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Dois homens doentes estavam, lado a lado, no mesmo quarto de hospital

Jornal de Espiritismo nº 79 · Outubro 2016Página 192 min

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Um deles não podia levantar-se, mas o outro podia sentar-se na cama e, assim, conseguia olhar pela janela que estava ao lado da sua cama. - Para onde dá essa janela? – perguntou o homem deitado. - Dá para um grande jardim com um lago – disse o outro olhando lá para fora. Nesse lago havia patos e cisnes, e as crianças iam atirar-lhes pão enquanto outras largavam na água barquinhos de papel; e também havia jovens namorados que caminhavam de mãos dadas, em silêncio, entre as árvores e as flores, e animados jogos de bola nos relvados.

Acrescentava ainda que, lá ao fundo, por trás das árvores, via-se o contorno dos prédios da cidade. O homem deitado apreciava cada pormenor das descrições do outro. E, ao som das palavras dele, chegava a ouvir o som do vento entre as folhas, o canto dos pássaros e o riso alegre das crianças. E, de cada vez que perguntava o que estava a acontecer lá fora, o outro respondia sempre de modo diferente, porque a vida, embora se repita, cria constantemente novas histórias.

O homem deitado adormecia com aquelas imagens na cabeça e sonhava durante toda a noite com a vida. E, logo de Infância A janela por MANUELA SIMÕES manhã, tudo recomeçava. O companheiro erguia-se um pouco e descrevia tudo o que se passava lá fora, no grande e belo jardim. Uns tempos mais tarde, o companheiro melhorou bastante e saiu do hospital para aproveitar a vida que o aguardava lá fora. Prometeu ao amigo que voltaria para visitá-lo até que também ele melhorasse e pudesse ir para casa, viver a vida.

Nesse mesmo dia, no hospital, o homem deitado pediu para ser mudado para a cama ao pé da janela e fizeram-lhe a vontade. Aconchegaram-no sob as cobertas e fizeram com que se sentisse confortável. Nesse mesmo instante, outro doente foi colocado na cama em que ele tinha estado e que, tal como ele, só podia estar deitado e olhar para o tecto da sala. Depois de conversar um pouco com o seu novo vizinho, esforçou-se, apoiou-se sobre um cotovelo e olhou para fora da janela.

Viu apenas um muro e ficou espantado. Não havia jardim, nem lago, nem crianças a brincarem ou namorados a passearem sob as árvores. Nada existia do que estava na sua mente e coração. No entanto, porque o sentia no seu coração, todo aquele jardim com vida, de algum modo existia verdadeiramente para ele. - O que está a ver? – perguntou o doente acabado de chegar. O homem não respondeu logo. Ainda estava pensativo. - A vista é boa?

– insistiu o outro doente. - Se é – respondeu ele, por fim. – É muito boa. Esta janela dá para um jardim. Há um lago com patos e cisnes, onde as crianças lançam barquinhos de papel... (Álvaro Magalhães, 100 Histórias de todo o mundo, 3ª edição, Edições ASA, 2011) NOVEMBRO.DEZEMBRO.