Opinião
Jornal de Espiritismo nº 81 · Abril 2017Página 164 min
Detenhamo-nos ainda na quinta petição do Pai Nosso, o perdão das dívidas, tema fulcral do discurso e do viver de Jesus, riquíssimo em tópicos de reflexão. Sabe-se hoje, inclusive no foro médico e psicológico, como e quanto a atitude de não perdoar nos danifica o equilíbrio emocional e a saúde orgânica, além de gerar externamente conflitos, discórdia, mau ambiente social. Fala-se muito em dificuldade de perdoar.
Entretanto o perdão autêntico, irmão gémeo da humildade, é fácil, natural _ou não será perdão. Muito mais do que gesto agradável aos amigos do ofensor e do ofendido, ou de bem-parecer na comunidade de ambos, ou de altivez mal dissimulada em mera pose de “perdoar” _ o perdão deve ser um sentimento, como discorre Paulo em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 10.º, item 15. Perdoar aos inimigos, afirma, é pedir perdão para si mesmo; perdoar aos amigos é dar prova de amizade.
Acrescenta: “Infeliz daquele que diz: eu jamais perdoarei, porque pronuncia a própria condenação. Quem sabe se, mergulhando em vós mesmos, não descobrireis que fostes o agressor… não fostes vós a dar o primeiro golpe?” Perdão tem de ser sentimento, sim, pois não passando de gesto externo, verbal, ou de “perdoo mas não esqueço”, fica longe do perdão real, eficaz, da pedagogia incomparável do Bom Pastor, Quando Pedro O interpelou a respeitoquantas vezes deveria perdoar o seu Irmão?
Sete vezes? - sabemos qual foi a resposta (Mateus 18:22): “Pedro, não digo sete vezes mas setenta vezes sete vezes”. Mais tarde, na última ceia, quando o Bom Pastor prevenia os discípulos da amarga Paixão que sofreria no dia seguinte, Pedro dispôs - -se calorosamente a ir com o Mestre para a prisão ou para a morte. Com serena bonomia, sem enfado nem tom recriminatório, o Infinito Amor adiantou logo ali o seu perdão compassivo à defeção que, bem sabia, dentro de horas aconteceria mesmo: “Pedro, não cantará o galo três vezes sem que tu me renegues” (Lucas 22: 33,34).
E no auge da adversidade, pregado no madeiro, tendo poder para neutralizar e confundir Pilatos, Herodes, a soldadesca, a turba desvairadanão soltou um queixume pela injustiça nem lamentos pela ingratidão. Longe de se sentir prejudicado, condoeu-se de tanta ignorância e só teve a grandeza de perdoarsem esforço, sem assomo algum de heroísmo, antes com a naturalidade da flor machucada desprendendo o seu odor, ou o de bálsamo do sândalo perfumando o machado que o golpeia.
O sentimento puríssimo de perdão embebia assim o psiquismo do divino Amigo, evolava-se d’Ele naturalmente: espontâneo, singelo, fácil. Os professores de psicologia médica Helen Schucman e William Thetford, fazem uma inspirada colocação no livro mencionado na crónica anterior, “Um Curso em Milagres”: perdão verdadeiro é não perdoar, por convicção plena de nada haver a perdoar. Efetivamente, a perfeita compreensão duma ofensa e dum ofensor induz ao sentimento de nada haver a perdoar.
Tal compreensão, na refinada visão espiritual de Mary Baker Eddy, provém da “destruição do pecado” no nosso íntimo. Sem pretensão mínima a corrigir a valorosa fundadora e líder da “Christian Science”, em vez de “destruição” (já que também na dimensão psíquica, tal como na física, nada se cria, nada se perde…) diríamos “transmutação” dos sentimentos pecaminosos (mágoa, rancor, deleite pelo revés alheio, etc.) em sentimentos fraternos de tolerância, concórdia, fraternidade.
Transmutação: como se processa tal alquimia? Lembra a crónica anterior que no Universo nada é estático, parado, definitivo, tudo é dinâmico e se transforma; que as mesmíssimas partículas fétidas e insalubres existentes no lodo dum paul, ao transitarem por singelo caule vegetal reestruturam-se em novas combinações e proporções moleculares, até esplenderem em graciosas folhas e flores, ricas em elementos nutrientes e terapêuticos.
Essa admirável alquimia material tem o seu equivalente na dimensão psíquica, no portentoso laboratório mental humano. Educação e adestramento deste, competem a todos nós para a desejável renovação íntima tão recomendada. Dispomos para isso de inestimável recurso, cada vez mais conhecido mas ainda pouco utilizado: a prática regular de meditação, fermento precioso da nossa alquimia psíquica. Aos sequiosos de saber, volto a lembrar o saudoso Hernâni Guimarães Andrade, matemático, investigador prolífico, autor, entre outros livros, de A TEORIA CORPUSCULAR DO ESPÍRITO, que subintitulou “Uma Extensão dos Conceitos Quânticos e Atómicos à Ideia do Espírito”.
Não temos ouvido que ódio é amor enlouquecido? Os entendidos (terapeutas) aplicam e ensinam técnicas mentais para transmutar emoções corrosivas (ódio, temor, ansiedade, mágoa, depressão…, conscientes ou subconscientes) em estados psíquicos de paz, alegria, concórdia, sucesso… (até desportivo!) Uma breve pesquisa na Internet mostra que proliferam no Mundo (sem exceção de Portugal, e com abordagens laica ou religiosa) instituições, pessoas, publicações, eventosenvolvidos séria e sabiamente na muito natural “alquimia psíquica”.
Em plena era de transição, o enorme e contínuo incremento científico-tecnológico mundial vai-se aplicando cada vez mais à prática do desenvolvimento e evolução humanos. Por João Xavier de Almeida foto ulisses.com Efetivamente, a perfeita compreensão duma ofensa e dum ofensor induz ao sentimento de nada haver a perdoar Novas de Alegria 12 MARÇO.ABRIL.
