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Jornal de Espiritismo nº 74 · Janeiro 2016Página 55 min
O cancro: “Porquê eu? Quando soube, quis suicidar-me!” “Não havia sentido para a vida! Ter de fazer mais um tratamento. Não era o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro... Porquê eu? Quando soube, quis suicidar-me!” sic. A Paula é uma jovem advogada que procurou ajuda para tratar uma depressão. Referia que se sentia perdida, sem rumo. Teve um cancro de mama aos 25 anos de idade, fez uma mastectomia parcial (extração da mama).
Aos 50 anos, teve um cancro de ovário, fez uma histerectomia total (extração do ovário e útero). Após dois anos apresentou recidiva do cancro para o peritónio. Fez todos os tratamentos com quimioterapia (QT). Não conseguia saber “o porquê de tanto sofrimento”, dizia-me Paula. Teve uma vida familiar difícil desde a sua infância. Filha única de pais separados. O pai sempre foi a sua maior referência, dedicado à espiritualidade, à qual a mesma nunca deu atenção.
Há um ano o pai desencarnou, o marido ficou desempregado e a sua vida desorganizou-se. “Perdi o meu chão!”, sic. Há 4 meses recebeu a notícia que tinha um novo cancro, provável recidiva do último tumor no peritónio, localizado na cúpula da vagina. Iniciou QT para o 4.º cancro. Desesperada e querendo desistir de lutar pela vida, questionava-se: “Porquê eu!?”, sic. Após o 3.º ciclo de QT, os médicos informaram-na que se tratava de uma massa cística (não neoplásica) e não se tratava da recidiva de um tumor!
Entretanto, na sua luta pela vida e na falta do seu pai, (re)encontrou-se com a espiritualidade nunca antes assumida. Procurou na doutrina espírita consolo, equilíbrio, tratamento energético e orientação espiritual. A doença ressurge-lhe como chamamento para a busca da espiritualidade, ao passo que o objetivo é o burilamento do espírito nas suas necessidades evolutivas. No engodo, do diagnóstico do 4.º cancro, desesperada, procura apoio espiritual e encontra mais uma vez este apelo, a sua necessidade de abertura à espiritualidade, a que provavelmente fechou portas no passado.
Porém muitas vezes, não entendemos os caminhos ou desígnios divinos e até mesmo perdemos a fé, quando a nossa dor é muito intensa ou acreditemos ser maior que a nossa capacidade de suportá-la. A Paula não sabia que as doenças “não nos escolhem” sem qualquer razão ou objetivo. “A quem, então há de o homem responsabilizar por todas essas aflições, senão a si mesmo? ESE (“O Evangelho Segundo o Espiritismo”), Cap. V. Emmanuel, no livro “O Consolador”, psicografado por Francisco Cândido Xavier, assevera que “A saúde é a perfeita harmonia da alma, para obtenção da qual, muitas vezes há a necessidade da contribuição das moléstias e deficiências na Terra”, referindo ainda que “O corpo doente reflete o panorama interior do espírito enfermo”.
Mas, perdemos esta perspetiva contributiva das enfermidades se não temos a noção da transitoriedade da vida neste planeta, no qual estamos somente em estágio evolutivo, quando a doença surge como uma necessidade evolutiva e não como uma punição. Por outro lado, o Espiritismo traz a ideia de que quando as doenças se materializam no corpo físico, já existiam previamente no corpo perispiritual, só tendo vantagens este processo “purgativo” no corpo material, do desequilíbrio preexistente.
É muito importante que possamos perguntar a nós próprios: o que aconteceu na minha vida antes de adoecer? Para onde aponta a doença? O que eu preciso mudar? André Luiz afirma no livro “Evolução em dois mundos” que “A etiologia das moléstias perduráveis, que afligem o corpo físico e o dilaceram, guarda no corpo espiritual as suas causas profundas”. Também Joana de Ângelis, em “Dias Gloriosos”, refere a ação do perispírito ou modelo organizador biológico (MOB): “Os mecanismos propiciadores da degenerescência orgânica e da instalação das enfermidades encontram - -se no cerne do ser, na sua estrutura, de que se encarrega o perispírito na sua condição de organização modeladora da forma, portanto, das necessidades indispensáveis à evolução do ser espiritual”, referindo-se a função que tem o (MOB) de transmitir ao corpo físico as enfermidades de que necessitamos para o nosso crescimento espiritual na existência atual.
Ainda sabemos que a dor e a doença são sempre oportunidades para o crescimento e evolução, exceção feita aos momentos em que rigidificamos em nós as nossas tendências de vitimização e de projeção na vida, no outro e em Deus a razão do nosso sofrimento. Nestes casos advém a persistência do desequilíbrio, a depressão, a falta de sentido para a vida, o vazio existencial, como foi o caso da Paula, antes do seu encontro com a espiritualidade.
A saúde emerge como um estado de equilíbrio (emocional, mental, físico e espiritual), da boa administração da nossa energia vital, sendo a doença a manifestação corpórea do bloqueio já existente em outras dimensões do ser. É muito importante que possamos perguntar a nós próprios: o que aconteceu na minha vida antes de adoecer? Para onde aponta a doença? O que eu preciso mudar? O Espiritismo mostra como a nossa mente tem o poder de influenciar o nosso perispírito, transmitindo as nossas emoções mais deletérias em forma de viciações mentais, pensamentos destrutivos, plasmando no nosso corpo físico estados de saúde ou doença.
Mais uma vez, André Luiz, esclarece no livro “No Mundo Maior”: “… a nossa mente age no organismo perispirítico, com poderes muito mais extensos, à mercê da singular natureza e elasticidade da matéria que presentemente nos define e forma”, criando novos desequilíbrios de variadas ordens. Também podemos criar pontos de ligação fluídicas pela nossa sintonia mental com entidades em desequilíbrios que alimentam vícios, perpetrando desequilíbrios orgânicos e do foro mental.
Segundo Emmanuel, em “Religião dos Espíritos”, Q. 259. “A prática do bem é o único antídoto eficiente contra o império do mal em nós próprios (…) “Guardemo-nos, assim, contra a perturbação, procurando o equilíbrio e compreendendo o bem – expressando bondade e educação – a mais alta fórmula para a solução de nossos problemas”. Somos os autores dos nossos destinos e cabe-nos transformar a nossa existência em um palco de felicidade e de amor ou de infelicidade e de dor, conforme nos fixemos nas nossas perdas e nos nossos sofrimentos, egocentricamente.
Estamos perante o modelo Espírita de Saúde, que nos traz uma visão da doença como um caminho de crescimento e evolução, onde não há lugar para a lamúria e pesar, mas, sim, para a compreensão e resignação, de entendimento do processo da evolução do ser, valendo ressaltar que apesar de protegidos pelo esquecimento, muitas das doenças que nos acometem a existência foram escolhas provacionais do espírito no seu processo ascensional.
Por Gláucia Lima Este já era o seu quarto cancro ao longo dos seus 55 anos de idade, conta-nos Paula. Quando recebeu a notícia, quis pôr fim à vida. JANEIRO.FEVEREIRO.2016 foto ulisses.com.
