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Jornal de Espiritismo nº 75 · Março 2016Página 56 min
Ansiedade e depressão As perturbações do foro mental são dos problemas mais relevantes que têm levado as pessoas a recorrerem os centros espíritas em busca de um lenitivo, quando não conseguem resolver os questões que as consomem no quotidiano. Na realidade, na vida comum de todos nós, temos problemas e dificuldades a ultrapassar, não fôssemos habitantes de um ainda planeta ainda de “provas e expiação”. Porém, em determinados momentos, em face das circunstâncias vividas, estas parecem, ultrapassar as nossas capacidades de resiliência (capacidade de voltar ao seu normal após grande adversidade) e é também nestes momentos que tudo à nossa volta parece desmoronar, aparecendo por vezes o sintoma ou a doença mental que dantes jazia latente, em forma de perturbação ansiosa (fobia, pânico), depressão, dependências de substâncias, dentre outras.
Vamos por vezes buscar no centro espírita um consolo, uma solução, mas, para alguns, funciona como a ilusão de que alguém – ou uma força externa a nós próprios – viesse a resolver os nossos problemas, como se não devesse partir de si próprio o esforço de transformação interior. Foi realizado um Estudo Epidemiológico Nacional da Saúde Mental, desenvolvido por um projeto de iniciativa internacional pela World Mental Health Survey Initiative (WMHSI) coordenado pela Universidade de Harvard e pela OMS (Organização Mundial de Saúde), para avaliar a epidemiologia das perturbações psiquiátricas dos portugueses, tendo sido evidenciado que Portugal, em conjunto com a Irlanda do Norte, mostram a mais elevada prevalência (número de casos novos e antigos) de doença psiquiátrica em toda a Europa.
Isto mostra que apesar de sermos um país de gente com muita fé e muitos católicos (81% da população portuguesa) por si só não basta para prevenir a doença mental em Portugal. As prevalências encontradas na população portuguesa estão entre as mais altas da Europa, em todos os grupos de perturbações mentais, destacando-se mais em relação aos outros países em relação as perturbações do foro ansioso (Wang et al. 2011), sendo de uma forma geral, as patologias psiquiátricas mais comuns na população portuguesa as patologias da ansiedade e as perturbações do humor.
Para além, das perturbações do foro mental, temos também o que «O Evangelho Segundo o Espiritismo» (ESE) chama de “Os nossos tormentos voluntários”, no capítulo V, item 23, “Bem-aventurados os aflitos”, remetendo ao facto de que na vida buscamos a nossa felicidade na satisfação de prazeres transitórios e efémeros, (…) “isto é nos gozos materiais em vez de a procurar nos gozos da alma, que são um prelibar dos gozos celestes, imperecíveis; em vez de procurar a paz do coração, única felicidade real neste mundo.
(…) O homem, como que de intento, cria para si tormentos que está nas suas mãos evitar”, traduzindo o apego a materialidade. Este capítulo nos fala de dois especiais tormentos: a inveja e o ciúme, como venenos para a alma. “Que de tormentos, ao contrário, se poupa aquele que sabe contentar-se com o que tem, que nota sem inveja o que não possui, que não procura parecer mais do que é”, sendo essas muitas vezes as causas comuns da ansiedade e da depressão.
E em face aos obstáculos ou desafios existenciais, tendemos a dois tipos de comportamento: 1. Rigidificar/endurecer os nossos afetos perante a doro que acontece quando nos negamos a perceber o sentido das nossas aflições; ou 2. Transcender o sofrimentoatribuindo-lhe um significado, tornando-nos pessoas melhores. Quando optamos pela segunda opção cumpre-se a função evolutiva do desafio existencial e evoluímos no nosso processo de crescimento.
