opinião Espiritismo em marcha O tímido ressurgimento espírita de 1974
Jornal de Espiritismo nº 8 · 2005Página 55 min
O tímido ressurgimento espírita de 1974, após o 25 de Abril, cresceu e robusteceu-se francamente nos 30 anos decorridos desde então. Inseguro a princípio, sujeito a naturais mazelas de infância (como já Lenine comentava há quase cem anos, a respeito do seu materialismo histórico...), o espiritualismo espírita, animado por outra dialéctica, de natureza e destino históricos bem diferentes, medrou bem da inexperiência inicial e do quase deserto dos primeiros tempos após a ditadura política.
Acodem-nos à mente valorosos cabouqueiros de 1974 — como Isidoro Duarte Santos, Casimiro Duarte, Eduardo Matos, José Francisco Cabrita... — e os horizontes de então, limitados e incertos, em vivo contraste com a panorâmica espírita actual. Trinta anos volvidos, a luta prossegue em diversas frentes, imensas dificuldades havendo ainda por superar a níveis local, regional e nacional. Mas o crescimento não se detém e as grandes realizações sucedem-se.
Entre estas avulta a inauguração recente (11 e 15 de Setembro últimos) de sedes próprias, por duas instituições espíritas portuguesas: Associação Espírita de Leiria, freguesia de Barosa, Leiria, e Associação Espírita Maria de Nazaré, freguesia de Valongo do Vouga, Águeda. E talvez outras, embora não tenhamos de momento conhecimento disso. Duas autênticas proezas, pois bem se conhecem os obstáculos enfrentados em Portugal por qualquer iniciativa espírita.
Mas é bem certo que há males que vêm por bem, visto que a magnífica sede da Associação Espírita de Leiria, justo orgulho de todos os espíritas, resultou precisamente de objecções e impugnações condominiais, levantadas contra a localização da sua sede anterior. Consequência feliz, embora muito árdua, foia edificação de instalações projectadas expressamente para o fim em vistao de servirem de sede para as multímodas actividades espíritas duma associação tradicionalmente activíssima.
Um feito realmente grandioso para as possibilidades materiais do movimento espírita português em geral, feito que dignifica sobremaneira a equipa directiva da Associação Espírita de Leiria e os seus devotados trabalhadores.
são os que, além dos| numerosos frequentadores regulares desta instituição, de todo o país afluem vária: vezes por ano às suas férteis e concorridas iniciativas periódicas, que fazem de Leiria um pólo nacional de união espírita. O seu espaçoso salão de reuniões públicas caracteriza-se por uma volumetria generosa, de boa acústica, oferecendo mais de quatro centenas de lugares sentados; regista-se o pormenor da excelente ergonomia destes.
De menores proporções em dimensão física, mas com igual perseverança e esforço na recolha de meios materiais e gradual execução das obras, vemos também festivamente inaugurada, quatro dias depois da de Leiria, a sede da Associação Espírita Maria de Nazaré, em Águeda. A obra teve igualmente projecto específico para as actividades espíritas da instituição, que incluem notável sistema de caridade assistencial. Também aqui, dirigentes e trabalhadores não se pouparam a esforços para levarem a bom termo a obra tão acarinhada por todos eles, com espaço e dependências para cada departamento de acção.
Que feliz contraste com o acanhamento das instalações anteriores, só transcendido, durante anos de uso, pelo amor e boa vontade dos responsáveis. A sede recém-inaugurada faculta muito mais eficácia e comodidade quer aos abnegados seareiros quer aos beneficiários do seu devotamento. Situa-se numa região do país servida por mais instituições espíritas (uma delas, também em Águeda) e disponibiliza no seu salão principal 120 lugares comodamente sentados.
Mais uma obra admirável para justo orgulho de todos nós, ao dispor dos utentes locais e dos oriundos, nalguns casos, de distâncias consideráveis. Este registo das duas importantes inaugurações não se pretende uma reportagem, que teria de ser bem mais rica de informação, mas tão só a anotação de alguns motivos de consolo, reflexão e esperança, inspirados por ambas. Em qualquer dos dois casos, trata-se de instituições espíritas que suscitaram gestos de solidariedade e generosidade, dentro mas também fora das suas portas.
Associação Espírita de Leiria: in;uguração da nova sede
atendendo social ou espiritualmente pessoas de todos os estratos sociais e ajudando-as a valorizar o seu conceito e qualidade de vida .
Outra nota a assinalar, como testemunho vivo de fraternidade, foi a presença dos presidentes de ambas as associações, cada um na cerimónia inaugural da outra, quase uma centena de quilómetros distantes entre si.
Em ambas as cerimónias assinalámos a presença do presidente da Federação Espírita Portuguesa, que, como representante institucional das associações espíritas do país, assim contribuiu para o justificado brilho das duas inesquecíveis efemérides (é essa nota que se aponta com franco agrado e não o seu aspecto meramente protocolar, que seria descabido nesta crónica despretensiosa; vou mais longe, frisando muito mais a vertente espiritual do que a jurídica ou social, da institucionalidade daquela representação). De registar também a presença de convidados brasileiros de valor incontestável, cada um na sua área, conforme noticiado noutras peças jornalísticas deste periódico.
De notar, ainda, o facto de a Associação Espírita de Leiria vir constituindo, há já alguns anos, um pólo nacional de convívio e de valorização doutrinária, graças a iniciativas regulares com que enriquece indiscutivelmente o nosso movimento espírita não apenas no seu padrão intelectual, como também no útil intercâmbio e convívio fraterno proporcionado aos seus militantes de todo o território, que não têm muitas outras oportunidades de se encontrarem juntos durante largas horas.
Texto: João Xavier de Almeida. Foto: Vasco Marques
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