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opinião Homenagem a Kardec A Europa vivia ainda dias tormentosos, após

Jornal de Espiritismo nº 7 · 2004Página 154 min

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A Europa vivia ainda dias tormentosos, após a Revolução Francesa de 1795. Nomes que marcaram a história, ainda sob os escombros dessa luta fratricida, como Voltaire, Montesquieu, Cabanis, Condillac, Honotaro Mirabeau, Diderot, Desmoulin, empolgavam estes revolucionários franceses, as classes dominantes pós-revolução.

Surge no meio deste panorama político e social a figura de Napoleão Bonaparte buscando impor ordem na desorganização reinante. No entanto vemo-lo entorpecido pelo poder. Desajusta-se da incumbência que tinha assumido na Espiritualidade e ei-lo arrojado à volúpia da vaidade e desmedida ambição, culminado por se auto-eleger como imperador da França, o que traz consigo nova era de conflitos e agonias.

Porém o homem nunca está desamparado nem só. Regidos que somos por Leis Imutáveis, era chegada a hora de descerem dos Planos Superiores da Vida seres que se disponibilizavam para renascerem nessa terra tão sofrida e sacrificada por longos anos de lutas.

Fazem eles parte duma plêiade de espíritos nobres que darão novo impulso às Ciências, e às Artes, pois um novo ciclo para a Humanidade estava a despontar no horizonte. Observa-se então que a Química, Matemática, Biologia, Zoologia, Física, Botânica e Astronomia são campos de trabalho onde nomes como: Lavoisier, Pascal, Leibnitz, Nexton, Berthelot e outros marcaram um novo alvorecer.

Vemos então surgir o código dos Direitos do Homem, ainda hoje tão pouco respeitados por algumas nações, senão por quase todas. Código da mais elevada moral, se fosse cumprido, a Humanidade respiraria há muito a era de paz tão apregoada e desejada. Contudo, homens de coração empedernido, cuja consciência não desperta, provocam a miséria e o caos por toda a parte. Olhamos e vemos a Irlanda nos anos de 1840 arrastar-se pelos campos minados pelo míldio, trazendo a fome aos seus

habitantes, fome essa que se estenderá pela restante Europa pelas mesmas razões. Senhores feudais espoliando pobres camponeses com impostos incomportáveis, forçando-os a abandonarem seu país e empurrando-os através do oceano a rumarem ao Novo Mundo, como nova fonte de vida e esperança.

E é nesse clima que surge a figura singular de Allan Kardec. E é desse Novo Mundoa Américaque vêm as noticias insólitas, que vão chamar a atenção dos salões da alta sociedade, ávida de novas emoções e sensações. Desde curiosos aos charlatães, os investigadores sérios e arrojados debruçam-se sobre toda a fenomelogia, que se faz presente nessas reuniões sociais.

Daniel Doulgas Home com uma extraordinária capacidade extra-sensorial mostra-se desde a Inglaterra, à Rússia, França, Itália, Holanda Alemanha. As cabeças coroadas de Nicolau II, Napoleão III, Imperatriz Eugénia, Guilherme 1, rainha Sofia, príncipes e nobres, todos se sentem atraídos pelos inusitados fenómenos, não estudados e decifrados ainda. Ei-lo, primeiro incrédulo mas curioso, observa com seu sentido crítico e racional, que ali está a chave do grande enigma. Sente que tem a capacidade de se adentrar por essa porta, onde o desconhecido o aguarda.

Sentindo a chama do fogo sagrado de seu compromisso em sua alma, e que é chegada a hora de dar à Humanidade a prova que lhe falta, para se redimir e rumar à felicidade que está em si e não fora de si, Allan Kardec inicia então sua obra de gigantea Codificação da Doutrina Espírita.

Experimenta Kardec as dores morais dos detractores, dos desertores, dos falsos companheiros, dos que sempre aparecem no caminho daqueles que são demasiado grandes na sua estatura moral em relação à maioria, por isso se tornam incompreendidos, intolerados e indesejados.

Allan Kardec escreve para a posteridade: Não são espíritas aqueles que usufruem quaisquer benefícios da comunicação dos espíritos. Aqueles cuja vida não seja um reflexo da crença que esposam. Os gozadores, mentirosos e

enganadores. Os que exploram, utilizando-se de ardis e superstições. Os que se mancomunam com a desonestidade e o desrespeito. Os que acatam o vício e se acobertam na indignidade. Tais não são espíritas!

Podem estar e estarão por certo dentro das fileiras do Espiritismo, mas são os espinhos que dilaceram os trabalhadores honestos e dedicados. Afirma ainda o Codificador: o espírita será conhecido por muito amar e como verdadeiro cristão!

No dia 18 de Abril do ano de 1857 o mundo tem a grande oportunidade de fazer uma viragem de 180º, reduzindo as estruturas da sociedade corrompida a zero e criando condições para um clima de paz, fraternidade, liberdade e igualdade, conforme preconizavam os novos valores saídos da grande evolução francesa.

Decorridos dois séculos sobre a promessa cumprida do Cristo do novo Paracleto, vê-se a doutrina espírita ser falada um pouco por toda a parte.

Núcleos de trabalho reúnem novos pregoeiros da Boa Nova. Contudo há que se fazer um “check-up”, porque se alguma coisa se fez em termos de casas que abriram falando do Cristianismo Redivivo, o entusiasmo no estudo das obras da Codificação, os corações estão frios e distantes uns dos outros. Salvo raras excepções, torna-se necessária uma chamada aos valores da fraternidade, que urge ressaltem dos dirigentes e trabalhadores para o mundo em aflição.

A casa espírita é o último reduto onde o sofredor vai buscar acolhimento e lenitivo. A casa espírita deverá ser como a fonte de Jacob, não mais para dessedentar a Jesus, mas ao viajante da vida que se perdeu no deserto dos seus dias.

Allan Kardec merece de todos os espíritas convictos mais dinâmica, mais consenso nas suas actividades, mais generosidade de uns para com os outros, e esta sim será a melhor homenagem que todos podemos prestar-lhe, não só pelo seu bicentenário, mas todos os dias

de nossas vidas. Texto: Julieta Marques

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