Esse mecanismo aplica-se em todos os tormentos que nos atropelam a existência, turvando a nossa vivência da felicidade, seja pela partida de um ente querido ou mesmo pela antecipação fóbica da mesma, uma doença, ou uma vulnerabilidade qualquer que nos perturbe. De uma forma geral verifica-se que as mulheres estão mais vulneráveis no que toca a sofrerem de perturbações depressiva e ansiosa que os homens. Estes por sua vez tendem ao maior risco de sofrerem de perturbações do controlo de impulsos e perturbações por abuso de substâncias.
Sabe-se também que um em cada cinco portugueses apresentou uma perturbação nos últimos 12 meses anteriores ao estudo referido. A doutrina espírita, como um bálsamo de AMOR, diz que nenhum sofrimento é eterno e sem sentido e tal como a vida no seu carácter transitório, a dor e o sofrimento tambémosão. Embora a busca de um comprimido milagroso seja mais fácil e Portugal seja o país da Europa que mais consome ansiolíticosquase ¼ das mulheres da população geral e 1/10 dos homens os consomem, surge o homem velho em busca do homem novo dentro de si mesmo, em busca de paz e em face das suas contingências íntimas e existenciais a procura de novas respostas à sua espiritualidade.
“De degrau em degrau, ascende, caindo para levantar-se, atraído pelo sublime tropismo do Amor!”, (…) “ Quem teme a escuridão perde-se na noite. Sê tu aquele que acende a lâmpada e clareia as sombras”(…) Ângelis, J. “Jesus e Desafios”, ainda que nem sempre de momento entendamos as causas das nossas perdas e aflições. O caso que se segue ilustra o tema em pauta. “Era um dia de domingo, no serviço de urgência. Fui chamada para atender uma mãe em aflição num profundo estado de ansiedade por ter recebido naquela madrugada uma má notícia: a sua filha de 14 anos lhe telefonara a dizer que tivera um acidente de viação.
Foi levada em estado de choque para a urgência do hospital. Estava acompanhada por uma amiga, que esclareceu que a senhora que gritava pelas suas filhas estava em Portugal há seis meses e tinha vindo para tentar uma vida melhor. A sua filha de 14 anos viera com ela e a de 16 anos, tinha chegado há 2 meses, na altura do natal. O acidente aconteceu na madrugada quando ambas retornavam de uma festa com os seus namorados.
O carro derrapou numa curva levando à morte imediata da filha mais velha. - “ O que eu fui fazer? Meu Deus! Isso é castigo! Trouxe a minha filha para morrer em Portugal! Porque Deus fez isto comigo! O que estou a pagar! Não merecia isto!” Foram todas as questões que foram gritadas com imensa dor por aquela mãe de 43 anos, num momento de profundo desespero. Dor que me fez sentir pequenina diante de tanto sofrimento. Como explicar as vicissitudes da vida, aparentes injustiças, sem recorrer à espiritualidade?
A doutrina espírita, como um bálsamo de AMOR, diz que nenhum sofrimento é eterno e sem sentido e tal como a vida no seu carácter transitório, a dor e o sofrimento tambémosão. “Para julgarmos qualquer coisa, precisamos ver-lhe as consequências”. (…) precisamos transportar-nos para além desta vida, porque é lá que as consequências se fazem sentir. Ora, tudo o que se chama infelicidade, segundo as acanhadas vistas humanas, cessa com a vida corporal e encontra a sua compensação na vida futura”.
ESE, Cap.V. item 24. Nesse entendimento nenhum sofrimento é em vão! Traduzindo uma finalidade evolutiva, embora muitas vezes possamos ficar obnubilados pela sua aparência e intensidade, dando-nos uma razão e um sentido último para todos os nossos tormentos e dificuldades. Importante é não perder o sentido, que face à adversidade, seja ela uma perturbação mental, uma doença física ou uma circunstância de vida menos favorável, não estamos sós e nunca estaremos desamparados pela espiritualidade amiga no nosso compromisso existencial.
Gláucia Lima, psiquiatra e conhecedora dos conteúdos da doutrina espírita, dá continuidade a esta secção do jornal e elucida sobre os problemas expostos no título. foto ulisses.com.pt MARÇO.ABRIL.
