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Jornal de Espiritismo nº 88 · Maio 2018Página 55 min
foto ulisses.com.pt Fobias no presente e no passadoI parte Uma leitora pergunta: “Desde a infância tenho um medo excessivo de me expor, de falar em público. Como posso explicar isso à luz da doutrina espírita? Será influência de uma vida passada?” Gláucia Lima* - A leitora padece do que podemos chamar de uma perturbação de ansiedade. As Fobias estão incluídas dentro desta classificação. Quando a ansiedade é descontrolada num indivíduo, ele sente o medo ou a fobia, e quando este é crescente, acontece o pânico.
Todos estes sentimentos são espetros subjetivos das nossas emoções primárias. As fobias, de uma forma geral, “referem-se a um medo exagerado, irracional, repetido e incoercível relativamente a um objecto específico, circunstância ou situação ou a uma representação dos mesmos” (Manual de Psiquiatria Clínica. LIDEL. Out.2014) e podem de facto refletir experiências do passado, não somente de vida passada, mas que deixaram marcas traumáticas no nosso consciente ou recalcadas (reprimidas) no inconsciente.
Essas fobias podem surgir como sensações desagradáveis que emergem para a superfície da consciência, tal como a ponta de um iceberg, que esconde todo o volume que o sustenta. Traduzem-se em medo, ansiedade, fragilidade, que advêm de vivências corporificadas em emoções, atualizando um passado já vivido e desencadeadas por fatores diversos. Essas perturbações são muito frequentes na atualidade. Um Estudo Epidemiológico da Direção Geral da Saúde (DGS), “Saúde Mental em números” de 2013, demonstra que a prevalência (número de casos na população) de Perturbações do foro ansioso em Portugal é cerca de 16%.
Somos o país europeu com maior índice de perturbações ansiosas, seguindo-se as perturbações de humor. Acometem uma em cada oito pessoas. As Fobias como expressão do medo são a demonstração da insegurança pessoal, representação de desequilíbrio emocional, fragilizando o indivíduo para influências espirituais negativas De entre as perturbações de ansiedade, as mais comuns são: Perturbação da ansiedade generalizada; Perturbação de pânico; Fobia social; Fobia específica; Perturbação de stress pós-traumático; Perturbação obsessivo-compulsiva, entre outras.
As Fobias como expressão do medo são a demonstração da insegurança pessoal, representação de desequilíbrio emocional, fragilizando o indivíduo para influências espirituais negativas, ou seja, portais para processos obsessivos. Evidenciam um curso crónico e têm alta co-morbilidade com a depressão, abuso de álcool, dependência de substâncias, que surgem como desinibidoras sociais. Falando especificamente nas Fobias, classificam-se em três grupos: 1.
Fobia Social; 2. Fobias específicas; e 3. Agorafobia (medo de lugares abertos). A Fobia Social define-se por uma timidez ou inibição patológica. Parece não haver diferença na prevalência entre o género masculino e feminino. É uma das perturbações de ansiedade mais comum na população em geral. Habitualmente começa na adolescência, entre os 13 e 20 anos. E é caracterizada: . Pelo medo de se sentir o centro das atenções, de ser permanentemente observado ou julgado negativamente.
Há uma prevalência de 7% na população em geral. Os eventos sociais são evitados ou suportados com imenso sofrimento. O medo e ansiedade começa dias ou semanas antes do evento social ocorrer e são desencadeados pela mera expectativa de vivenciar a situação temida. Após o evento ocorre a avaliação negativa acerca da sua performance. Está relacionada com o medo de ser avaliado pelo outro. O principal sintoma é a ansiedade excessiva na presença de outra pessoa.
Aparece numa etapa muito relacionada com o desenvolvimento da auto-estima e auto-afirmação. Pode ser: (1). Circunscrita – abrange uma ou poucas situações, como comer, escrever ou falar em público; (2). Generalizada – engloba um grande número de situações, como usar sanitários públicos, falar com estranhos, lidar com superiores hierárquicos ou qualquer situação em que a pessoa possa ser julgada, observada ou avaliada.
O sujeito com fobia social, pode ter desenvolvido mandatos e desvios comportamentais, face a situações vividas como traumáticas no passado e geradoras de conflitos emocionais, tais como: (1) Situação de vida passada em que a pessoa foi envenenada numa festa (situação traumática do passado). Mandato (ordem mental inconsciente): “Não posso comer em público, porque comer em público gerou a minha morte!”. Padrão de comportamento – fobia em comer em público, medo de morrer.
Padrões alimentares e sociais restritivos. (2) Situação de humilhação e despedimento por superior hierárquico na vida atual (situação traumática). Mandato (ordem mental inconsciente): “Nunca mais vou ser humilhado por um superior, porque isso me destrói!” . Padrão de comportamento – Fobia da relação com superiores hierárquicos, sentimentos de destruição. Conflitos com chefias. Erros cognitivos frequentes em pessoas com Fobia Social (FS): “Não posso cometer erros, tenho de parecer competente”; “Se cometer algum erro, ninguém vai gostar de mim”; “Se perceberem quanto estou ansioso, vão julgar-me mal”; “Se falar algo errado será uma tragédia”.
Principais sintomas das pessoas que têm uma Fobia Social: • Rubor facial • Sudorese (suor) intensa • Tremores nas mãos • Tensão muscular • Fala hesitante • Taquicardia (batimentos cardíacos acelerados) • Boca seca • Mimetizam (imitam) o ataque de pânico Nos modelos do condicionalismo pensa-se que o estímulo fóbico gera uma resposta fisiológica antes do estímulo ser compreendido pelo indivíduo, gerando respostas automáticas, irracionais e inconscientes, quando se trata de fobias filogenéticas (da evolução da espécie), demonstram grande ativação da amígdala, o que não acontece com as fobias ontogenéticas (do indivíduo), Walker et al 2003.
Isso demonstra que as fobias generalizadas (cobras, baratas, aranhas), de uma forma geral, são medos filogenéticos, arquetípicos, que existiram como reações primitivas para preservação da espécie, fazendo parte do nosso cérebro “reptiliano”, não sendo essa parte do cérebro ativada quando se trata das nossas memórias individuais. Como fatores Etiológicos das Fobias sociais, temos: a herança espiritual (fator reencarnatório, vivências passadas); fatores do desenvolvimento (todos os fatores desde a idade perinatal); herança genética (0,3-0,5%) e Epigenética (fatores ambientais que alteram a genética do indivíduo durante o seu desenvolvimento).
Em conclusão, entendendo as várias dimensões do SER, a Psicologia do Espírito vem demonstrar que a desarmonia espiritual desencadeia o desequilíbrio psíquico (mental), que por sua vez se reflete nos componentes orgânicos, através da desarmonia física e celular, gerando no corpo físico os processos de doença, como diz o Espírito Emmanuel: “Corpo doente reflete o panorama interior do Espírito enfermo”, cabe ao espírita aprender a cuidar do Ser integral, pela busca do equilíbrio espiritual, prevenindo assim as perturbações do foro mental.
* Psiquiatra e estudiosa da doutrina espírita, Terapeuta com Formação em Terapia Familiar e Abordagem Sistémica, Psicodrama; Terapeuta Transpessoal. MAIO.JUNHO.
