Opinião (pág. 15)
Jornal de Espiritismo nº 75 · Março 2016Página 154 min
Às vezes, olhamos ao redor e parece tudo errado: os nossos valores parecem tão desfasados do que vemos que perdemos a noção de quem está bem ou não ou se vale a pena continuar pelo caminho que os nossos valores e convicções naturalmente desenham. Como diz Julia Kristeva (no livro “Nações sem Nacionalismo”), “é rara a pessoa que não invoca uma proteção primordial para compensar a desordem pessoal”. E todos nós, às vezes mais e às vezes menos, encontramo-nos num estado de “desordem pessoal”.
De vez em quando, sonhamos com uma “grande simplificação”; sem aviso, envolvemo-nos em fantasias regressivas que nos levam a viver sempre entre muros. Repare-se, a título de exemplo, nos recentes movimentos universitários em que estudantes norte-americanos pedem protecção dos conteúdos de alguns livros que consideram perigosos, nomeadamente clássicos da literatura grega e romana. Ou os adolescentes e as suas mudanças de comportamento, ora isolando-se ora mantendo comportamentos de risco.
Ou o medo dos pais de que as suas crianças tenham medo. Ou a tentativa de normalizar os comportamentos através do controlo, incluindo através de ramos como a psiquiatria. Todavia, como observou T.H Marshall noutro contexto, quando muitas pessoas correm simultaneamente na mesma direcção, é preciso perguntar duas coisas: atrás do quê e do que estão a correr. Neste ponto vale a pena recordar Paulo e Silas que, perto da meia-noite, nas trevas da prisão, oravam e cantavam hinos a Deus e os outros presos os escutavam (Actos, 16:25).
Enquanto muitos permaneciam ali sem esperança, aqueles discípulos de Jesus, dilacerados pelas torturas físicas, começam a orar. Na linguagem intemporal do exemplo, eles escolheram a coragem. E a prece. É preciso fazer coisas diferentes e de forma diferente; agarramo-nos aos hábitos e rotinas ou a outros refúgios porque são menos stressantes e mais confortáveis. Não surpreende, pois, que a Psicologia actual esteja a concluir que vale a pena escolher a coragem em detrimento do nosso conforto.
“O melhor da nossa vida começa no limite da nossa zona de conforto. Para despertar o nosso potencial, temos de nos levar para fora dos nossos padrões diários”, defende a psicóloga Shilagh Mirgain. É preciso fazer coisas diferentes e de forma diferente; agarramo-nos aos hábitos e rotinas ou a outros refúgios porque são menos stressantes e mais confortáveis. Porém, para atingir fins maiores, temos de ir além disso. Uma forma de ir além é abrir mão das ideias e noções que possamos ter, por exemplo, quando ouvimos falar de Deus, de Jesus ou de ideais como Justiça, Educação, etc.
Algumas pessoas acham que já sabem por terem lido livros ou ouvidos diferentes professores, mas quantos de nós permitimos realmente que as palavras venham até nós? Quantos de nós permitimos a nós mesmos ver o sentido dessas palavras deixando que se estabeleçam na nossa compreensão? É esse o convite que, por ora, lhe faço. Há alturas das nossas vidas em que mente e coração se enrolam como um gato ao colo da fé no futuro porque o presente está a doer aquele tanto que pensamos já não aguentar.
Mas olhe para a rua e... reparou que as magnólias já floriram? Aprendamos com o exemplo de Maria de Magdala. Sensível e intuitiva, ela guardava no seu íntimo valores morais nela incutidos desde a infância. Forte, emancipou-se perante os modos acabrunhantes da sua época, mas, a certa altura, deixou-se vencer pelo cansaço. Naturalmente, muitos espíritos aproveitaram a ocasião, pois, momentaneamente desviados do amor, eles sabem que vivemos em interdependência vibratória e, por isso, os valores das pessoas que nos cercam podem sufocar-nos ou sufocar a nossa consciência em momentos de fragilidade emocional.
Ainda assim, Maria de Magdala saiu da sua zona de conforto e ousou. Ousou fazer de Jesus o condutor da sua alma, começando aí a renovação da sua vida. Porque se “cada um é tentado quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tiago, 1:14), também cada um tem uma horta de amor na sua alma que lhe cabe cultivar, sendo essa a grande fonte de alegria que nos evita o desespero. Dediquemo-nos ao bem de nós mesmos, como exorta Emmanuel.
E complementa Kardec: “Que se faz quando está viciado o ar? Procede-se ao seu saneamento, cuida-se de depurá-lo, destruindo o foco dos miasmas, expelindo os eflúvios malsãos, por meio de mais fortes correntes de ar salubre. À invasão, pois, dos maus fluidos, cumpre se oponham os fluidos bons e, como cada um tem no seu próprio perispírito uma fonte fluídica permanente, todos trazem consigo o remédio aplicável. Trata-se apenas de purificar essa fonte e de lhe dar qualidades tais, que se constitua para as más influências um repulsor, em vez de ser uma força atrativa.
O perispírito, portanto, é uma couraça a que se deve dar a melhor têmpera possível.” (in “A Génese”). Todos, sem excepção, somos peões em inúmeros trânsitos de influências espirituais, mas voltemos o coração para a prece por alegria e por vida nos momentos em que a tristeza, desânimo ou cansaço quiserem morar em nós. Porque “se o mundo experimenta a tempestade, procuremos a oração, o trabalho eafé porque outro dia glorioso está a nascer e em Jesus repousa a nossa resistência espiritual” (Emmanuel/ Chico Xavier, “Segue-me”).
Por Filipa Ribeiro Resistência espiritual Viver entre uma multidão de valores, normas e estilos de vida em competição, sem uma garantia firme e confiável de estarmos certos é não só perigoso como também cobra um preço psicológico elevado. foto ulisses.com.pt MARÇO.ABRIL.
