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Crónica

Jornal de Espiritismo nº 73 · Agosto 2015Página 134 min

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Naquela berma da estrada que descia de Jerusalém para Jericó, encontra-se gravado o caminho para compreender a real dimensão do conceito de humanidade. O que é um homem? De que servirão todas as suas conquistas, conhecimentos e técnicas, se não for capaz de sentir as pessoas como pessoas e tratá-las como tal? Por entre a lufa-lufa vertiginosa dos dias, na inquieta persistência das rotinas de interesses imediatos, na luta pela preservação a qualquer custo de estilos de vida oportunistas e desequilibrados, é muito fácil esquecer os princípios, as bases éticas, que nos sustentam como sociedade.

Em 1973, os psicólogos americanos Daniel Batson e J. M. Darley fizeram uma curiosa experiência com alunos de Teo¬logia da Universidade de Princeton nos EUA. Foi pedido a metade dos seminaristas que preparassem uma palestra de quinze minutos sobre a parábola “O Bom Samaritano”, enquanto à outra metade foi solicitado que desenvolvessem outros temas. Enviados individualmente para uma sala num outro edifício onde fariam a prelecção, a uns estudantes foi referido, antes de saírem, que se teriam de apressar pois estavam atrasados, enquanto a outros foi dito que teriam tempo suficiente para chegar ao local da palestra.

Perto da porta de entrada da sala foi colocado um ator que, deitado no chão, simulava estar atordoado e com dores. Os resultados foram surpreendentes: 90% dos estudantes de teologia a quem foi pedido que se apressassem, não ofereceu ajuda. Alguns deles chegaram a tropeçar ou calcar o homem estendido no chão. Dos estudantes que não estavam com pressa, 63% auxiliaram-no. Curiosamente, não foi identificada qualquer diferença na ajuda prestada entre os estudantes que tinham tratado o tema da parábola “O Bom Samaritano” e os outros.

O que é um homem? De que servirão todas as suas conquistas, conhecimentos e técnicas, se não for capaz de sentir as pessoas como pessoas e tratá-las como tal? O motivo determinante para ajudar foi o tempo disponível para o fazer. O homem em agonia foi ignorado porque era um transtorno, ajudá-lo criava um conflito de interesses com a urgência de chegar a horas ao compromisso. Também na parábola isso acontece: o Sacerdote e o Levita passaram ao largo porque tiveram medo do viajante “meio-morto”, viram-no como uma potencial fonte de problemas e uma ameaça à pureza que lhes era atribuída e que os impedia de tocar em cadáveres.

Quando agimos desta forma insensível, a nossa humanidade fica suspensa, refém do eventual transtorno que a sua aplicação nos poderá provocar. Em sentido contrário, a ajuda do Samaritano é movida pela compaixão, pelo toque do outro dentro de nós. Podemos definir compaixão como um choque interior que revela a presença em alguém de um outro igual a mim. Essa abertura ao outro nem sempre é fácil, exige coragem pois torna-nos mais vulneráveis.

O Samaritano aceita essa vulnerabilidade, fica disponível para abraçar a incerteza, a repartir os seus bens, renuncia à sensação de segurança, aos seus interesses, modifica o plano da sua viagem porque alguém igual a ele precisa de auxílio. O mais extraordinário da verdadeira compaixão é que ao nos dispormos a ver e a sentir a dor do outro, comprometemo-nos com ela, a dor torna-se nossa também. Torna-se mesmo nossa. A neurociência descobriu que não existem diferenças significativas nas áreas cerebrais ativadas quando se faz alguma tarefa ou se vê alguém a fazê-la.

Isto deve-se aos chamados “neurónios esA Caminho da Humanidade Real pelho” que nos proporcionam a capacidade de imitar o comportamento das outras pessoas mas também de desenvolvimento da empatia e da compaixão. Só que, apesar de sermos biologicamente programados para a compaixão, o egoísmo é um mestre em colocar os interesses próprios a berrar muito mais alto. Um dos maiores desafios de um Espírito na sua caminhada de sublimação é conseguir ver para além das voragens do egoísmo, adquirindo a sensibilidade para perceber essa dimensão desconhecida: o outro, a sua identidade, história e circunstâncias.

Qualquer processo de humanização tem as suas bases na forma como olhamos para alguémeo sentimos como próximo, até mesmo parte de nós. A berma do caminho que descia de Jerusalém para Jericó revela que começamos a perder a nossa humanidade pela indiferença. E essa indiferença não está apenas reservada à miséria alheia ou aos sofrimentos do outro mas, também, às suas aspirações, desejos e necessidades, às injustiças, à deterioração acelerada a que conduzimos o nosso planeta.

Essas indiferenças podem ter origem no egoísmo, no desleixo, no preconceito ou até no medo que não será por isso que deixaremos de ser responsabilizados e sofrer as suas consequências. Diz-nos o Espiritismo que são dores de crescimento, que tudo isso faz parte de um processo contínuo de evolução e aprendizagem individual e coletiva. É bem verdade. É pena que, por conta dessa indiferença, continuemos a capitular os mesmos erros, semeando os mesmos ódios, destruindo a herança ambiental que legaremos às gerações futuras, a nós próprios seguramente.

Daí a crucial importância da lei de causa e efeito e da reencarnação: Se hoje ainda não formos capazes de nos colocarmos no lugar do outro, a vida se encarregará de fazer-nos sentir essas novas perspectivas mais tarde ou mais cedo. E se não o conseguirmos antes, talvez ao encarnarmos a pele do outro, vivendo numa outra existência com as suas circunstâncias e limitações, já possamos entender toda a dimensão das suas aflições e caminhar passo a passo para níveis cada vez mais sublimados de sensibilidade e empatia com todos aqueles que cruzam os nossos caminhos.

Por Carlos Miguel “Um Samaritano, ao passar, viu o homem ferido e ao vê-lo teve compaixão.” NOVEMBRO.DEZEMBRO.