Editorial / Conto
Jornal de Espiritismo nº 87 · Maio 2018Página 24 min
EDITORIAL / CONTO Quando alguém aborda os primeiros estudos do que é o espiritismo depressa percebe como distinguir esta doutrina do que os seus adeptos fazem supostamente inspirados por ela. É por isso que não há espiritismo português ou outro, mas apenas movimento espírita português. O espiritismo é universal, pois esta doutrina, segundo considerou Allan Kardec nos seus livros, publicados pela primeira vez em meados do século XIX, pretende distinguir e conhecer na maior profundidade possível as leis da natureza em sentido amplo, mormente as que regulam as relações entre a vida material e a vida espiritual e, é bom de ver, as que regulam a própria natureza humana.
Isso quer dizer que o espiritismo é sobretudo um campo de trabalho. E isso é um item de eleição. Por esse facto, ninguém precisa de andar de braçadeira e ser corporativista, ou formalizar representações em hierarquias que nunca existiram doutrinariamente, nem deverão existir algum dia no movimento. Nesse sentido, para que haja progresso no saber, troca de pontos de vista, diálogos esclarecedores entre ângulos de entendimento que não são bem os mesmos, torna-se útil realizar eventos, tais como jornadas, congressos e certames de vasta diversidade.
Com base em factos, tanto quanto possível, a ideia pode brilhar e abrir janelas de compreensão sobre as grandes perguntas da humanidade a que o espiritismo responde com tranquilidade e segurança: Quem somos? De onde viemos? Que fazemos aqui? Para onde vamos? No respaldo que sugere o cultivo dos melhores sentimentos possíveis, o amor que se evola da imensa jornada humana no tempo, horizonte a horizonte, continua a abrir novos passos evolutivos.
O melhor chão para isso é Justiça de cima o quotidiano, o feixe de testes e oportunidades nas quais se renovam ensejos de sublimação. Nesse sentido, para que haja progresso no saber, torna-se útil realizar eventos, tais como jornadas, congressos e certames de vasta diversidade. Sobre dois milénios, a voz suave escuta-se, tão poderosa quão fraterna, a dizer que toda a lei e os profetas se resumem a escassas palavras – amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
Já sabia? Claro que sim! É que foi nesse sentido que fizemos estas páginas. Boa leitura! foto ulisses.com.pt Quatro operários solteiros, quase todos da mesma idade, compareceram ao tribunal de Justiça de Cima, depois de haverem perdido o corpo físico, num acidente espetacular. Na Terra, foram analisados por idêntico padrão. Excelentes rapazes, aniquilados pela morte, com as mesmas homenagens sociais e domésticas. Na vida espiritual, contudo, mostravam-se diferentes entre si, reclamando variados estudos e diversa apreciação.
Ostentando, cada qual, um halo de irradiações específicas, foi conduzido ao juiz que lhes examinara o processo, durante alguns dias, atenciosamente. O magistrado convidou um a um a lhe escutarem as determinações, em nome do Direito Universal, perante numerosa assembleia de interesfoto pixabay sados nas sentenças. Ao primeiro deles, cercados de pontos escuros, como se estivesse envolvido numa atmosfera pardacenta, o compassivo julgador disse, bondoso: - De tuas notas transparecem os pesados compromissos que assumiste, utilizando os teus recursos de trabalho para fins inconfessáveis.
Há viúvas e órfãos, chorando no mundo, guardando amargas recordações de tua influência. E porque o interpelado inquirisse quanto ao futuro que o aguardava, o árbitro amigo observou, sem afetação: - Volta à paisagem onde viveste e recomeça a luta de redenção, reajustando o equilíbrio daqueles que prejudicaste. És naturalmente obrigado a restituir-lhes a paz e a segurança. Aproximou-se o segundo, que se movimentava sob irradiações cinzentas, e ouviu as seguintes considerações: - Revelam os apontamentos a teu respeito que lesaste a fábrica em que trabalhavas.
Detiveste vencimento e vantagens que não correspondem ao esforço que despendeste. E, percebendo-lhe as interrogações mentais, acrescentou: - Torna ao teu antigo núcleo de serviço e auxilia os teus companheiros e as máquinas que exploraste em mau sentido. É indispensável resgates os débitos de alguns milhares de horas, junto deles, em atividade assistencial. Ao terceiro que se aproximou, a destoar dos precedentes pelo aspeto em que se apresentava, disse o juiz, generoso: - As informações de tua romagem no Planeta Terrestre explicam que demonstraste louvável correção no proceder.
Não te valeste das tuas possibilidades de serviço para prejudicar os semelhantes, não traíste as próprias obrigações e somente recebeu do mundo aquilo que te era realmente devido. A tua consciência está quite com a Lei. Podes escolher o teu novo tipo de experiência, mas ainda na Terra, onde precisas continuar no curso da própria sublimação. Em seguida, surgiu o último. Vinha nimbado de belo esplendor. Raios de safira claridade envolviam-no todo, parecendo emitir felicidade e luz em todas as direções.
O juiz inclinou-se, diante dele, e informou: - Meu amigo, a colheita de tua sementeira confere-te a elevação. Serviços mais nobres esperam-te mais alto. O trabalhador humilde, como que desejoso de ocultar a luz que o coroava, afastou - -se em lágrimas de júbilo e gratidão, nos braços de velhos amigos que o cercavam, contentes, e, em razão das perguntas a explodirem nos colegas despeitados, que asseveravam nele conhecer um simples homem de trabalho, o julgador esclareceu persuasivo e bondoso: - O irmão promovido é um herói anónimo da renúncia.
Nunca impôs qualquer prejuízo a alguém, sempre respeitou a oficina em que se honrava com a sua colaboraçãoenão se limitou a ser correto para com os deveres, através dos quais conquistava o que lhe era necessário à vida. Sacrificava-se pelo bem de todos. Soube ser delicado nas situações mais difíceis. Suportava o fígado enfermo dos colegas, com bondade e entendimento. Inspirava confiança. Distribuía estímulo e entusiasmo.
Sorria e auxiliava sempre. Centenas de corações seguiram-no, além da morte, oferecendo-lhe preces, alegrias e bênçãos. A Lei Divina jamais se equivoca. E porque o julgamento fora satisfatoriamente liquidado, o tribunal da Justiça de Cima, encerrou a sessão. Livro “Contos e apólogos”, Irmão X, psicografia do médium Francisco Cândido Xavier MARÇO.ABRIL.
