Opinião (pág. 14)
Jornal de Espiritismo nº 71 · Junho 2015Página 145 min
O altruísmo pode ser uma coisa boa, exceto se o leitor for um biólogo evolucionista (que defende a teoria da evolução de Darwin). Nesse caso, o altruísmo tanto pode ser um mistério como uma maldição. Afinal, como é que a seleção natural pode conviver com indivíduos – humanos ou não-humanos – que ajam de forma difícil para si mesmos, mas de forma útil para os demais? O próprio Darwin estava ciente deste dilema e procurou esboçar algumas soluções.
Porém, foi só no século XX que o altruísmo se tornou relevante para os biólogos evolucionistas. Várias soluções têm sido propostas. Uma delas nega que o altruísmo exista na natureza ou que é tão raro que não vale a pena perder tempo com ele. Outra solução formula teorias segundo as quais a seleção natural é tão forte que prevê a existência de altruísmo, ainda que essas teorias não tenham sabido, até agora, definir o nível em que atua a seleção natural.
Será que seleciona os organismos mais aptos, os genes mais fortes, populações, espécies? Assim, o problema do altruísmo tornou-se inseparável dos níveis de seleção natural. David Wilson, biólogo e antropólogo, tem defendido a teoria da seleção multinível. Explica o cientista que se a única unidade de seleção fosse o organismo seria de esperar que não houvesse a evolução de traços altruístas ou bondosos. Passou-se a postular que, no mínimo, teria de existir um nível superior no qual a seleção natural poderia operar: o grupo.
O pressuposto básico desta teoria é que o grupo como um todo beneficiaria quando um indivíduo altruísta se encontrasse no mesmo. Por exemplo, várias espécies de aves apresentam um comportamento conhecido como “gritos de alarme” que é, basicamente, a emissão de um aviso por uma das aves quando esta percebe a presença de perigo. Poucos biólogos evolucionistas aceitaram esta teoria, mas Wilson contra-ataca com o seu último livro “O altruísmo existe?
”. O investigador diz que o problema do altruísmo na natureza está definitivamente resolvido. Para desespero de muitos, Wilson defende que a teoria multinível do altruísmo não só existe como faculta uma forma poderosa de pensar e orientar a evolução de instituições sociais humanas, como a economia. Isto significa que os mecanismos de seleção natural, a vários níveis, tanto ocorrem na natureza, como nas instituições humanas.
A argumentação do cientista é complexa e vai desde a distinção entre pensamentos, ações e sentimentos até culminar na resposta de que sim, o altruísmo e a bondade existem. Vejamos agora como é que o Espiritismo acrescenta ao conhecimento científico dimensões relativas no que toca aos valores, tais como a bondade e a caridade. Valores éticos universais? Os valores éticos universais, consciente ou insconscientemente, permanecem como uma matriz para o autojulgamento de quaisquer ações ou pensamentos que transgridam esses valores.
Sempre que desrespeitamos um valor universal ocorrem conflitos na nossa mente, sejam eles na forma de culpa, autocondenação, rebeldia, ou outro. Daqui é fácil perceber que mais do que inspirações passageiras ou ideias brilhantes, são os nossos hábitos mentais quotidianos que controlam a nossa vida. O Evangelho dirige-se precisamente aos nossos hábitos mentais. “O Evangelho segundo o Espiritismo” (ESE) e muitos espíritos já nos vieram confirmar que todos os males nas nossas vidas, bem como na evolução da humanidade, se devem a uma só causa – a de não aplicarmos o Evangelho, sendo ele a fonte da paz tripla: a paz connosco mesmos, a paz para com os demais e a paz para com a natureza.
O capítulo VII do ESE lembra claramente para falarmos do Evangelho, mas fugindo dos holofotes, para praticarmos a caridade e abandonarmos a exibição. Já no cap. XII, é-nos lembrado que “a beneficência não é ajuda qualquer, é auxílio fraterno que não se ostenta nem desdenha o necessitado, pois o bem que se faz ao próximo é sempre um bem a si mesmo”. Dar e partilhar é um sinal de crescimento. Não dar é um sintoma de definhamento.
Ser um consumidor a tempo inteiro sem nos tornarmos contribuidores não é uma forma de vida. Temos de ser contribuidores. Mais: temos de ser contribuidores genuínos. Mas só nos tornamos contribuidores genuínos quando removemos da nossa mente falsas noções sobre o mundo e sobre as pessoas. Temos de dar (e de nos dar) até nos doer a nós. Dar é como fazer levantamento de pesos. Não podemos levantar uma chávena e dizer que fazemos musculação.
Temos de levantar os pesos que quase não conseguimos levantar, tal como os culturistas fazem. E se temos tantas formas e tanto para dar (tempo, ouvir alguém com quem não simpatizamos ou que nos aborrece, elogiar alguém mesmo quando sabemos que, em privado, aquela pessoa não é o que parece, encorajar, empatizar, partilhar o nosso conhecimento, orar por alguém), não há outra forma senão dar até doer. Porque nessa dor vamos crescer e aprender a amar incondicionalmente.
É inútil procurar dentes no bico de um corvo ou a quinta pata de um gato. Por isso, é inútil perguntarmo-nos sobre as imperfeições do mundo ou nos outros com quem convivemos. Ver a criação como algo imperfeito é produto das nossas próprias projeções e desejos de que o mundo ou as pessoas deveriam ser diferentes do que são. Claro que isso não significa que devamos resignar-nos ou furtar-nos a cumprir as nossas responsabilidades quando percebemos que somos contribuidores em qualquer situação.
É isso que nos mostra a explicação de Wilson sobre a presença e importância do altruísmo nas instituições sociais. Afinal, como diz Emmanuel, “Deus está em nós, quanto estamos em Deus”. Isto que parece tão simples representa a maior mudança cognitiva que temos de fazer: aceitar que não temos de mudar nada, mas que temos de contribuir para que não se caia nas armadilhas da agitação mental e, sobretudo, porque a nossa verdadeira natureza é o amor, ou seja, a contribuição cooperante.
“Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus” (Paulo, I Coríntios, 3:9). Texto: Filipa Ribeiro foto loucomotiv JULHO.AGOSTO.2015 Como é que Espiritismo e Biologia olham para o altruísmo, bondade e caridade? tarmos pelo caminho do Amor. É um imperativo da evolução! Há tempos, ouvindo uma conferência do ilustre espírita Divaldo Pereira Franco, este referia, em tom de brincadeira que Jesus de Nazaré ensinou-nos “Amai-vos uns aos outros”, mas, nós, seres primitivos, espiritualmente falando, alteramos a frase para “Armai-vos uns aos outros”.
Se a situação não fosse trágica, até seria engraçada e poderíamos dizer que afinal… a culpa é do “R”! Por José Lucas * http://www.ptjornal.com/2013050215802/ geral/mundo/menino-dispara-arma - -que-recebeu-no-dia-de-aniversario-e - -mata-a-propria-irma.
