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Jornal de Espiritismo nº 72 · Maio 2015Página 56 min
foto UL Comportamentos autolesivos Joana Pinto – A minha filha, de 15 anos, tem apresentado falta de apetite, tristeza, isolamento. Um destes dias apareceu-me com cortes nos braços! Como poderei ajudá-la? Somos pais espíritas, mas ela se recusa-se a ir ao centro. D.ªGláuciaLima– As alterações do apetite, do humor, o isolamento, com repercussão no comportamento social, são sintomas muito frequentes, de entre outros como: baixa auto-estima, baixo autoconceito, pensamentos ruminativos e obsessivos de morte e desvalorização, desinteresse pessoal e social, diminuição do apetite e do sono como também queixas somáticas, nas perturbações depressivas na idade escolar e na adolescência.
Na adolescência, os sintomas de depressão já são sobreponíveis aos do adulto, entretanto, existem com maior frequência as “depressões atípicas”, que cursam com alterações do apetite, hiperfagia (aumento do apetite), letargia, hipersónia e nesta faixa etária existe maior ocorrência de comportamentos autolesivos, aumenta o risco de suicídio e de comportamentos aditivos. Os comportamentos autolesivos surgem como uma metacomunicação (comunicação indireta).
Constitui na maioria das situações uma atitude sem intencionalidade suicida, como, por exemplo, cortar-se, saltar de locais elevados, ingerir quantidades elevadas de fármacos, sem intenção letal. Podem ocorrer, num contexto depressivo, mas, habitualmente visam atingir um ganho secundário e revelam alguma perturbação emocional. Este comportamento é muito assustador para os pais que veem os seus filhos a mutilar-se com comportamentos autolesivos, como cortarem-se, o que muitas vezes fogem ao seu controlo.
Não tarda, questionam-se: Onde é que nós falhamos? O que fizemos de errado? Definimos aqui a faixa etária da Adolescência, por não ser uma faixa etária consensual, definida pela OMS (Organização Mundial de Saúde) como a fase de vida compreendida entre os 10 – 19 anos. E o “ Jovem” como todos os que se encontram entre os 15 aos 24 anos. Segundo a WHO, World suicide Prevention, o suicídio é a 2.ª causa de morte na faixa etária dos jovens, só perdendo para os acidentes, que é a 1.
ª causa de morte entre os jovens, o que é uma estatística muito preocupante! Observando ser o suicídio a 2.ª causa de morte entre os Jovens, constata-se que o problema se encontra subdiagnosticado e subvalorizado em termos de saúde pública. E, provavelmente, o estigma é um dos fatores responsáveis pela baixa taxa de registos dos casos, associado à dificuldade do acesso às consultas médicas, de entre outros. Podemos questionar-nos: o que temos feito pelos nossos Jovens?
Qual a educação que lhes temos dado? Quais os valores que lhes temos passado? Os jovens que têm comportamentos autolesivos, na maior parte das vezes, não querem morrer e sim pedir apoio para ultrapassar algo; ou porque desejam obter alguma reação; ou por sentimento de omnipotência; ou por desafio; ou apelo; ou um jogo com a vida ou fuga de algo com que não conseguem lidar . Mesmo assim a atitude merece toda a atenção por parte dos pais, pois reflete algo que não se encontra bem com o jovem e que pode em escalada vir a tornar-se num transtorno mais grave, como tentativas reais de suicídio.
Devemos ressaltar que quando o jovem chega ao ponto-limite do suicídio a sua causa é sempre complexa e multideterminada, como no adulto. Entendemos do ponto de vista espiritual, que a pessoa deprimida, seja ela, jovem ou adulta, terá sempre companhias espirituais, afins, que alimentam o seu estado mental. E muitas vezes, encontramos na prática processos obsessivos que se instalam na Adolescência e cujo alvo é a família.
No entendimento da abordagem sistémica das Famílias, “O jovem que tenta o suicídio fracassou no seu processo evolutivo de desenvolvimento e nas suas relações multidimensionais (individual, familiar, social, inter-pares). Nas tentativas de suicídio e comportamentos auto-lesivos há uma tentativa de restauração da identidade e qualquer coisa que se quer exprimir sobre a sua comunicação familiar”, segundo o Prof. Daniel Sampaio, 2002.
