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Jornal de Espiritismo nº 76 · Abril 2016Página 57 min
Ciclo de vida familiar e adolescência O ciclo de vida de cada um acontece dentro do ciclo de vida familiar, que é o contexto primário do desenvolvimento humano e social. Como célula social, a família é um sistema, no qual somos acolhidos na nossa individualida- de espiritual, para o desenvolvimento pessoal e interpessoal. “É possível reconhecer diferentes padrões na organização das famílias ao longo do tempo, assim como diversas formas de relacionamen- to entre seus membros.
Apesar destas diver- sidades, podemos também observar muitas características semelhantes ao longo do ciclo de vida das famílias. Estas características se- melhantes costumam ser chamadas de Fases do Ciclo de Vida das Famílias”. Cesar, C. Estas fases do ciclo vital não são consensuais, porém, de uma forma geral, os autores que se dedicam a terapia familiar definem etapas co- muns à maior parte das famílias, e característi- cas que definem estas etapas.
Estas fases do ciclo vital também geram cri- ses, chamadas zonas de transição, que são esperadas na passagem de uma para outra fase. A saber, poderíamos referir: A 1.ª fase do casalquando iniciam uma vi- vência a dois e trazem consigo, cada um, para além da sua individualidade, características pessoais, gostos que os definem, maneira de estar no mundo, a sua herança familiar, psi- cologicamente falando, através das tradições, marcas conscientes ou não, da educação de cada um.
Nessa primeira fase, ocorre uma ne- gociação do casal com essa herança familiar, promovendo uma diferenciação das suas fa- mílias de origem, tentando assim formar uma identidade do casal. Nesta fase, podem surgir conflitos, quando um dos pares prima pelo au- toritarismo, considerando que a sua família ou os seus valores são melhores ou mais dignos, afastando-se da lei de igualdade ensinada pelo espiritismo, mediante a qual todos nós, independentemente da cultura ou nível social, somos iguais aos olhos de Deus.
A 2.ª fasecaracteriza-se quando o casal de- seja que se introduzam novos elementos na família, e que necessariamente alteraram a dinâmica do mesmo. Passam a ser 3 em vez de 2 numa relação familiar, com todas as inte- rações que a maior ou menor afinidade reen- carnatória irá introduzir na triangulação desta dinâmica relacional. A 3.ª fasequando esta criança vai para a esco- la até à adolescência, que implica uma adapta- ção, num exercício de desapego, bidirecional, dos pais para os filhos.
Para alguns inicia aos 4 meses, para outros aos 3, 4 ou somente aos 5 ou 6 anos. Alguns estudos demonstram que o modo como as crianças se relacionam pre- cocemente com esta instituição “Escola” tem relação com o modo como irão relacionar-se com outras instituições ao longo da sua vida, trabalho, figuras de autoridade e outras. A 4.ª fase – vamos debruçar-nos com mais detalhe nesta parte, que é a dos filhos na adolescência.
Uma fase centrífuga, em que a família se vira para o exterior. De notar que as três primeiras foram centrípetas, voltadas para dentro, das necessidades familiares. A 5.ª fase – saída de casa dos filhos, ou “ninho vazio”, que requer uma readaptação do casal a novas funções. Última fase – casal só, quando há uma neces- sidade de redefinição da relação. A reforma, o processo de viver a velhice e preparação para a morte (desencarne).
Aqui há uma necessi- dade de se adaptarem às novas funções e ocuparem o seu tempo, habitualmente com as outras gerações da família. Porque é tão importante para as famílias a quarta fase, a dos filhos na adolescência? Seria porque é difícil lidar com adolescentes? Estão em transição para a idade adulta? Estão ainda em formação? Cada fase marca a sua passagem através de zonas de transição e conflito, que nem sempre são pacíficas e requerem reajustes familiares.
Nesta fase, há várias tarefas ligadas ao desen- volvimento a cumprir: - Tarefas ligadas à puberdade – acentuação das mudanças operadas no corpo, aceitação/ integração de um papel sexual masculino ou feminino. - Tarefas ligadas ao desenvolvimento pessoal, como aquisição da autonomia, redefinição de sistema de valores, antes plenamente identifi- cados aos dos pais. - Tarefas ligadas aos relacionamentos, quer com os pais quer com os pares.
- Tarefas ligadas à formação da identidade se- xual e social e tarefas sócio- institucionais – re- lação entre si e as instituições, como a escola. Evidencia-se que quanto melhor se faz a vincu- lação com as figuras parentais mais o adoles- cente se torna capaz de realizar o seu processo de separação e individualização e realização que lhes cabe realizar nesta fase. (Bolwby, 1983. Fleming 2015). Na adolescência, segundo Coimbra de Matos (2002), o objeto de amor altera-se, passa dos pais para o seu grupo de pares.
