82 — índice de conteúdos

Consultório

Jornal de Espiritismo nº 82 · Maio 2017Página 56 min

Partilhar
Idioma

Retorno à vida corporal Apesar de ser um axioma básico da doutrina dos espíritos, o conceito não pertence ou foi criado pela mesma. Existem doutrinas reencarnacionistas que professam a ideia de retorno ao corpo físico em outro corpo físico preexistente, não sendo necessário o renascimento. Para o Espiritismo, o retorno à vida corporal implica em voltar à carne através da fecundação e num novo corpo determinado para esta finalidade.

O Espírito poderá voltar a uma nova existência (reencarnar) com o objetivo da sua evolução. No Capítulo IV, na pergunta 166, de «O Livro dos Espíritos» , Allan Kardec pergunta: “Como a alma, que não atingiu a perfeição durante a vida corporal, pode terminar de depurar-se?” , ao que os espíritos respondem: “Experimentando a prova de uma nova existência”. Porém, o processo evolutivo do Espírito não se dá somente quando reencarnamos, dá-se também enquanto estamos no plano espiritual no período intermissivo (período que decorre entre uma encarnação e outra).

Platão, filósofo grego, já dizia: “Antes de virmos a esta vida, já tivemos outras, e no tempo intermediário que passamos no mundo dos Espíritos, adquirimos o conhecimento das grandezas a que somos destinados...”. Os Espíritos também nos dizem que é no mundo espiritual que se dá o aprendizado mais longo, representando a vivência na Terra uma ínfima parcela da experiência da consciência. É no período intervidas que trabalhamos a escolha das novas características da vida terrena preparando o laboratório da experiência humana, consoante o nosso grau de evolução e segundo as nossas necessidades evolutivas.

Na pergunta 330 (a), no cap. VII, Do regresso à vida corporal, de «O Livro dos Espíritos» , os Espíritos esclarecem que a “A reencarnação é uma necessidade da vida espiritual, como a morte é uma necessidade da vida corporal”. E quando se inicia a preparação do Espírito para a reencarnação? Muito antes do encontro entre dois seres no mundo físico. Entretanto, Divaldo Franco, orientado pelo Espírito de Joana de Ângelis, assevera: “Geralmente nós não escolhemos a família na qual iremos reencarnar, bem como o papel a ser desempenhado no grupo consanguíneo.

No Mundo Espiritual tudo se enquadra na Lei dos Méritos”!, cap. 2. “Vivências do Amor em Família”. Isso quer dizer que os nossos créditos e os nossos méritos, fruto das nossas vivências, ditam as nossas provações, não numa perspetiva punitiva, mas, numa postura corretiva das nossas necessidades existenciais e cumprindo um objetivo único, que é a evolução. Joana de Ângelis, pelo médium Divaldo Franco, no livro “Dias Gloriosos” refere que “O corpo, sob qualquer condição que se expresse, é o resultado da conduta anterior do Espírito, que programa as suas necessidades na forma, a fim de crescer e evoluir, transformando conflitos em paz, débitos em créditos, mazelas em esperanças”, sendo assim um reflexo das nossas muitas experiências do passado.

O nosso corpo biológico é assim formado pela orientação da nossa forma espiritual ou do nosso perispírito, também designado por alguns autores, como Dr. Hernâni Guimarães Andrade, de MOB – modelo organizador biológico. A nossa genética é selecionada a partir da influência do nosso campo estruturador da forma, ou MOB, determinando assim o corpo necessário à nossa experiência reencarnatória. O perispírito vai então selecionar 23 pares de cromossomas do progenitor e 23 pares de cromossomas da progenitora, formando assim um ser na junção do gâmeta feminino (óvulo) com o gâmeta masculino (espermatozóide), dando uma mulher - 46 XXou um homem - 46 XYaquando da fecundação.

O início da gestação humana acontece de duas a 48 horas após o ato sexual e a partir daí dá-se a ligação do Espírito reencarnante ao embrião. A essa coleção de genes 46 XY ou 46 XX que cada um tem chamamos de genótipo e ao modo como os nossos genes se expressam chamamos fenótipo. Logo, dois gémeos idênticos podem ter a mesma carga genéticagenótipoe ter o fenótipo diferente, marca da individualidade ou expressão do Espírito.

