Opinião (pág. 9)
Jornal de Espiritismo nº 79 · Outubro 2016Página 910 min
confunde muito por aí é com evangelização. A evangelização geralmente praticada nos centros espíritas, pelo menos no Brasil, tem um caráter de catequese (aliás, como o próprio nome o diz!) No conteúdo é apenas doutrinação, não faz pensar, não enfoca os aspetos filosóficos e científicos do Espiritismo. E, na forma, segue os parâmetros da educação tradicional. Não faz projetos, não promove debates, não incentiva a autonomia de pesquisa.
Por isso, temos um dado de que nos centros espíritas brasileiros, há cada vez menos jovens. Depois de terem passado por esse processo de catequese (muitas vezes desinteressante e obrigatório), eles veem-se diante do pensamento materialista difundido nas universidades e não têm instrumental para enfrentá-lo, já que foram doutrinados. Não construíram convicções, pensadas, pesquisadas, argumentadas. Assim, temos um envelhecimento da população dos centros espíritas.
O que é a pedagogia espírita? Dora Incontri – Eu costumo definir sempre a Pedagogia Espírita de duas maneiras ou por dois lados, que se complementam. Primeiro, é um entendimento pedagógico do próprio espiritismo. Entendê-lo como uma proposta educativa, acima de tudo – emancipatória, baseada na autonomia e da autoconstrução do sujeito. Uma proposta que desenvolve a razão, dispensa tutelas e promove a moralidade livre, intrínseca do ser.
Segundo, é um entendimento espírita da pedagogia. É iluminar os fundamentos da Educação, os seus por quês, para quês e os seus comos, com a visão de mundo espírita. O que quer dizer uma visão reencarnacionista e evolucionista do ser humano, uma visão transformadora da sociedade, uma compreensão da vida como um processo permanente de educação. Quando de fato olhamos o mundo de forma ampliada e transcendente, mas de uma transcendência racional, como é a proposta de Kardec, passamos a ter outra ideia do que seja educar.
O que é a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita? Dora Incontri – A Associação Brasileira de Pedagogia Espírita foi criada há 12 anos e tem por missão trabalhar a ideia da Pedagogia Espírita, pesquisando-a, praticando - -a, divulgando-a. É uma entidade sem fins lucrativos e que tem realizado um trabalho único no movimento espírita, desde o seu início. Congressos, cursos, seminários, assessorias, publicações, a manutenção de uma pós-graduação em Pedagogia Espírita e, mais recentemente, tivemos a criação da Universidade Livre Pampédia, de que é mantenedora.
Fale-nos da editora Comenius… Dora Incontri – A Editora Comenius foi a primeira a nascer, nos idos de 1998. A nossa proposta, que estamos levando adiante com muito sacrifício, era fazer uma editora cultural, com publicações nas áreas de filosofia, educação, espiritualidade, além de uma vertente infanto-juvenil. São livros com consistência, apresentados de maneira esteticamente convidativa (porque a arte também educa).
A profundidade e a consistência não significam elitismo e textos inacessíveis. Mas incomoda-me um tipo de literatura de autoajuda “light”, que está hoje por toda a parte, e que na verdade ajuda sim os autores e editores a ganharem muito dinheiro. Acho que os livros têm de ter um comprometimento com a qualidade, na forma e no conteúdo. Considera importante a divulgação da pedagogia espírita na sociedade em geral, e nas escolas em particular?
Dora Incontri – Considero que a Pedagogia Espírita pode e deve exercer a sua influência na sociedade, sem impor a ninguém as suas ideias e a sua visão de mundo. Respeitamos sobretudo a liberdade de consciência. O que procuramos fazer tanto na ABPE quanto na Comenius e agora ainda mais na Universidade Livre Pampédia, é criar espaços de diálogo entre a Pedagogia Espírita e outras pedagogias, entre a visão de mundo e o caminho espiritual propostos pelo Espiritismo e os caminhos de outras doutrinas, religiões ou filosofias espiritualistas ou não.
Penso que só podemos deixar a nossa marca na cultura contemporânea, inserindo-nos nela e criando pontes, estabelecendo redes amplas e ao mesmo tempo, aprendendo o que outros têm a nos dar e ensinando o que podemos oferecer. Os nossos congressos são exemplos disso. Os nossos livros são exemplo disso. Convidamos palestrantes e articulistas de diversos países, de diversas tradições, que estejam porém trabalhando com seriedade por uma educação diferente e por uma sociedade melhor.
