78 — índice de conteúdos

Crónica

Jornal de Espiritismo nº 78 · Setembro 2016Página 87 min

Partilhar
Idioma

Princípios da doutrina espírita na filosofia de Plotino (205-270) Os seus ideais chegam-nos por intermédio de um seu discípulo chamado Porfírio, o qual organizou a obra do seu mestre, intitulada “Enéadas”, publicada cerca de 30 anos depois da morte de Plotino. Trata-se de um valoroso tratado espiritual, composto por seis volumes, cujo conhecimento não é muito difundido na língua portuguesa. A obra “Enéadas” é uma referência do pensamento e da filosofia de Plotino, composta por seis séries de nove tratados cada uma, num total de 54.

Considerado o filósofo do fim, podemos situar a sua filosofia como uma síntese que integra o pensamento dos pré-socráticos, neopitagóricos, platonistas, aristotélicos, estoicos e epicuristas. Para o pensamento de Plotino, o verdadeiro reino está «dentro», no domínio interior do filósofo, dentro da sua alma, que considerou a verdadeira pátria do Ser Humano, o Uno que é Deus. Plotino, apesar de ser considerado um filósofo pagão, foi sem dúvida um influenciador da doutrina cristã, particularmente notada no pensamento filosófico de S.

Agostinho (354-430) que é considerado «um dos maiores vulgarizadores do Espiritismo», o qual encontrou na obra “Enéadas” de Plotino, uma filosofia inspirada no pensamento de Platão, que certamente o libertou das influências maniqueístas que ainda lhe perturbavam o espírito. Meditando sobre a mensagem desta obra, S. Agostinho reencontrou a compreensão da alma humana, a sua condição imortal, e o conhecimento intelectual da alma, que aparece por uma luz que lhe vem da verdade primordial, que é Deus.

Plotino nasceu provavelmente em Licópolis, a cidade atual de Assiut, entre o Cairo e Luxor, no Egito. Estudou na cidade de Alexandria e sabe-se que o seu conhecimento tem origem, quase exclusivamente, na cultura grega. Aos 28 anos contactou com a escola de Amónio Sacas que marcou o sentido do seu pensamento e filosofia, em cuja escola permaneceu 11 anos. Em 266, Plotino fundou, junto de Nápoles, uma Platonópolis, em honra de Platão, que consistia numa associação de natureza religiosa, que na Antiga Grécia dedicava um culto a um deus, à semelhança do que ocorreu com os pitagóricos ou de uma espécie de convento pagão descrito por S.

Agostinho em Cassicíaco. Ao ser atacado por uma lepra ou tuberculose, Plotino recolhe-se na região da Campânia, onde procura o repouso e um ambiente mais saudável, vindo a desencarnar por volta de 270, assistido pelo seu discípulo e médico, Eustóquio de Alexandria. Os testemunhos afirmam que foi um homem com muita discrição e disponibilidade ao serviço dos seus semelhantes, sendo responsável pela educação de crianças e orientador da consciência de adultos.

Plotino revela-se um espírito humilde e no contexto deste seu carácter, nunca confiou a alguém o dia do seu aniversário, para que não fosse prendado por algum banquete ou sacrifício, mas sempre insistia em proceder com tal dádiva, por ocasião dos aniversários de Sócrates e de Platão, numa manifestação de profunda admiração por estes filósofos, precursores e veiculadores dos princípios fundamentais do Espiritismo. Antes do seu desencarne, com cerca de 66 anos, confidenciou ao seu discípulo Eustóquio de Alexandria um pensamento sublime, enquadrado no caminho do aperfeiçoamento: «Esforço-me por reconduzir o divino que está em nós ao divino que está no universo».

Este último pensamento de Plotino, na hora da libertação da sua alma, está muito identificado com um princípio crucial da doutrina Espírita: «Não podendo fazer-se Deus, o homem quer ao menos ser uma parte de Deus». O pensamento neoplatónico de Plotino deixou-nos pontes filosóficas que permitem uma ligação muito identificada com os princípios da doutrina espírita, codificada por Allan Kardec, cerca de 1556 após a publicação da obra das “Enéadas”.

Plotino argumenta em defesa do princípio da reencarnação e das vidas múltiplas, e a alternância evolutiva entre o mundo espiritual e físico. Neste contexto, Plotino elucida-nos sobre as recordações que a alma tem das existências passadas, reforçando a plenitude da capacidade da memória quando a alma está no mundo inteligível, e o esquecimento a que esta fica sujeita quando está aprisionada no corpo físico. Plotino segue as ideias de Platão intrínsecas ao aperfeiçoamento da alma ou do espírito, falando-nos dos mundos de «lá e daqui», no plano dos ciclos das reencarnações, partindo das reminiscências da alma, porque esta tem sempre uma ligação ao Alto.