Na pergunta 344, de «O Livro dos Espíritos» , os Espíritos esclarecem que “A união do Espírito ao corpo começa na concepção, mas, só se completa, no nascimento” . (…) Porém, como os laços que a ele o prendem são muito fracos, facilmente se rompem pela vontade do Espírito, que recua diante da prova” (…) P. 345. Nem todos os Espíritos ao reencarnar o fazem de uma forma tranquila. Existem dificuldades que se devem as reminiscências do passado, das simpatias e antipatias entre o Espírito que irá reencarnar e os familiares que o irão receber, provocando desde a aproximação reencarnatória rejeição aos pais e recuo ao mundo espiritual; outras vezes por medo das provas atuais; por recordações das vivências passadas traumáticas; por medo em falhar na vida atual; ou por resistência em deixar o plano espiritual.

Outras vezes, a razão das dificuldades reencarnatórias encontra-se nos progenitores; no pai, mãe ou em ambos. E as causas podem ser: rejeição pelo Espírito que irá reencarnar por laços dolorosos do passado; experiências traumáticas da mãe relacionadas com o parto nesta vida ou em outras vidas; negação da função de paternidade ou maternidade; resistência à mudança na estrutura familiar; medo em falhar no projeto assumido.

Como consequências dessas resistências reencarnatórias podem ocorrer algumas consequências: . Dificuldades em engravidar; abortos espontâneos e repetitivos; gestações difíceis; partos complicados; mortes prematuras; Complicações obstétricas; mortes em tenra idade; relações precoces difíceis; depressões peri-parto; dificuldades no desenvolvimento neuro-psicomotor (DNPM) do recém-nascido. Na pergunta 332, de «O Livro dos Espíritos», “O Espírito pode apressar ou atrasar o momento da sua reencarnação?

“Pode apressá-lo, atraindo-o com um intenso desejo e pode também atrasá - -lo, se recuar diante das provas, pois, entre os Espíritos, há também covardes e indiferentes. Mas não o faz impunemente; sofre por isso, como aquele que não aceita um remédio salutar que pode curá-lo”. Normalmente, somos assessorados no plano espiritual para esse planeamento reencarnatório, havendo uma intercessão espiritual que orienta esse mapa reencarnatório.

Por regra, as reencarnações são planeadas com antecedência, atendendo as necessidades evolutivas de cada ser. A depender da evolução do Espírito pode ser elaborado pelo próprio, mas, na maioria dos casos é delegado a espíritos mais evoluídos. O Espírito poderá escolher o género de provas que irá atravessar e essas escolhas se dão ao nível de probabilidades, podendo haver alterações a esse mapa reencarnatório devido ao nosso livre-arbítrio.

Citamos ainda as reencarnações compulsórias – quando os Espíritos não têm capacidade de participar no seu programa reencarnatório. São planeadas pelos espíritos benfeitores a seu favor. Reencarnações acidentaisFruto de união sexuais fortuitas. O Espírito sente-se atraído pela união do casal e dá-se a reencarnação sem programação espiritual, dando lugar a espíritos aproveitadores e frívolos, em situações desfavoráveis em todos os sentidos.

Em conclusão, o retorno à vida corporal, mesmo sendo para o Espírito uma experiência para a sua evolução e crescimento espiritual, poderá ser uma experiência perturbadora e depende muito da forma como somos acolhidos parentalmente. “O momento da reencarnação é acompanhado de uma perturbação, muito maior e mais longa do que aquela que se dá quando da desencarnação. Com a morte, o Espírito sai da escravidão, com o nascimento, entra nela” configurando-se para o Espírito uma experiência por vezes dolorosa.

«O Livro dos Espíritos». P. 339. Texto: Gláucia Lima, psiquiatra e estudiosa da doutrina espírita. Bibliografia: “A Génese”. Allan Kardec. FEP. “A Vida no Mundo Espiritual. Estudo da Obra de André Luiz”. Coordenação Geraldo Campetti. FEP. “Conhecendo o Espiritismo”. Adenauer Novaes. “Dias Gloriosos”. Joana de Ângelis / DPF.FEP. “Engenharia e Genética”. Eurípedes Kuhl. FEP. “Gestação”. Luiz Barreto Vieira. FEEB. “Missionários da Luz”.

André Luiz / FC Xavier. FEP. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. Allan Kardec. FEP. “O Livro dos Espíritos”. Allan Kardec. FEP. “Pensamento e Vida”. Emmanuel. FCX. FEB. “Transição Planetária”. Manoel. P. Miranda. / DPF. FEP. “Vivências do Amor em Família”. Divaldo Pereira Franco / FEP. foto arquivo MAIO.JUNHO.