7 — índice de conteúdos

opinião Do Euro 2004 à Europa e ao mundo Gerou-se, a meio deste ano, u

Jornal de Espiritismo nº 7 · 2004Página 157 min

Partilhar
Idioma

Do Euro 2004 à Europa e ao mundo

Gerou-se, a meio deste ano, uma inusitada euforia em torno do campeonato da Europa de futebol realizado em Portugal: o Euro 2004.

O país, espicaçado pela insistente promoção, habilmente levada a efeito através da comunicação social, venceu o cepticismo e a desconfiança iniciais, face à exorbitância megalómana dos números envolvidos na construção de tantos estádios em época de crise económica e desemprego, e mobilizou-se, na “sede de vitórias”, em torno de algo mais profundo do que um simples evento desportivo.

Não foram a representação, o atributo ou a insígnia que geraram tão grande entusiasmo; não foi o patriótico apoio a uma selecção de talentosos jogadores que gerou tanta alegria, esperança e optimismo; não foi a utilização generalizada dos símbolos da identidade nacional, em janelas, montras, carros, etc., que alimentou esse clima de exuberante e colorida festa colectiva. A selecção nacional, a bandeira e o hino não foram mais do exteriorizações simbólicas de um insuspeito sentir colectivo, profundamente adormecido, mas extraordinariamente vivo, enraizado e pujante, com o qual os portugueses se identificaram .

O que representam os símbolos? “ Representam ou substituem outra coisa com a qual estabelecem correspondência”; são um “ser, objecto ou facto que representa uma realidade abstracta; signo comncreto de valor abstracto”. São portanto, também, “seres, objectos ou imagens a que se convencionou atribuir determinado significado” ?. Raramente, nos tempos mais próximos, existiu uma identificação tão grande dos portugueses com esse espaço simbólico, mítico, abstracto que extravasa as dimensões físicas do país, e que foi igualmente sentido, também de forma entusiástica e vibrante, por outras comunidades, de Timor ao Brasil, contagiando, inclusive, a comunidade de Goa, na Índia, ligada a Portugal por laços de afecto.

Mesmo outras nacionalidades se sentiram contagiadas pela “onda portuguesa” .

O que terá acontecido? Terá o futebol essa força? Terá ele essa mística? Possuirá ele essas energias? Terão, os jogadores, esse magnetismo contagiante? Não! Eles não são mais do que representações de uma outra realidade abstracta mais profunda, imaterial, que se expressa e revela por símbolos.

Não foi apenas a comunicação social quem preparou o povo para a participação entusiástica na “festa”, através de uma campanha bem estruturada, dirigida ao sentimento de pertença e à identificação com os objectivos colectivos a atingir. Não foi apenas a capacidade de entender a psicologia do “ser português”, revelada pelo treinador brasileiro ao serviço da Federação Portuguesa de Futebol, que fez com que Scolari motivasse o povo a identificar-se com os símbolos nacionais de modo a apoiar os “seus heróis”.

Foi também, e sobretudo, a demonstração evidente de que “os povos são individualidades colectivas” 3, conforme se lê na resposta à pergunta 215 de “O Livro dos Espíritos”: - “Os Espíritos também formam famílias pela similitude das suas tendências, mais ou menos purificadas, segundo a sua elevação. Pois bem: um povo é uma grande família em que se reúnem Espíritos simpáticos.

distintivo de cada povo. Acreditas que Espíritos bons e humanos procurarão um povo duro e grosseiro? Não. Os Espíritos simpatizam com as colectividades, como simfutizum com os indivíduos. Procuram o seu meio.”

Vista a questão do ponto de vista das afinidades espirituais, a resposta dos espíritos é bastante elucidativa quanto às razões da simpatia “espontânea” que o povo sentiu pela sua selecção: “é a tendência dos Espíritos a se unirem (e identificarem) com a família (povo/colectividade) com a qual simpatizam”. Se o saldo do Euro 2004 é positivo em termos de organização, eficácia e participação, porque razão não somos capazes de realizar, como povo, outros feitos mais grandiosos e perduráveis?

(Não falamos de feitos materiais mas de feitos espirituais). Provavelmente porque escolhendo a via do materialismo que nos cega não vislumbramos a grandeza de um caminho mais espiritualizado que nos liberta.

extensão territorial, nascem, crescem e morrem, porque a força de um povo se exaure, como a de um homem. Aqueles, cujas leis egoísticas obstam ao progresso das luzes e da caridade, morrem, porque a luz mata as trevas e a caridade mata o egoísmo. Mas, para os povos, como para os indivíduos, há a vida da alma. Aqueles, cujas leis se harmonizam com as leis eternas do Criador, viverão e servirão de farol a outros povos.” (LE 788)

Imaginemos os passos gigantescos que a humanidade daria se todos os povos se unissem com o objectivo da paz, da justiça, da verdade e do amor, se todos se identificassem com esses ideais! Seria o mais extraordinário acontecimento alguma vez realizado na Terra. Mas nem todos os espíritos estão ao mesmo nível de consciência e é por isso que a Terra continua a ser um “mundo de provas e expiações”.

