filosofia do infinito no peias, primeiro em Itália e depois na Suíça
Jornal de Espiritismo nº 88 · Maio 2018Página 155 min
A filosofia do infinito no peias, primeiro em Itália e depois na Suíça, França, Alemanha, Inglaterra e em Praga, insistindo que são tantos os mundos quan-
pensamento bruniano tos os pontos luminosos que a nossa visão consegue discernir no espaço celeste. Argumentava Bruno que nenhum dos sen- tidos tem capacidade de negar o infinito, uma vez que a sua compreensão não é alcançada pelos sentidos, apenas pode ser negado senão com as palavras, «como fazem os teimosos». Também esta ideia «Eia, trabalha! A Natureza esquadrinhará as sublimes profundezas, pois, ao toque de Deus, vem configurada no pensamento de Karserás fogo ardente» Giordano Bruno dec, manifestado em «A Génese», quando foto arquivo afirma que é impossível imaginar um limite Entre as diversas obras brunianas destaca- qualquer para o espaço infinito, porque ao -se o título «Acerca do Infinito, do Universo e exercitarmos a sua perceção, permite-nos dos Mundos», a qual se constitui como um em pensamento avançar eternamente pelo tratado filosófico sobre a infinidade do uni- espaço, apesar do embaraço e uma certa verso e a pluralidade dos mundos.
Arrojou- angústia em concebermos o infinito. Gior- -se ao afirmar que o universo era infinito e dano Bruno exemplificou este exercício com que não estava delimitado pela oitava es- a descrição de uma dada sucessão numé- fera de Ptolomeu (cientista grego da cida- rica, onde um número sucede a outro, e a de de Alexandria, séculos I-II), aquela que outro, infinitamente. representava o firmamento ou o lugar das Em outra passagem de «A Génese», Allan estrelas fixas.
Kardec insiste na condição do espaço ser infinito para que a investigação científi- A compreensão de Deus ca prosseguisse sem limites e não fosse manietada pela restrição do nosso olhar. reside primordialmente Giordano Bruno atendeu a mesma linha na contemplação da sua de raciocínio, porque os olhos observam os obra, que é em si mesma sóis que são os globos maiores, mas não infinita, na meditação da conseguem olhar as outras terras, que aos nossos olhos se tornam invisíveis, por se- sua arquitetura, porque a rem muito menores.
Ao admitir a existência criação de Deus «não tem de «outras terras», o filósofo do infinito esta- começo nem fim». va convicto da realidade de outros mundos habitados, de muitas moradas na Casa de Giordano Bruno afirmou que a Terra não Deus. poderia ser o centro do universo porque o Giordano Bruno fora um espírito inconfor- infinito não tem centro, antes era constitu- mado, laborioso, lutador que advogou o ído por uma pluralidade de mundos vivos exemplo de devoção ao amor dos após- e animados.
Desprovido das conquistas tolos de Jesus Cristo, em contraste com o Quando meditamos profundamente sobre Santo Agostinho, na sua obra Confissões posteriores desbravadas pela Astronomia, uso da força, do castigo e da dor, imperano conceito de infinito, parece que nos move revelou a sua humilde condição de servo de o espírito ardente deste filósofo impetuoso tes na sociedade do seu tempo. Apesar da um impulso angustiante, que constringe e Deus, ao definir Deus simplesmente com o parecia antever as novas fronteiras científi- sua condição de frade dominicano, não o imobiliza a nossa própria natureza, fazen- verbo ser, «Antes de tudo, Deus É», porque cas do universo, convencido da existência impediu de afirmar que o mundo não podia do-nos reconhecer a finitude da inteligência nesta significativa entidade verbal ficam de globos inumeráveis num universo infini- continuar impregnado de ignorância, e deshumana, quando comparada com a infini- guardados todos os atributos de Deus.
to, composto de regiões e de mundos etére- te modo, não considerava alguma religião dade de Deus. A compreensão de Deus reside primordial- os num espaço contínuo. com conduta adequada ao progresso moral A inteligência de Deus é infinita, porque é mente na contemplação da sua obra, que é Três séculos depois da divulgação do pen- da sociedade. Ousou meditar e divulgar os suprema, perfeita, eterna, absoluta, inume- em si mesma infinita, na meditação da sua samento bruniano, a Codificação de Kardec seus pensamentos sobre o infinito e a plurável.
arquitetura, porque a criação de Deus «não sustentava o princípio da pluralidade dos ralidade dos mundos, motivado por um ímA semântica e a filosofia devem caminhar tem começo nem fim». mundos como um dos pilares fundamen- peto filosófico que o conduziam à dúvida de de mãos dadas, procurando exercitar uma Disse-nos Giordano Bruno (1548-1600), tais da doutrina espírita. todas as coisas, escutando as outras posicorrespondência plena entre a significação humanista e filósofo nascido em Nola no A resposta à pergunta 55 está tão intima- ções, para as pesar e avaliar.
Conforme ele das palavras e a modelação dos conceitos. Sul de Itália, que deste modo se engran- mente identificada com a convicção de próprio argumentou, «jamais deve julgar ou As três primeiras perguntas de «O Livro dos dece a excelência de Deus e se desvela a Giordano Bruno, referindo-se à existência censurar um enunciado apenas pelo que Espíritos» são a esse propósito profunda- nobreza do seu império, porque não se glo- de tantos milhares de milhões de mundos ouviu, pela opinião da maioria, pela idade, mente elucidativas, porque estabelecem rifica apenas num sol, mas em inumeráveis semelhantes à Terra.
Na Génese de Kardec pelo mérito ou pelo prestígio do orador, uma relação entre Deus e o infinito, moti- sóis, não numa Terra, antes num milhão, ou encontram-se várias referências à ideia do devendo por consequência agir de acordo vando um exercício de reflexão que nos fixa melhor, em infinitos mundos. Apenas Deus universo infinito, num alinhamento que pa- com uma doutrina orgânica que se mane suspende o pensamento, intemporalmen- conhece o infinito, deixou antever Giordano rece decalcado do pensamento bruniano.
tém fiel ao real e uma verdade que pode te. Bruno, mas Kardec e, «A Génese» afirma Conforme refere Kardec, a ideia de espaço ser entendida à luz da razão». Este princípio É próprio da imperfeição do ser humano que «antegozamos a ideia do infinito, que infinito não tinha qualquer sustentação, por- bruniano está coerente com a conduta da que em face da sua natureza busca uma somente de acordo com a nossa perfetibi- que estava incrustada num conceito ances- filosofia espírita, ao qual complementamos linguagem compatível e não renegando lidade futura poderemos compreender em tral designado por «firmamento», originário com a sua reflexão sobre a imutabilidade a sua emanação de Deus, resigna-se em toda a sua extensão».
do latim «firmus» que derivou «firmamen- da nossa substância, que determina a inesilêncio, rendido à grandiosidade do seu Este filósofo que desafiou o senso comum tum», cujo significado é firme ou resistente, xistência da morte, não só para nós como Criador. da sua época foi evocado por León Denis, transmitindo a noção da existência de uma para qualquer substância. Como pode uma inteligência finita compre- na obra Espiritismo e Cristianismo, porque abóbada celeste fixa e rígida, precisamente ender uma inteligência infinita?
Como com- sofreu por uma grande causa, preferindo a figurada na oitava esfera de Ptolomeu. preender que uma inteligência finita exerci- tortura e a condenação pelo fogo, decreta- A palavra inovadora de Giordano Bruno soate uma definição para Deus? da pela Inquisição do Santo Ofício.

