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Opinião Setembro.outubro.2016

Jornal de Espiritismo nº 78 · Setembro 2016Página 137 min

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OPINIÃO SETEMBRO.OUTUBRO.2016 técnicas. Contudo, o sistema de crenças que governa o pensamento científico convencional é um acto de fé e de crença”. Na mesma linha, o escritor James Wood, no livro “A Mecânica da Ficção”, refere: «O que temos à nossa disposição são meras formas diferentes de fazer ficção, entre as quais o realismo é a mais confusa, e talvez a mais obtusa, por ser a que tem menos consciência dos seus processos.

O realismo não se refere à realidade; o realismo não é realista. O realismo, disse Barthes, é um sistema de códigos convencionais, uma gramática tão omnipresente que já nem damos conta que estrutura qualquer método burguês de contar histórias”. Assim, voltemos ao que é a Verdade. Aquilo que é real, que existe ou é, tem de ser aquilo que não pode ser negado no passado, presente ou futuro. Existe a tendência para apontar o que é na forma negativa, não é limitado pelo tempo, é imutável.

O conhecimento da natureza da realidade é a libertação que todo o ser humano almeja. Isso significa que a causa para o nosso sofrimento é a ignorância da natureza da realidade. Não é algo teórico, é algo para ser directamente reconhecido através de um meio de conhecimento. Precisamos, por isso, de um método de ensinamento que aponta para algo que é diferente daquilo que percebemos através dos cinco sentidos ou do conhecimento baseado na informação colhida por esses sentidos (seja por inferência ou outra).

Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no capítulo 5 – Bem-aventurados os aflitos -, lê-se: “Neste momento, quando Deus vos envia seus Espíritos para vos instruir sobre a felicidade que vos reserva, esperai pacientemente o anjo da libertação que vos deve ajudar a romper os laços que mantêm vosso Espírito cativo”.Quando se fala em cativeiro ou libertação, o que é considerado aprisionamento é aquilo que é continuamente sujeito a nascimento e morte, continuamente sujeito a mudança.

Isso significa que qualquer experiência que tenhamos, seja de prazer ou sofrimento, é sempre limitada no tempo. Não existe um porto seguro na experiência, por muito que o desejemos. E se achamos tê-lo encontrado, ele pode ser-nos tirado a qualquer momento. Em qualquer experiência completa e realizadora que tenhamos, imediatamente nasce o medo da perda, porque sabemos que ela é possível. Nenhuma dessas experiências é o real, aquilo que não vem, nem vai.

A libertação é, pois, o reconhecimento daquilo que não pode ser negado em nenhum dos períodos de tempo com referência ao que somos, o si mesmo. Este si mesmo não está disponível para ser reconhecido pelos nossos órgãos dos sentidos nem pelas tecnologias mais avançadas que a Ciência venha a ter. Os sentidos apenas trazem o que é limitado pelo tempo e espaço. Na dimensão do tempo e espaço, tudo o que podemos perceber são objectos.

Então o que sobra? É aquilo que é, que existe, mas não é objectificável enquanto objecto. O que será? Há dias, uma jovem mãe desesperada com um marido que não muda como ela quer que ele mude, perguntava-me: “se tentar mudá-lo não vai resultar, se falar também está visto que não adianta nada, então, como descubro essa felicidade em mim e deixo de ser tão exigente comigo e com as minhas filhas?” Na altura, sugeri-lhe uma resposta mais resumida, mas para perceber essa realidade do que somos faz-se necessário um raciocínio mais alongado.

Neste momento e em qualquer momento, nós podemos dividir a nossa experiência em duas categorias, sujeito e objecto. Um objecto é qualquer coisa que existe no tempo e no espaço, porque posso descrevê-lo e distingui-lo de outra coisa. Na nossa experiência eu sou o sujeito e tudo o mais que percebo é objecto. Nada do que percebo é a Verdade, porque tudo o que percebo é sujeito a objectificação, sujeito a mudança. Se pode ser descrito e é mutável é o oposto de Verdade.

Eu própria caio nessa categoria de objecto para os outros. Não só para os outros sou objecto, mas também para mim o meu corpo é objectificável, assim como tudo o mais no universo. Para mim, eu sou consciente do meu corpo através dos sentidos, assim como os outros o são. De facto, se removermos os cinco sentidos nem sequer somos conscientes do corpo. Se formos cegos, não vemos, se formos surdos não ouvimos. O mundo é objecto do sujeito que sou, mas o mundo inclui o meu corpo.