A Adolescência enquanto fase evolutiva é importante na completa definição identitária sexual. As estatísticas demonstram que o jovem nesta faixa etária, com problemas identitários, apresenta um risco seis vezes mais elevado para comportamenSETEMBRO.OUTUBRO.2015 Observando ser o suicídio a 2.ª causa de morte entre os Jovens, constata-se que o problema se encontra subdiagnosticado e subvalorizado em termos de saúde pública.
tos autolesivos ou tentativas de suicídio. Ainda é importante realçar que não existe um único fator de risco ou único fator protetor que evite ou determine o ato suicida, devemos pensar neles em conjunto e enquadrá-los no contexto específico do indivíduo e na sua história biográfica. Tal como a existência de um ambiente familiar equilibrado, social ajustado, escolar contentor . Ou o contrário, a presença de abuso sexual na infância (15 a 20% das raparigas que fazem TS (tentativas de suicídio) tem histórias de abuso ou abuso intrafamiliar); ou história de bullying; lhes confere um rico acrescido.
Evidenciamos os fatores espirituais, para além da predisposição social, familiar, no que concerne a “hereditariedade espiritual”, fruto das nossas tendências do passado, marcas das nossas existências do pretérito, em forma de tendências depressivas, por vezes expressas ainda em tenra idade. Outras vezes, logo ainda na 1.ª infância, quando o espírito, por recusa reencarnatória ou por dificuldades de adaptação à vida, aos pais, nem sempre afetos do passado, demonstram as “perturbações da vinculação” ou ainda por nostalgia do plano espiritual, sentem este sentimento depressivo, em forma de “angústia depressiva” ou vazio existencial.
Outro fator espiritual importante dá-se nesta fase da Adolescência, sobretudo, quando no desabrochar da Juventude, ocorre o despertar da mediunidade. Sabe-se que nesta faixa etária, ocorre o 2.º ciclo da mediunidade e esta pode ocorrer com sintomas depressivos (humor triste, instabilidades de humor, mudanças repentinas de humor, irritabilidade) ou equivalentes depressivos (sintomas somáticos, como dores de cabeça e outras inespecíficas ou flutuantes).
Sintomas estes que têm a ver com a sensibilidade mediúnica aflorada. Acreditamos que o jovem que chega aos comportamentos suicidários, estará ele em companhia de mentes menos felizes em processos de influenciação mental, perniciosos, que a mente menos vigilante incita e permite. Coloca-se então a questão: Se os pais são espíritas e o jovem recusa a ir à casa espírita o que fazer? O jovem tem o direito de escolher e a liberdade de decidir se quer ou não fazer este caminho com os pais.
Mas, os pais espíritas têm a obrigação de levar o Evangelho na sua maior acepção e na prática para o seu LAR. O maior contributo que a doutrina espírita pode dar às famílias é de Educar no Evangelho de Jesus, os pais, para que eles possam ser os transmissores da mensagem de amor e da cultura de paz para dentro das famílias, através do exemplo. As crianças aprendem através da moldagem, do exemplo, não vale a pena a assertiva: “faça o que mando, e não faça o que eu faço”.
Nessa medida, se o jovem não aceita ir ao centro, não vale a pena ir contrariado. Seria bom se aceitasse, porque poderia beneficiar do efeito da fluidoterapia e das aulas vocacionadas para educação infanto-Juvenil, porém, a Espiritualidade auxilia sempre e mesmo à distância, o jovem poderá receber o auxílio pretendido. Cito ainda as estratégias do Plano Nacional de PrevençãodeSuicídioelaboradoparaosanosde2013- 2017, que já identificou a adolescência como uma faixa etária de risco para o suicídio.
I.Uma prevenção eficaz combina estratégias dirigidas: a população, aos grupos de risco e a grupos específicos; II.Deteção precoce dos jovens em risco e intervenção efetiva; (também estratégia da OMS) III.Diminuição do aceso aos meios letais; (também estratégia da OMS) IV.Tratamento de perturbações mentais quando existirem; (OMS) V.Sensibilização da imprensa (efeito de contágio, muito comum nesta faixa etária); (OMS) VI.
Maior acessibilidade aos meios de saúde; VII.Intervenção no espaço escolar (programas de sensibilização); VIII.Redução do estigma e procura de ajuda; IX.Sites de prevenção; X.Educação e sensibilização da população; XI.Importância dos cuidados de saúde primária. Os comportamentos autolesivos, a depressãoeo suicídio na adolescência é um problema atual, grave, multifacetado, necessita de uma abordagem multidisciplinar, psicoeducativa, terapêutica, psicofarmacológica (quando necessária) e psico - -espiritual.
E o centro espírita tem um papel importante na educação da família, na promoção dos valores em função da preservação da vida, do ser, que aprende a amar a si mesmo.
