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Literatura Esta obra lança muita luz sobre o período que se seguiu à m

Jornal de Espiritismo nº 86 · Março 2018Página 196 min

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Literatura Esta obra lança muita luz sobre o período que se seguiu à morte de Allan Kardec, a 31 de Março de 1869, época nebulosa, com grande quantidade de factos da história do Espiritismo desconhecidos de nós, espíritas, período este que vai até ao final do século XIX e entra nas primeiras décadas do século XX. Excluindo a publicação das «Obras Póstumas» do Codificador, em 1890, por Pierre - -Gaëtan Leymarie (1827-1901), num dos seus poucos arroubos de lucidez, tudo o mais que o médium amigo do casal Kardec realizou em nome da causa espírita foi demasiadamente triste e deprimente, pois a sua conduta levaria à gradual adulteração e posterior desaparecimento do Espiritismo, primeiro em França e depois na Europa.

O autor desta importante pesquisa ─ Adriano Calsone ─, para todos os que amam a Doutrina dos Espíritos, tem o condão de nos levar a viajar no tempo e seguir, passo a passo, os caminhos percorridos por Amélie-Gabrielle Boudet desde o seu nascimento em 1795, em Thiais, vilarejo a duas dezenas de quilómetros a sul de Paris. Assistimos ao seu primeiro encontro com o jovem professor Rivail, nove anos mais novo, mas que não o aparentava.

Tal encontro terá sido no final da década de 1820, ou no início da seguinte, e o seu casamento em 1832. Depois vemos Amélie assistir e participar em silêncio activo na epopeia à qual o seu marido foi chamado a percorrer, entre 1854 e 1869, para materializar na Terra a «Sabedoria dos Espíritos Superiores»: a Codificação Espírita, sob a égide do Espírito da Verdade. Concretizou, assim, o cumprimento daquilo que Jesus ─ o Espírito mais evoluído que nos foi dado conhecer (Questão n.

º 625 de «O Livro dos Espíritos») ─ nos havia prometido, conforme o registo do seu discípulo mais jovem, João, dito “O Evangelista” (João, XIV). Após o passamento do companheiro querido em 1869, Amélie assiste impotente à constante e gradual adulteração do Espiritismo nas mãos do mandatário Pierre - -Gaëtan Leymarie, então como administrador da Sociedade Anónima fundada por Allan Kardec, com a finalidade de divulgar o Espiritismo; como redactor-chefe e director da «Revista Espírita» (1870- 1901), e ainda como gerente da “Librairie Spirite” (1870-1897).

Não obstante a viúva Kardec ter em mãos poder para gerir o legado deixado pelo saudoso companheiro, nesses tempos as mulheres não eram ouvidas, nem as suas opiniões consideradas. Assim, Leymarie, de forma lenta mas determinada, julgando que fazia o melhor, foi paulatinamente desvirtuando, adulterando, abastardando o Consolador, transformando-o num sincretismo que deu lugar a todas as aberrações espiritualistas, em nome da “Fraternidade Universal”.

Registamos um pequeno extracto desta obra: «De facto, os artigos da Revista Espírita passaram a descrever e a divulgar (amplamente) a Teosofia, o Roustainguismo, a estranha doutrina metafísica da Pneumatologia Universal, as práticas mágicas das filosofias orientais, entre outras matérias místicas e ocultas que chegaram a negar a Doutrina ─ tudo muitíssimo distante dos ensinamentos de Allan Kardec e do Espiritismo.» Podemos resumir, entre vários, os principais atentados feitos contra a Doutrina dos Espíritos, que nos foi legada com tanto sacrifício e renúncia por Allan Kardec, o “Bom senso encarnado”: 1.

ºEm 1875 Leymarie deixa-se envolver pelo fotógrafo médium Édouard Buguet (1840-1901) e seu ajudante magnetizador americano Alfred Firman, no célebre «Processo dos Espíritas», que arrastam a viúva de Allan Kardec para situações humilhantes. 2.ºNa mesma década, a obra de Roustaing ─ «Os Quatro Evangelhos» (1866) ─ pelas mãos de Leymarie, tem entrada livre na «Revista Espírita». Obra esta que Allan Kardec já havia rejeitado, logo em 1866, e à qual, ano e meio depois e como prometera, responde definitivamente com a publicação de «A Génese», encerrando a questão.

A obra do advogado de Bordéus agredia frontalmente a reencarnação, informando que havia Espíritos que podiam regredir, espiritualmente falando, e que Jesus nunca teve um corpo de carne. Procura ainda acomodar o Espiritismo com a doutrina da Igreja e o papado: «O chefe da Igreja católica será um dos pilares do edifício da (futura) Igreja do Cristo» (3.º volume, 1971 - pág. 65). O milionário Jean Guérin, mandatário de Roustaing, financia conferencistas remunerados para, “em nome do Espiritismo”, divulgarem “Os Quatro Evangelhos”.