Os meus sentidos também são objectificáveis. Os pensamentos na nossa mente, por causa dos quais somos conscientes dos sentidos, também não são a Verdade. Os pensamentos vêmevão continuamente e são objectificáveis. Conhecemos os nossos pensamentos, os nossos sentimentos, as nossas “luas” e, portanto, eles não são a Verdade, pois mudam constantemente. A noção de eu, “eu sou isto, sou aquilo”, também não é a Verdade. O pensamento de eu também vem e vai.

Nós não andamos sempre com um pensamento que nos rotula. Assim, se pensarmos que tudo o que está aqui é sujeito/objecto, quando tentamos olhar para o que é este sujeito, como o vamos fazer? A pergunta dessa jovem mãe incluía saber se todo este mundo é sujeito/objecto e eu quero distinguir realmente entre um e outro, para o fazer não posso manter este corpo como sujeito porque vejo que ele é objecto. Não posso fazer dos sentidos, em última Quando se fala em cativeiro ou libertação, o que é considerado aprisionamento é aquilo que é continuamente sujeito a nascimento e morte, continuamente sujeito a mudança.

Isso significa que qualquer experiência que tenhamos, seja de prazer ou sofrimento, é sempre limitada no tempo. Não existe um porto seguro na experiência, por muito que o desejemos. E se achamos tê-lo encontrado, ele pode ser-nos tirado a qualquer momento. instância, o sujeito, porque também eles são objectificados. Não posso fazer da minha mente o sujeito porque também é objectificada, tampouco posso ter o pensamento de eu como sujeito.

Todos eles vêmevão, é um facto. Então, última instância, o que permanece como sujeito para mim? Apenas aquilo que não pode ser objectificado. Se pode ser objectificado então há um sujeito a objectificá-lo. Se pode ser olhado, descrito, se é alguma coisa que muda e eu sou a testemunha dessa mudança, então, não sou eu. Pode ser a experiência que está a ter lugar, mas não sou eu, não é a minha essência. Isso que é objectificado vem e vai e eu permaneço.

Assim, enquanto pudermos objectificar qualquer coisa, estamos, nesse momento, a diferenciar-nos do que estamos a objectificar. Mas quando chegamos a quem somos nós, quem sou eu, chegamos ao fim da linha, já não existe mais objectificação possível. O fim da linha para nós será: eu, a existência, aquele que diz as palavras “eu sou”. Isso refere-se a ti como um ser existente. Não é dizer as palavras, mas as palavras expressam e referem-se a ti, a mim, como um ser existente.

Eu sou um ser existente, consciente. Eu sou aquele que é, em última instância, o sujeito que ilumina tudo o mais porque encerro em mim a condição de criação de um criador comum a tudo o que existe. A consciência é consciente de si, mas não como objecto. É consciente de si mesma porque é consciência. A consciência, sendo o que é, é o que dizemos ser evidente por si mesma. E como é que isso aparece em todas as nossas experiências?

Todas as experiências que temos são preenchidas com a nossa, a minha própria, auto-evidente presença, por causa da qual tudo é iluminado, mas que ela própria não necessita de outra consciência para a iluminar. Não precisamos de trazer uma outra consciência para iluminar a consciência, a consciência é consciência. Todas as experiências que temos, como a experiência de ler este jornal, existem e somos conscientes dela.

Saímos para passear e tudo de que sou consciente, sou consciente disso, está na minha consciência (se quisermos usar a expressão) e é, existe. Se desligo dos sentidos e só observo os pensamentos na mente, o pensamento é, existe na minha consciência, da mesma forma os meus humores, as minhas “luas”. O humor está na minha consciência, o humor é (existe). Se olho apenas para o pensamento de eu, o ego, direi que o pensamento do eu está na minha consciência, ele está, é.

E se eu estiver a meditar, e voltar a mente para este ser consciente que a ilumina, o que diria? A consciência ilumina a mente que se torna um espelho focado na minha consciência. E se a minha mente fica totalmente absorvida na consciência? Então o que diria? Não diria nada por causa desse estado absorto, mas o reconhecimento seria apenas, eu sou, eu sou um ser consciente. Não é necessário mais nada, além da consciência, para o iluminar.

Então, a nossa presença é o que preenche toda a experiência e ela mesma permanece livre de toda a experiência. Não há nenhuma experiência sem a consciência. Esta consciência, este si-mesma, é a única coisa que não vem e não vai. Não há nada mais igual. Percebemos, assim, como “Deus está em tudo, e tudo está em Deus” e a frase de Jesus “Quem me vê, vê o Pai. Como podes dizer: Mostra-nos o Pai? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim?

”. Ou mesmo, quando disse “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizeste”.