O adolescen- te vira-se para o exterior e para a necessidade de formar grupos e ter um sentimento de per- tença. E é importante as famílias entenderem esse processo, sem sentirem que estão a ser preteridas, traídas ou esquecidas pelos seus filhos. Enquanto na infância os grupos habitualmente eram do mesmo sexo, no início da adolescên- cia estes grupos já começam a ser mistos e no final da adolescência (18/19 anos) já passam a ser díades, quando começam os namoros.
Os grupos dão-lhes suporte emocional, ajuda na resolução de conflitos, auxílio na identifica- ção de pares (partilha de problemas, facilita- ção na resolução de conflitos), bem-estar psi- cológico e emocional. O grupo de pares é indicado como um afeto mais protetor do que a coesão familiar e a fle- xibilidade familiar para a ideação suicida em jovens estudados em escolas portuguesas. (Pereira-Gouveia, M. 2015). Nesta fase, também muda o estilo de comu- nicação do jovem e reorientam-se os seus in- teresses.
O adolescente actualmente, e graças à internet, está constantemente conectado e se isso é facilitador da comunicação, também pode ser fator de risco e de exposição. O ado- lescente através da internet procura respostas, experimenta riscos, cria um novo conceito de regulação de distância, controla os aconteci- mentos, pode adquirir uma identidade provi- sória. O adolescente tem outra relação com o tempo, que é mais imediata.
E isso requer todo um esforço de adaptação das famílias à sua linguagem, às suas necessi- dades, à gestão das regras familiares, ao con- trolo do risco. Com estas dificuldades o adolescente pode- rá encontrar três estilos principais de famí- lias (Baumrind, 1991; Elder 1968; Strinberg 2005): 1.Famílias Autocráticas – aquelas em que os pais têm uma postura rígida, controladora; não permitem que os filhos tenham qualquer liber- dade sobre as suas escolhas; menosprezam a opinião dos filhos.
O ambiente emocional é frio e distante. As manifestações afetivas são pou- cas ou inexistentes. Não há diálogo. Como consequência – os adolescentes são submissos, dependentes, pouco capazes de fazer escolhas. Pode-se dar o facto de não quererem fazer o que os pais querem por opo- sição. 2.Famílias Democráticas – aquelas em que os pais ensinam e explicam. Escutam e tentam compreender e esforçam-se para oferecer orientações através da razão.
Permitem de- senvolver comportamentos responsáveis. Promove a individualidade e comportamentos pró-sociais. Como consequência, os adoles- centes são mais autoconfiantes, mais autóno- mos. 3. Famílias Permissivas – aquelas em que os pais fazem poucas exigências aos filhos, rara- mente utilizam a força ou o poder para atingir os seus objetivos, mas cedem à manipulação. Como consequência – os adolescentes são mais imaturos, indisciplinados, não reconhe- cem as regras, têm dificuldades de adaptação social e de orientação para objetivos.
Segundo a ética espírita, a família enquanto, núcleo social e base primordial da educação do espírito deve favorecer o espírito, o meio ide- al para o seu desenvolvimento espiritual. Nela o jovem deverá encontrar como modelo ideal uma família que lhe permita a sua expressão com base no respeito, nas regras, na discipli- na, mas também a possibilidade de constru- ção e reconstrução de laços afetivos do pas- sado e renovados através das ligações atuais.
E é também na adolescência que o verdadei- ro caráter do espírito reaparece, com todas as suas tendências. “… permanece bom, se era fundamentalmente bom, mas sempre colorido com os matizes que estavam escondidos pela primeira infância”. LE. Cap. VII. “A Infância tem ainda outra utilidade: os espíri- tos só entram na vida corporal para se aperfei- çoar, para se melhorar; a fragilidade da pouca idade os torna flexíveis, acessíveis aos conse- lhos da experiência dos que devem fazê-los progredir.
É então que se pode reformar o seu carácter e reprimir as suas más tendências. Esse é o dever que Deus confiou aos pais, mis- são sagrada pelo que terão que responder”. ”. LE. Cap. VII. Como dizia Hermínio de Miranda, cabe-nos a compreensão de que “nossos filhos são espíri- tos”, para que como pais possamos caminhar juntos, ajudando-os no caminho de evolução que nos foi permitido partilhar, juntando os ingredientes do amor, da tolerância, da abne- gação, da paciência e da doação, para que a colheita seja mais feliz para todos no porvir, pois, adolescentes hoje, adultos amanhã, mas, espíritos sempre!
Texto: Gláucia Lima, Psiquiatra, Terapeuta com Formação em Terapia Familiar e Abor- dagem Sistémica, Psicodrama; Terapeuta Transpessoal. Porque é tão importante para as famílias a fase dos filhos adolescentes? Será porque é difícil lidar com adolescentes? Estão em transição para a idade adulta? Estão ainda em formação? MAIO.JUNHO.2016 foto ulisses.com.
