Opinião (pág. 14)
Jornal de Espiritismo nº 78 · Setembro 2016Página 145 min
O burburinho que rodeou a obra artística foi soçobrando pela urgência de publicações mais recentes, no entanto, ela requereria menos imediatismo e mais ponderação. Elaborada numa estrutura metálica que se assemelha às grades de uma prisão, um homem e uma mulher, deprimidos e de costas voltadas, aprisionam em seu interior duas crianças que, face a face e de braços estendidos, procuram tocar-se. Os adultos representam talvez as múltiplas personagens que vamos assumindo, ainda demasiado condicionados na forma como reagimos aos momentos de tensão e divergência.
As crianças simbolizam a essência mais pura do que somos, sempre disponíveis para o encantamento e para a alegria, sempre prontas para cerzir as costuras dos desencontros rasgados pelas afiadas lâminas do orgulho e do egoísmo. Infelizmente, são excessivas as vezes em que o que mostramos por fora oprime o que somos por dentro. O que possuímos de mais autêntico fica assim refém de interesses pequeninos, às vezes tão comezinhos que não são sequer merecedores de um esgar da nossa atenção quanto mais de perdurarem durante tanto tempo em nosso íntimo, atiçando labaredas de hostilidade e venenos mentais, transformados em flechas de alta precisão com um alvo definido.
Todos nos encontramos ligados por laços invisíveis de uma natureza que a ciência ainda procura desvendar. Pensamentos, sentimentos e emoções não ficam encafuados no interior do corpo como um líquido numa vasilha, eles modulam a psicosfera íntima da mesma forma que um decorador define o ambiente que o rodeia de acordo com a qualidade daquilo que sente. Mais ainda, os pensamentos podem também produzir efeitos nos outros.
Num estudo publicado em Janeiro de 2006 na revista científica “The Journal of Alternative and Complementary Medicine”, a Dr.ª Jeanne Achterberg colocou diversos indivíduos ligados a um aparelho de ressonância magnética, isolados de qualquer forma de contacto com aqueles que lhes enviariam pensamentos dirigidos. Em intervalos aleatórios de 2 minutos, não conhecidos dos receptores, deixavam de ser emitidos pensamentos de modo a servir de controlo.
Durante a fase em que os indivíduos eram alvo dos pensamentos, foram significativamente ativadas algumas zonas cerebrais como o córtex congulado anterior, o precuneus eaárea frontal superior. Os resultados mais concretos do estudo concluem que o envio de sentimentos e pensamentos à distância está correlacionado com alterações das funções cerebrais dos indivíduos destinatários dessas intenções. Compreendendo como são poderosos os nossos pensamentospodem até afetar as funções cerebrais daqueles a quem são dirigidosserá que nos poderemos dar ao luxo de alimentar um só mau pensamento?
Os indivíduos deste estudo sabiam-se destinatários de pensamentos dirigidos e estariam receptivos a eles. Para nos deixarmos aprisionar pela perturbação e pelo desgaste emocional que as relações interpessoais tensas instigam, também é preciso estar receptivo a isso. As quezílias, as mágoas e as animosidades criadas na relação com os outros começam por desestabilizar quem os alimenta, ajudando a formar uma onda mental de perturbação que tem o epicentro em seu íntimo.
O desequilíbrio não se dá apenas ao nível espiritual, já que o corpo reage como se se defendesse de uma ameaça e prepara-se para o conflito, fazendo disparar a ansiedade, a desconfiança e os sentimentos de hostilidade, criando uma simbiose devastadora de danos físicos, emocionais e até espirituais. Mas se o outro lado devolver a mesma qualidade de sentimentos, os danos podem ainda ser mais extensos. É como jogar ao jogo da corda.
Se alguém puxar com força mas do outro lado não houver resposta, o único que se desestabiliza é quem puxa a corda e o mais provável é ir parar ao meio do Focos de tensão chão. Mas se do outro lado alguém se agarrar à corda e também puxar com força, irá ser criado um foco de tensão. Quanto maior for a pressão exercida sobre um dos lados da corda mais forte tenderá a ser a resposta do outro lado, dando origem a uma onda crescente de perturbação e desequilíbrio potencial que, por vezes, se prolonga indefinidamente até alguém se estatelar, às vezes com um estrondo previsível.
Compreendendo como são poderosos os nossos pensamentospodem até afetar as funções cerebrais daqueles a quem são dirigidosserá que nos poderemos dar ao luxo de alimentar um só mau pensamento? Para quem conhece o Espiritismo, a obra de Alexander Milov, as conclusões da experiência da Dr.ª Jeanne Achterberg e a metáfora do Jogo da Corda não são uma novidade. No entanto, é imprescindível reconhecer que as práticas espirituais só adquirem sentido se forem materializadas na vida quotidiana, se elas tiverem força necessária para renovarem o homem velho e criarem uma nova forma de viver.
O verdadeiro Espírita não é o que mais se destaca, nem o que deslumbra as plateias, ou aquele que sabe muito de Espiritismo. Por definição de Allan Kardec, “o verdadeiro espírita é aquele que se esforça para dominar as suas más tendências”. Desse modo, não faz qualquer sentido beber do que de extraordinário o Espiritismo tem para dar e isso não criar uma nova ética na forma como sentimos e nos relacionamos connosco, com o mundo e com as pessoas à nossa volta, nem for suficiente para transformar a forma como respondemos às dificuldades, aos desafios e aos momentos de tensão e conflito em que a vida nos faz tropeçar constantemente.
De nada serve ouvir, ver, falar, ler Espiritismo e andar de dedo em riste queixando-se das limitações, do passado e que o outro é isto, o outro é aquilo, alimentando a ideia de que o chefe, a sogra ou o vizinho são os empecilhos que impedem o seu bem-estar. Todos os preciosos princípios do espiritismo serão inócuos se não ajudarem a libertar as crianças de Milov de dentro de cada um, proporcionando-lhes a força de que precisam para vergar o orgulho e o egoísmo que ainda prevalecem nestes tempos de renovação.
Por Carlos Miguel foto arquivo Em 2015, as redes sociais aplaudiram com entusiasmo o trabalho do escultor ucraniano Alexander Milov, exibido no festival de contra-cultura “Burning Man”, que se realiza todos os anos no deserto de Black Rock nos EUA. SETEMBRO.OUTUBRO.
