Entrevista
Jornal de Espiritismo nº 85 · Novembro 2017Página 95 min
Nos seus tempos livres tem várias responsabilidades, sendo uma delas a vice-presidência da Associação Médico- Espírita do Brasil (AME-Brasil), sendo autor e co-autor de vários livros. Colocámos-lhe algumas perguntas numa entrevista que pode encontrar num vídeo de 20 minutos no canal de YouTube da Associação Médico-Espírita do Norte (AME Norte). Quatro dessas indagações foram as seguintes: - Como se interessou pelo espiritismo?
Roberto Lúcio Vieira de SouzaComecei a trabalhar com mediunidade aos 15 anos de idade, mas nessa época eu ainda não era espírita. Frequentava então um grupo familiar que tinha uma atividade ligada a cultos afro-brasileiros. Com aproximadamente 19 anos de idade eu colaborava num trabalho assistencial num leprosário quando conheci um dos discípulos de Eurípedes Barsanulfo. Era um dos últimos ainda encarnados, que morava em Belo Horizonte, e ele e a esposa convidaram-me para uma reunião na casa espírita em que trabalhavam.
A partir dali, de um convite, de uma conversa com eles, passei a frequentar a União Espírita Mineira, no estado de Minas Gerais, no Brasil, e a partir daí comecei a trabalhar dentro do movimento de juventude. Vão lá já à volta de 40 anos de atividades dentro do movimento espírita. - A mediunidade leva à loucura? Roberto Lúcio Vieira de Souza – A loucura é uma doença e deve ser referido que o próprio Allan Kardec na primeira parte de «O Livro dos Médiuns» se preocupou em mostrar que a mediunidade não leva ninguém à loucura.
A mediunidade é uma faculdade que as pessoas podem ter de contacto com o mundo espiritual. O médium tem a capacidade de transmitir essas mensagens que ele recebe Mediunidade e medicamentos: que relação? ao mundo físico. O que vemos é que muitas pessoas às vezes podem ter a manifestação da mediunidade e isso, de alguma forma, complicar a loucura que já existe na vida da criatura. Como pessoas que são, portadoras de doença mental, às vezes a mediunidade pode agravar sintomatologia não por si mas porque a pessoa não tem o controlo, a compreensão, a crítica sobre o que está a viver, e isso pode realmente agravar os sintomas.
Mas a mediunidade em si utilizada para o aprimoramento desses contactos e o crescimento das pessoas, não leva à loucura. Há um trabalho do Dr. Alexander MoreiraAlmeida, que foi a tese do seu doutoramento em Psiquiatria pela Universidade de São Paulo (Brasil), em que ele mostra que os médiuns não são doentes mentais – resultado de um trabalho de pesquisa com mais de uma centena de médiuns na cidade de São Paulo – e, mais do que isso, a partir de testes aplicados nessas pessoas, ele pôde mostrar que os médiuns têm uma habilidade social de relacionamento e de trabalho às vezes melhor do que as pessoas chamadas normais, ou não médiuns, dentro da sociedade.
- Em consultório devem aparecer-lhe decerto casos com mediunidade descontrolada. Isso resolve-se com medicamentos? Roberto Lúcio Vieira de Souza – Na prática clínica, quem tiver uma visão médico-espírita vê, várias vezes, esse conjunto de fenómenos patológicos e de fenómenos mediúnicos, ou às vezes de fenómenos patológicos e de processos obsessivos. O trabalho que leva à orientação das famílias e dos pacientes leva a fazer um atendimento integral – então, a medicação tem a sua função no campo patológico, mas a medicação não tem diretamente uma ação diante da mediunidade que está descontrolada ou de um processo obsessivo.
À medida que melhora, o doente mental – em que ele fica mais lúcido, mais seguro, mais capaz de lidar com a vida e também vai ter mais equilíbrio para entender esses fenómenos mediúnicos ou obsessivos – separa uma coisa da outra e é capaz de melhorar. Há um trabalho do Dr. Alexander Moreira Almeida, que foi a tese do seu doutoramento em Psiquiatria pela Universidade de São Paulo (Brasil), em que ele mostra que os médiuns não são doentes mentais Mas não tratamos mediunidade descontrolada com medicamentos.
Então, será certamente por isso que a psiquiatria enfrenta um resultado muito pobre, às vezes, com os tratamentos porque muitos pacientes são tratados com remédios e não recebem uma assistência espiritual adequada – sem ela a parte que não é da patologia não é atendida dentro do que é necessário. O que temos aprendido também nesses anos de clínica é que podemos usar determinados medicamentos para restringir a mediunidade.
A gente usa-a para bloquear os canais mediúnicos. Não porque ele vá impedir que uma pessoa seja médium, mas como ele atua no cérebro e a mediunidade passa por essa interface que é o aparelho cerebral, ao impedir isso ele reduz também essas influências na vida da criatura, não por interferir no espírito, mas por interferir naquilo que é a captação de uma entidade espiritual por parte do médium. A depressão tem sido vista como uma das doenças mais comuns da atualidade.
Existe a possibilidade de haver má influência de Espíritos desencarnados a acentuar os sintomas? Roberto Lúcio Vieira de Souza – Na nossa visão, toda a doença é uma doença espiritual. Não que seja a ação de algum Espírito. Mas na nossa observação, adoecemos como resultado do desrespeito do homem à lei divina. Toda a vez que isso acontece entra num processo de culpa e de remorso. Isso vai modificando a sua vibração e provoca os mais diversos tipos de doença.
A depressão é hoje uma das doenças mais graves que a humanidade conhece. Já é a maior causa de afastamento das pessoas do serviço no mundo e, até 2025, ela virá a ser a terceira maior causa de morte no mundo. Porquê? Porque ela, além de estar associada a cerca de 70% das pessoas que se suicidam, desencadeia os processos cardiovasculares e oncológicos. É hoje uma das mais graves situações que a saúde conhece. Todo o indivíduo que fica deprimido, do ponto de vista do pensamento, está adoecido.
E todas as vezes que adoecemos o nosso pensamento, abrimos campo para nos ligarmos a pensamentos que estão no universo que também estão adoecidos. Então, qualquer pessoa que tiver uma doença psiquiátrica em fase aguda está em sintonia obsessiva. Não porque um Espírito o perturba mas porque ele se vincula, ele sintoniza com essa situação. Então o indivíduo que está deprimido sempre vai ter ao redor dele energias espirituais negativas que agravam a sintomatologia que ele apresenta.
foto arquivo adep Roberto Lúcio Vieira de Souza é médico psiquiatra, diretor clínico do Hospital André Luiz de Belo Horizonte (Brasil). Esteve de passagem por Portugal em outubro passado onde proferiu duas conferências no Seminário sobre Medicina e Espiritualidade realizado na proximidade da cidade do Porto. NOVEMBRO.DEZEMBRO.