Se, no momento actual, situarmos Portugal no seio da Comunidade Europeia, a que nos achamos vinculados por uma série de tratados, sujeitos a uma prolixa legislação comum, que não atenta às especificidades de cada povo, no momento em que já se fala da aprovação, para breve, de uma Constituição Europeia que maioritariamente desconhecemos, apontando para uma visão federalista da Europa, vemos que a pergunta 789 que Allan Kardec faz em “O Livro dos Espíritos” foi premonitória e é bastante actual e pertinente.

Pergunta o Codificador: “O progresso fará que todos os povos da Terra se achem um dia reunidos, formando uma só nação? ” Respondem os espíritos: “Uma nação única, não; seria impossível, visto que da diversidade dos climas se originam costumes e necessidades diferentes, que constituem as nacionalidades, tornando indispensáveis sempre leis apropriadas a esses costumes e necessidades.

homens. Quando, por toda a parte, a lei de Deus servir de base à lei humana, os povos praticarão entre si a caridade, como os indivíduos. Então, viverão felizes e em paz, porque nenhum cuidará de causar dano ao seu vizinho, nem de viver a expensas dele”.

No nível evolutivo em que nos encontramos, há que aceitar que as nacionalidades continuarão a existir, ainda por muitos séculos, pois, tendo cada povo a sua missão específica, são necessárias as diferenças para que se dê o progresso comum, pela contribuição de todos. A Comunidade Europeia que se fundou em interesses económicos terá o seu tempo de existência e evoluirá, como tudo, para outras formas de organização mais perfeitas.

Deverá, se deseja sinceramente perdurar, colocar a lei de Deus como base para a elaboração das suas leis, levando a que os seus povos pratiquem entre si a caridade, como os indivíduos. À cooperação, a fraternidade e a solidariedade devem substituir a competitividade que explora uns em favor de outros. Só então, como dizem os espíritos, estes povos viverão felizes e em paz, porque nenhum cuidará de causar dano ao seu vizinho, nem de viver a expensas dele.

Se este objectivo é ambicioso, não nos podemos esquecer que a Europa não é um território isolado no espaço. Ela pertence a um mundo onde imperam a injustiça, a mentira e o jogo dos interesses particulares. A Europa, para se realizar, tem de corrigir os seus vícios e cooperar com o resto do mundo, usando nas suas relações internacionais de caridade, pois todos os povos se encontram dependentes uns dos outros. Não é possível construir um território de felicidade no meio do sofrimento colectivo.

Será sempre uma felicidade relativa e temporária. Todas as barreiras, muros e fronteiras serão impotentes para impedir o assalto dos famintos e deserdados da humanidade que chegam em busca de trabalho, esperança e condições de vida mais dignas, justas e humanas. Se a Europa quer ser útil ao mundo, tem que ser um farol de valores humanos, paz, justiça e caridade. Se os seus povos se identificarem com esses símbolos do progresso, ela seguramente avançará.

Caso contrário será efémera como todas as construções humanas.

O caminho só pode ser percorrido em conjunto, de mãos dadas, solidariamente.

Como espíritos vinculados a Portugal, sentimonos reconhecidamente portugueses. Mas como Espíritos criados por Deus sentimo-nos irmanados a toda a humanidade. Mais do que acentuar as diferenças, o importante é encontrarmos os pontos de união que permitam à grande família humana trabalhar pelo seu progresso comum. Aí estará a nossa grande realização colectiva. Estamos certos de que uma grande parte da humanidade já se identifica com esse sublime ideal e que a multidão dos seres fraternais e solidários cresce a cada dia para se tornar o alicerce da humanidade futura.

1. Isto parece corroborar a opinião de alguns analistas sociais, segundo os quais: os portugueses só se mobilizam para as grandes causas; não se identificam nem se revêem nas suas classes dirigentes, das quais desconfiam. Sustentam, por isso, que em Portugal existe um défice de cidadania e de cultura de participação cívica nos problemas comuns. 2. Segundo a definição que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, Verbo, Vol. II, pág. 3415. 3. Conforme escreveu Allan Kardec na questão 788 de “O Livro dos Espíritos”. 4. “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec, editora LAKE, 60.º edição, 1999.

JDE

Leve o arquivo completo consigo

Receba por email o acesso para descarregar todas as edições do Jornal de Espiritismo em PDF — o arquivo completo, ano a ano.

  • Download de todos os JDE em PDF (ZIP completo)
  • Links por ano, para descarregar só o que precisa
  • Seleção quinzenal de conteúdos. Sem publicidade, cancela quando quiser.

100% gratuito — sem custos, sem registo pago.