Um autêntico desastre. 3.ºOs teósofos Helena Blavatsky (1831- 1891) e coronel Olcott (1832-1907) recebem um apoio determinante da «Revista Espírita» pela mão de Leymarie para constituírem e divulgarem a Teosofia (1875), doutrina que nega a reencarnação na Terra e a comunicabilidade dos Espíritos. Uma autêntica catástrofe. 4.ºLogo após a morte da viúva Amélie, Leymarie com Vautier, tesoureiro da Sociedade, e outros, invade a Villa Ségur, fazendo uma limpeza de milhares de documentos do casal Kardec, obras de arte espírita e mediúnica, os pertences pessoais, etc.

, que deveriam integrar o futuro Museu do Espiritismo. O grosso do património foi vendido a sucateiros. Muito pouco foi poupado e, por fim, foi feito uma fogueira no jardim da memorável Villa Ségur, conforme testemunho agora resgatado: «Mas o que me fez tremer de indignação foi assistir a um verdadeiro auto-de-fé. O Sr. Vautier caminhava no jardim entre pilhas de papéis e cartas. Quantas comunicações interessantes, quantas anotações deixadas pelo mestre.

Tudo foi destruído.» (Madame Fropo, 1884). Este livro ajuda-nos a compreender porque o Espírito da Verdade não permitiu que Allan Kardec, assoberbado com trabalho, distribuísse tarefas pelos demais companheiros que integravam o núcleo primitivo do Espiritismo, pois sabia que os mesmos não estavam à altura de tão grandioso empreendimento. Contudo, os Espíritos não deixaram de o advertir de que, se desistisse da tarefa, outro o substituiria.

A sua morte veio demonstrar à saciedade quanto distantes ainda se encontravam do mestre. O aviso seria para não se acomodar, pois sabemos hoje que só ele, na época, estava preparado para tal cometimento. Com a paciente investigação do ainda jovem Adriano Calsone, ficamos a compreender melhor por que motivo o Espiritismo logo se abastardou, acabando lenta, mas sistematicamente, por se corromper, agonizar e desaparecer da França que o viu nascer, e depois da Europa, não obstante os esforços inúteis da viúva Amélie.

Como mulher, seria ignorada conforme testemunho da sua grande amiga a Madame Berthe Fropo, que desencarna com 67 anos, a 9 de Novembro de 1898. Sabemos apenas da brochura «Beaucoup de Lumière», publicada de forma independente em 1884, em Paris, que nos traz revelações que nos deixam atónitos. Foi um achado, recém-descoberto, desconhecido dos espíritas actuais, que esteve perdido durante mais de um século. Também compreendemos por que razão a centenária Federação Espírita Brasileira (FEB), nunca traduziu para o português, nos séculos XIX e XX, o monumento doutrinário que é a «Revista Espírita» (136 números: de Janeiro de 1858 a Abril de 1869), só o fazendo no início do século XXI, sob a presidência do saudoso Nestor João Mazotti (1937-2014), e pelo trabalho ingente de Evandro Noleto Bezerra, trabalhador incansável dos quadros da FEB.

Todo este percurso, no espaço e no tempo, que ilumina os “brancos” da história do Espiritismo apósadécada de 1870, está fundamentado em documentos que estiveram esquecidos e quase perdidos, que agora começam a ser resgatados por vários estudiosos pacientes, determinados a pesquisar verdades da história do Consolador, ignoradas até então pelos espíritas. Hoje podemos compreender ─ o que sempre me confundiu ─ por que motivo a Federação Espírita Portuguesa, desde a sua origem, tem o seu órgão oficial, a «Revista de Espiritismo» (n.

º 1 - Janeiro-Fevereiro de 1927), estigmatizada com os subtítulos: «Hipnomagnetismo – Metapsíquíca – Esoterismo – Ética». Também não entendia por que razão na relação de LIVROS RECOMENDADOS, na contracapa da mesma revista, vamos encontrar em destaque, e misturados com as obras de Allan Kardec, a «Revelação da Revelação (Os Quatro Evangelhos)». Eram estes ainda os vestígios da “Fraternidade Universal” do ocultista Pierre-Gaëtan Leymarie, que tinha contaminado a Federação Espírita Brasileira por mais de um século e que, por sua vez, atravessaria novamente o Atlântico, agora em sentido inverso, e contagiaria a FEP.

Nunca podemos esquecer que o Espiritismo é uma doutrina essencialmente exotérica, pois não tem nada de esotérico (oculto), nem de místico. Assim como não podemos compreender como a Metapsíquica que nega a imortalidade, a comunicabilidade e a reencarnação, tem a ver com o Espiritismo. O Espiritismo é o «Cristianismo que ressurge com toda a força e pureza, incólume, deixando de ser crença para ser verdade fundamentada em leis naturais.

» Por: Carlos Alberto Ferreira Madame Kardec JANEIRO.FEVEREIRO.