Cada um vem dar a sua contribuição para esse diálogo e a Pedagogia Espírita faz-se presente, em pé de igualdade, com dignidade própria e respeito pelos outros, influenciando os outros e se deixando influenciar. Assim se progride de facto. O que pensa sobre a formação dos educadores e professores? Dora Incontri – Em geral, muito ruim, muito restrita, muito tradicionalista. Como queremos fazer uma outra educação, baseada em interdisciplinaridade, em projetos, com ideias de autonomia e participação do aluno, se o professor é formado dentro de um sistema tradicional, em que ele mesmo não aprende a pensar por si, a agir, a construir seu conhecimento?
Por isso mesmo, criamos a pós em Pedagogia Espírita (que funciona há 11 anos) e que não é apenas destinada a educadores, mas a pessoas de qualquer área de atuação. E mais recentemente a Universidade Livre Pampédia… E eis que surgiu a ideia de uma Universidade Livre. Pode contar-nos como nasceu a Universidade, quais os objetivos, que cursos administra? Dora Incontri – Justamente, ao constatarmos que é preciso mudar os adultos, para que eles mudem a educação, pensámos em oferecer um espaço de educação livre, plural, interdisciplinar, em que os alunos possam experimentar presencialmente e à distância, vivências de uma educação aberta.
Estamos formatando a Universidade Livre Pampédia e esse é um processo longo, Na infância e na adolescência, morei alguns anos na Alemanha e lá estudei em escolas um tanto diferenciadas, que me apontaram para outras formas de Educação. NOVEMBRO.DEZEMBRO.2016 ainda mais com os problemas económicos e políticos que o Brasil enfrenta hoje, dificultando imensamente as ações pedagógicas, culturais e sociais – sobretudo aquelas de caráter progressista.
Mas não temos e não pretendemos ter cursos convencionais, Faculdades… Temos pós-graduação, seminários livres, projetos experimentais, como esse que iniciamos em maio de 2016, da Terapia Pedagógica. Estamos inaugurando também uma plataforma de ensino à distância, com uma pluralidade de visões, que raramente se encontra nas universidades convencionais. Quais os projetos que têm em mente para um futuro próximo? Dora Incontri – O nosso projeto mais urgente é manter as portas abertas, portanto, sobreviver.
As condições económicas estão dificultando um tanto nossas ações. Mas estamos avançando mesmo assim. Esse projeto da Terapia Pedagógica, por exemplo, é algo bastante promissor. Trata - -se de um grupo-piloto, em que estamos a experimentar um encontro entre Terapia e Educação, invocando referências teóricas de correntes humanistas da Psicologia, como Frankl, Rogers e Fromm, em diálogo com os clássicos da Educação, sobretudo Comenius, Rousseau e Pestalozzi.
Além dos projetos práticos, há muitos livros que ainda queremos publicar, como por exemplo, pelo menos algumas obras de Pestalozzi em português, uma das poucas línguas ocidentais, para a qual não foi vertida nenhuma obra dele, exceto o texto da «Carta de Stans», que está no meu livro «Pestalozzi, EducaçãoeÉtica». Para quando uma vinda à Europa, a Portugal? Dora Incontri – Para quanto antes pudermos planear nós daqui e vós daí.
Vontade não falta. Saudades, há de sobra. Há 18 anos que não vou à Europa e isso para mim é uma vida. Texto: Regina Figueiredo Decorreu em Lisboa, Portugal, o 8.º Congresso Espírita Mundial no fim de semana de 7 a 9 de Outubro de 2016, organizado pela Federação Espírita Portuguesa sob a égide do Conselho Espírita Internacional. Cerca de 2 mil pessoas de quatro dezenas de países estiveram presentes, num evento que foi um hino à alegria.
Espíritas de todo o Mundo em Lisboa: em defesa da vida Dali de cima, onde o cérebro da transmissão on-line está a funcionar, vê-se o pavilhão imenso. Teria mesmo de ser, para acolher milhares de pessoas! Dispositivos electrónicos, câmaras de vídeo, tripés, tudo foi pensado e disponibilizado para que inúmeras outras pessoas pudessem ultrapassar o escolho das inscrições esgotadas desde meados de agosto. Esta conferência é a última da noite do segundo dia do congresso, sábado, 20h00: “Portugal deve ter a lei do inquilinato, como no Brasil.
A sua obrigação contratual é devolver o imóvel no mínimo nas mesmas condições em que se apropriou». O orador é André Trigueiro, jornalista, professor universitário, um dos grandes especialistas no Brasil em sustentabilidade ambiental, e defensor da vida na prevenção do suicídio. Faz nesta altura uma notável conferência sobre “Espiritismo e ecologia”. Continua: «Meus amigos, conhecem a lei do inquilinato planetário? Não?