É notória a importância que Plotino confere ao estatuto que a alma tem quando desencarnada, porque nesta condição tem maior apetência para se unir ao intelecto. Plotino não se cansa de exaltar Platão, e na senda da perfeição, afirma que «as almas são semeadas na geração, que descem ao mundo terreno para a perfeição do universo, que são encerradas numa caverna como consequência de um castigo divino, que sua queda é por sua vez efeito da sua vontade, que estão no mal enquanto estão nos corpos.

» Aqui se identificam os conceitos inerentes à doutrina Espírita, relacionados com o percurso evolutivo para perfeição, o livre-arbítrio e o ensinamento da encarnação. Plotino apresenta a ideia de castigo divino que não é mais do que a expiação, a vontade que determina o percurso da alma, na linha do livre-arbítrio, e a necessidade das almas descerem ao mundo terreno para se aperfeiçoarem, no sentido de expiarem todas as vicissitudes da existência corporal.

O filósofo das “Enéadas” é perentório em afirmar a lei do merecimento, como condição evolutiva das almas. Por outro lado, argumenta Plotino a determinação da dor para o aperfeiçoamento moral da alma, ao referir que a doençaea pobreza são conjunturas úteis para as almas impregnadas de ignorância, estado este que determina a resistência na progressão do caminho. Acrescenta Plotino que a dor é uma perceção da dissolução, quando o corpo está ameaçado de perder a imagem da alma, de ser desorganizado ao perder a alma irracional, e contrapõe com o conceito de prazer que consiste numa outra perceção produzida na componente animal, quando a imagem da alma recupera o seu império sobre o corpo físico.

Neste caminho da dor, a alma não se encontra só, pois Plotino aprofunda a ideia de «daïmon», que significa do grego, génio ou inteligência, inerente aos seres incorpóreos, indistintamente da sua condição moral, e explica que a escolha do «daïmon» determina o princípio que preside a vida de cada Ser Humano, esse «daïmon» plotiniano intensamente identificado com o Espírito Protetor, Espírito de Luz ou Anjo da Guarda que perscruta a alma do seu protegido.

O filósofo das “Enéadas” é perentório em afirmar a lei do merecimento, como condição evolutiva das almas. Plotino é bastante preciso na explanação da dualidade existencial do Ser Humano, o qual concebe claramente a existência do corpo perecível e da alma imortal, a única entidade capaz de manter unidas as partes, e complementa com a visão de que a alma se confunde com o Ser Humano, porque aquela é o Ser Humano em si, pois, «enquanto a alma, que é a parte principal do Homem e constitui o Homem mesmo, deve estar para o corpo, como a forma para a matéria, como o artesão para o instrumento».

Plotino concebe a realidade da alma fora do corpo, sem as interferências das paixões e dos desejos, sentimentos próprios do mundo sensível, uma alma que se apercebe da sua imortalidade, quando goza do mundo puro da inteligência. Por outro lado, Plotino nega a ressurreição da carne e reafirma o princípio da sobrevivência espiritual da alma fora do corpo físico, em que o «verdadeiro despertar consiste em levantar-se sem o corpo, e não com ele; pois a mudança de um corpo é passar de um sono para outro sono, como de um leito a outro.

Levantar-se verdadeiramente é separar-se por completo dos corpos». Allan Kardec refere no «Prolegómenos» de «O Livro dos Espíritos» que muitos Espíritos concorreram para a execução desta obra, onde uns passaram pelo crivo da História e praticaram a virtude e a sabedoria, ficando deste modo conhecidos, outros, a História não guardou a sua lembrança, mas a sua elevação é testemunhada pela pureza de seus ensinamentos. Diríamos que o filósofo Plotino deixou a sua marca na História, mas a pureza e a virtude dos seus pensamentos nem sempre são evocados na senda da evolução moral e da sabedoria.

Naturalmente que o pensamento de Plotino é demonstrativo de uma ampla paridade com a doutrina espírita, que a Providência permitiu que fosse revelado numa primeira instância, mais de um milénio e meio, antes da plena Codificação de Allan Kardec. Texto: Carlos Paiva Neves SETEMBRO.OUTUBRO.2016 Mais de meio milénio após Platão nos ter iluminado com a sua mensagem, nos alvores da organização da cristandade romana, que teve como marco principal a realização do primeiro Concílio de Niceia, no ano 325, por iniciativa do imperador Constantino I, nasce no ano 205 um outro filósofo de seu nome Plotino, considerado o fundador do neoplatonismo.