Purgatório e destruiu grande parte das peças, deixando apenas 18 casos. Como o museu teve a bênção do papa para ser criado, não puderam destruir tudo. Estou a escrever um livro sobre esses acontecimentos, porque consegui contactar com o chefe-geral da ordem e ele traduziu-me muitas informações, inclusive as anotações pessoais do padre Vítor Jouet.
O director do Diário Oficial do Vaticano fez uma reportagem interessante sobre a autorização formal do papa João Paulo II para que a proibição do contacto com os espíritos não fosse tão radical. E incluiu um discurso do papa, feito no Dia dos Mortos, em 1984, em Roma, que referia a dada altura que o diálogo com os «mortos» não deve ser interrompido, porque a vida não se acaba nos limites deste mundo.
— Clóvis, muito sucintamente, em que tipo de pesquisa é que está integrado ultimamente, ou que descobertas é que tem feito?
CN — Estamos a trabalhar, há quase 20 anos, em fenómenos de poltergeist. Lá no Brasil, já investigámos 16 casos documentados, com testemunhos, com rcgistos, com vídeos e contamos com uma equipa que nos auxilia, simpatizantes das pesquisas psíquicas.
Também estamos a investigar um caso belíssimo de escrita directa, sem contacto psicográfico, por uma entidade que se comunica há 13 anos com a família, na minha cidade, e que já escreveu mais de 130 bilhetes, com a própria assinatura. — Desculpe interrompê-lo... isso acontece num Centro Espírita... em casa de alguém? CN — Acontece na casa dessa família e mesmo em viagens que fizemos juntos...
— Eles são espíritas, também?
CN — São espíritas, sim. Conversamos sobre determinado tema e, de repente, aparece um papel
fixado na laje. Quando o papel cai, verificamos que tem uma resposta escrita à nossa conversa. Já aconteceu em viagem, com o carro completamente fechado, o ar condicionado ligado, o bilhete cair no nosso colo, em frente ao volante e sempre com uma resposta ao assunto de que estávamos a falar. Essa entidade também tem feito muitas transcomunicações, por exemplo só em minha casa recebi três telefonema.
— Como é que comprova que esses telefonemas não são brincadeira de alguém do exterior? CN — Porque a maneira como acontece é singular e difícil. Vejamos, por exemplo, um telefonema que recebi em minha casa, às 2h15 da madrugada. Estava a fazer um relatório das pesquisas dos últimos fenómenos que tinham ocorrido na sextafeira e no sábado. Era domingo à noite e eu não tinha avisado ninguém que iria trabalhar nesse relatório.
À hora referida, estava eu no 20.º fenómeno (tinha 42 para registar!) e necessitava de ir trabalhar, no outro dia, às 7h00. Estava cansado, as pálpebras pesavam-me... e tomei a decisão pessoal de resumir os 22 fenómenos que faltavam em 30 minutos. Quando comecei a fazer o resumo, o telefone tocoununca ninguém me tinha ligado a uma hora dessase até pensei que se passava algo de grave com a minha família. Ao atender, comecei a ouvir um ruído semelhante ao do vento e, de repente, uma voz sussurrada, mas muito clara, disse: «Clóvis, meu filho, nem sempre o mais fácil é o melhor.
Continue a descrever os fenómenos em relatório, como estava a fazer. Não se preocupe com o cansaço, nós estamos a assisti-lo. Que Deus abençoe o seu trabalho». De repente, a ligação caiu. Repito que ninguém no mundo sabia que eu estava a fazer aquele relatório e muito menos que tinha tomado a decisão pessoal de fazer tudo mais rápido... somente, mesmo, um fenómeno paranormal. Esse fenómeno está registado no meu último livro de «Transcomunicação».
CN — “TranscomunicaçãoComunicações Tecnológicas com o Mundo dos Mortos”. Está já com seis edições no Brasil, em três anos de revisões, pois quando sai nova edição, pela editora EDICEL, Junto sempre coisas novas. O livro tem tido uma venda de 78% a 80% fora do mundo espírita. É um livro muito vendido no Brasil, bem aceite nos meios académicos, e é considerado o mais completo do género, pois faz uma panorâmica da TCI no mundo todo, em vez de focar experiências de grupo apenas.
Nele resumi a história da TCI e gostaria de referir dois acontecimentos incríveis que nele registei: 1. Descobrimos no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro que o 1.º transcomunicador do mundo foi um brasileiro: Augusto de Oliveira Cambraia. Posso dizer que fui o primeiro pesquisador a conseguir obter todos esses registos. 2. Achei o livro de Oscar D'Argonnel que, de 1917 a 1925, recebeu muitos telefonemas do Além, daíotítulo da obra “Vozes do Além pelo Telefone”.
Como se vê, o primeiro livro de transcomunicação é do Brasil, o primeiro contacto telefónico de transcomunicação é no Brasil e o primeiro homem a pensar em aparelhos de TCI era brasileiro.
— Diga-me: fazem essas pesquisas de TCI no vosso centro espírita, fora dele, em casa ou num sítio neutro?
CN — Já formámos, no Brasil, uns cinco grupos de pesquisas de TCI. Viajámos muito e, inicialmente, fizemos pesquisas na nossa casa, depois num grupo espírita, mas também em lugares independentes. — O que aconselha a quem quer iniciar-se na TCI?
CN — A meu ver, deverá ter-se um nivelamento cultural sobre o assunto e o primeiro passo é a pesquisa bibliográfica, para não se começar por onde muita gente termina; depois, o nivelamento do próprio grupo, pois é importante a persistência e a constância: hora, dia certo e lugar adequado.

