78 — índice de conteúdos

Opinião

Jornal de Espiritismo nº 78 · Setembro 2016Página 94 min

Partilhar
Idioma

Espiritismo tem carácter pedagógico Escreveu duas dezenas de livros sobre educação, foi diretor de uma escola em Paris sendo respeitado e admirado no ambiente escolar e pedagógico da época. O seu trabalho de investigador dos fenómenos espíritas não pode ser separado da sua vigorosa vontade de aprender. E a forma como transmitiu e organizou o conhecimento recebido, pelos espíritos, tem, necessariamente, um carácter pedagógico: visou, e visa, a educação do espírito.

Destituir do Espiritismo este seu carácter interventivo e autoeducativo para o crescimento moral do homem, seria condenar a sua filosofia a mera teoria de conceitos. Ou seja, o Espiritismo não é uma ideologia, não é uma religião nem exprime quaisquer formas dogmáticas de pensamento e comportamento. O Espiritismo é um conjunto de leis universais, criadas por Deus que na sua conceção formal (escrita em livros) proporcionam ao Homem a possibilidade de refletir sobre a sua individualidade, sobre quais as suas verdadeiras necessidades, e qual o caminho que deve traçar para a evolução – tanto intelectual como moral, porque as duas caminham de mãos dadas.

E porque Rivail compreendeu isso, não escreveu um livro filosófico ou propôs a descoberta de uma nova ciência: ele partilhou, de forma simples e objetiva, as perguntas que intimamente todos os homens fazem durante a sua vida – aqueles que buscam a sua própria educação – e as respostas que obteve dos espíritos mais evoluídos, os seus mestres, para que o conhecimento iluminasse a consciência e motivasse o proA ideia de que as crianças e os jovens não desejam frequentar a educação espírita proposta pelo movimento espírita porque “há muitas opções lá fora”, não pode ser desculpa, para relativizar o objetivo essencial do espiritismo.

gresso do Homem. Após quase 160 anos desde a publicação de “O Livro dos Espíritos”, eis que nos debatemos com uma visão dogmática, nada foto arquivo Allan Kardec, pseudónimo de H. L. Denizard Rivail, conhecido como o codificador da doutrina espírita, foi sobretudo um educador: professor desde muito jovem, com apenas 18 anos escreveu o seu primeiro livro didáctico, “Curso Teórico e Prático de Aritmética”, editado em 1823 e reeditado sucessivamente durante quase 50 anos.

SETEMBRO.OUTUBRO.2016 pedagógica, de um movimento espírita focalizado na promoção de ações externas de cura e ajuda aos sofredores, demasiado próximas de rituais religiosos que o próprio espiritismo veio contestar, e quando promotor da educação, seja ela de crianças, jovens ou adultos, deixa-se arrastar pelos métodos e programas de uma pedagogia arcaica, ultrapassada que, em muitos casos, já deixou de se aplicar até nas escolas!

Se existe uma pedagogia – a espírita – porque se teima em transmitir o espiritismo recorrendo a pedagogias de psicólogos (Vygostsky), de biólogos (Piaget), de pedagogos ateus e que em nada se assemelham à visão inovadora da criança, que o espiritismo nos trouxe? Se cada espírito tem uma individualidade, resultado de um percurso, de um somatório de vidas e experiências passadas, que o diferencia de qualquer outro, porque existem programas de educação espírita, dirigidos a todos da mesma idade, com os conteúdos exatamente iguais para crianças e jovens do Sul, do Centro, do Norte de Portugal e até de diferentes países?

No seu primeiro livro didático, já citado, muitos anos antes de codificar o espiritismo, Rivail nomeia como um dos objetivos do seu curso “evitar toda a atitude mecânica, levando o aluno a conhecer o fim e a razão de tudo o que faz”. Pois perguntamos: como podem as crianças e jovens conhecer as respostas às suas dúvidas, se lhe impõem limites programáticos sobre “o que”, “quando” e “como” vão estudar? Se Allan Kardec, no livro “O Céueo Inferno” considerou importante refletir sobre as diversas correntes filosóficas e religiosas da época, comparando-as com os fundamentos do espiritismo, porque atualmente não se permite o debate inter-religioso nos centros espíritas, especialmente nos momentos chamados de “educação espírita”?

A ideia de que as crianças e os jovens não desejam frequentar a educação espírita proposta pelo movimento espírita porque “há muitas opções lá fora”, não pode ser desculpa, para relativizar o objetivo essencial do espiritismo. Essas mesmas crianças e jovens também preferem ficar em casa a jogar no computador, ao invés de irem à escola. E isto dá-se porque tanto a Escola como os centros espíritas ignoram as propostas de pedagogos de vanguarda como o foi J.

H. Pestalozzi, na Suíça, e de educadores exemplares espíritas, como foi Eurípedes Barsanulfo, no Brasil. A proposta de uma pedagogia espírita chegou, inclusive, ao ensino superior, através da tese de doutoramento da professora Dora Incontri com o tema “Pedagogia Espírita, um Projecto brasileiro e suas Raízes”, tendo dado origem à fundação da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e à Universidade Livre Pampédia que administra cursos de pós-graduação em Pedagogia Espírita.

O Espiritismo trouxe os fundamentos para uma Filosofia Espírita da Educação (ver proposta do professor Ney Lobo), que por sua vez traça os alicerces de uma Pedagogia Espírita que, implementada nos centros espíritas, proporciona o crescimento de homens livres pensadores, como o disse Allan Kardec (“Revista Espírita” de 1867, pág. 64 pdf online) com “independência moral”, que “pensa por si mesmo e não pelos outros”, tornando-o num “ser ativo, inteligente, em lugar de uma máquina de crer”.

O Espiritismo tem um carácter pedagógico, promove uma só pedagogia, a espírita!