É que está no nosso pacote de missões! Em que condições devolveste o planeta, que não te pertence, que fizeste pela casa planetária que te abrigou com tanto amor? Este planeta está pronto para a vida em plenitude. Nós estamos malbaratando a casa, sem sermos proprietários...”. No final de apenas meia hora de exposição, Trigueiro foi longamente aplaudido de pé, à semelhança de Divaldo Franco, após alertar os espíritas presentes para as suas responsabilidades pessoais e grupais, nos centros espíritas, para um debate mais profundo e urgente em torno da defesa do planeta Terra.
Tanto quanto sabemos, foi a primeira vez que esteve em Portugal. Este congresso foi especial, não só por decorrer neste paísentre as Américas e o resto do Mundomas pela maneira como decorreu, como foi organizado, pela temática central. Num planeta em dificuldades, nada mais oportuno do que o tema “Em defesa da Vida”. Foram muitos os argumentos em prol da vida, não apenas convicções, opiniões, apontamentos doutrinários, mas essencialmente apontamentos científicos, filosóficos e morais em defesa da vida, perfeitamente enquadrados na doutrina espírita.
Num espaço nobre da cidade de Lisboa, na sala Tejo do Meo-Arena, a organização mostrou que o Espiritismo é cultura. Num espaço dedicado, variada e riquíssima livraria espírita com preços acessíveis, dispunha de livros espíritas em várias línguas, incluindo o árabe. Painéis interactivos com e-posters ostentavam trabalhos variados, apresentados por congressistas, integrando o Espiritismo em todos os patamares da vida. Noutro canto, uma Árvore da Vida recebeu milhares de corações autocolantes, com frases da lavra de quem desejasse colocar ali um pensamento.
Mais adiante, espíritas do Paraná, Rio de Janeiro e Espírito Santo, tinham um espaço onde interagiam com o público, com modelos à escala de fetos com vários meses de vida, convidando os presentes a adoptar um desses modelos, e depois, a fazer uma introspecção sobre se ele gostaria de ter sido abortado e como foi bom a nossa mãe ter - -nos “adoptado” para a vida. Simples, profunda e eficaz pedagogia, como simples é o Espiritismo.
Este congresso mostrou outra face da cultura espírita, com momentos inenarráveis de música, canto, bailado, integrados na temática em pauta. Com participantes de alto nível artístico, não poderíamos de deixar de realçar o monumental encerramento com o barítono Maurício Virgens, brasileiro, a cantar o “Hino à Alegria”, saindo do palco e integrando-se junto do público, envolvendo todos os presentes no seu sorriso, alegre, autêntico, magnetizante.
A vida é um hino à alegria, mesmo que seja muito dura, parecia dizer, no meio das notas musicais que saíam da sua boca, enlevando todos os presentes a meditações mais aprofundadas em relação à responsabilidade de viver. Música, bailado, arte, livros e… conferências. Havia para todos os gostos e feitios, desde teses mais filosóficas, outras mais de fundo moral e outras de índole científica. José Raul Teixeira, doutorado em educação, abriu o congresso com uma singela prece, convidando todos os presentes a ligarem-se mentalmente aos planos espirituais superiores.
Divaldo Pereira Franco, parecendo violar as leis da natureza, foi, aos 89 anos de idade, um poço de alegria, de jovialidade, de entusiasmo, de serviço, abrindo e encerrando o congresso com duas belas palestras, altura em que o Espírito Bezerra de Menezes deixou pela mediunidade de fala (psicofonia), uma mensagem de incentivo ao Amor, já, agora, dia após dia. O 8.º Congresso Espírita Mundial foi diferente, pois sentia-se que a formalidade habitual, deu lugar ao convívio salutar, à alegria no ar, à simplicidade, parecendo uma família de mais de 2 mil pessoas.
A organização do 8.º CEM está de parabéns pelo enorme esforço e trabalho. A Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal (ADEP) efectuou a transmissão em directo de todo o evento, numa colaboração gratuita, como sempre, com a Federação Espírita Portuguesa, pelo que poderá assistir ao 8.º CEM, na íntegra, em www.facebook.com/adeportugal.org/videos ou em www.adep.pt/cem Um outro repórter da ADEP, inscrito no congresso, aproveitou os momentos possíveis numa sala de bastidores desocupada, para gravar duas entrevistas de vídeo a André Trigueiro, uma sobre espiritismo e ecologia, e outra sobre prevenção do suicídio, bem como a Ana Duarte, de Évora, a Reinaldo Barros, de Olhão, e a Manuela Vasconcelos, de Lisboa, na condição de escritores espíritas.
Estes trabalhos estão disponíveis para visualização, junto de outros, no canal de Youtube da ADEP na lista “À conversa com…”. O próximo congresso mundial, organizado pela Federação Espírita do México e pelo Conselho Espírita Internacional, será na cidade do México, em Outubro de 2019. Texto: José Lucas, jcmlucas@gmail.com fotos ulisses.com.
