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Jornal de Espiritismo nº 89 · Abril 2018Página 55 min

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foto pixabay Como definir Psique? A indagação vem formulada desta maneira: “Dr.ª Gláucia, como podemos definir a palavra Psique do ponto de vista espírita? É o mesmo que Espírito?”. Gláucia Lima* - A palavra Psique tem origem no grego “psykhée” e foi utilizada pelos filósofos gregos para descrever a alma ou espírito. Daí advém a primeira controvérsia, pois “alma e Espírito” não querem dizer para os espíritas o mesmo, sendo a alma “o espírito encarnado” (pergunta 134, “O Livro dos Espíritos”) e o Espírito “o princípio inteligente do Universo”.

(pergunta 23, “O Livro dos Espíritos”). A Psique estava relacionada com uma espécie de energia do ser humano que se associava ao corpo terreno e que, depois da morte, se separava deste. Com o passar do tempo, o conceito foi-se distanciando da filosofia e aproximou-se da designação dada pela Psicologia. Ainda assim, mesmo dentro da Psicologia, a Psique começou a ser usada com diferentes conotações, como de mente ou ego, que por sua vez têm significados diversos.

Ainda podemos encontrar o entendimento da Psique enquanto: Alma, princípio espiritual do homem; Espírito, parte imaterial; Mente; Intelecto; reunião dos caracteres psíquicos do ser humano ou resumidamente, Psiquismo. Pensamos, que a definição de Psique como “Mente”, não deixando de ser correta, será restritiva por ser intrapsíquica, a não ser que se contemple os fenómenos interpessoais do psiquismo, admitidos hoje pela psicologia transpessoal.

Já a descrição como “Intelecto”, refere-se somente aos processos mentais cognitivos relativos à inteligência, o que deixa à parte todos os processos mentais do campo emocional e espiritual. Por fim, a definição, que reúne todos os caracteres psíquicos do ser humano e as suas relações com o seu meio, numa visão multidimensional, amplia o conceito clássico de Psique, introduzindo uma dimensão transpessoal – para além do pessoal.

Sigmund Freud, 1856 – 1939, o pai da psicanálise, quem primeiro fez uma sistematização da Psique humana dividiu-a, em três partes, a saber: Id (parte inconsciente), Ego (parte consciente) e Super Ego, com uma parte consciente e outra inconsciente. Carl Jung, 1875-1961, seu predecessor, definiu a psique humana como os processos psíquicos, que podem ser conscientes ou inconscientes. Na visão espírita, a “Psique”, traduz-se na mente humana e nas suas funções psíquicas, como expressão do espírito, estando mais próxima da definição de Psiquismo apresentada pelo Dicionário da Língua Portuguesa.

Porto Editora, 2003-2015, como “Conjunto de Traços psicológicos e funções psíquicas de um indivíduo”. Freud, quando definiu o Psiquismo Humano no seu primeiro estudo, “Die traumadeutung” (“A interpretação dos sonhos”), em 1900, definiu a importância do papel do Inconsciente e do Determinismo psíquicotodo o sintoma mental possui uma causa inconsciente que o determina. O autor assumiu que não há nenhuma descontinuidade na vida mental, e que nada ocorre ao acaso, muito menos nos processos mentais.

Dizia que cada evento mental é causado pela intenção consciente ou inconsciente, e é determinado pelos fatos que o precederam. Segundo ele, o inconsciente seria a parte do aparelho psíquico que domina a nossa vida psíquica. A partir das experiências de Freud, na segunda metade do século XIX fundou-se a Sociedade de Estudos Psíquicos com orientação de Charles Richet, porque muitos fisiologistas, médicos, neurologistas, se interessavam pelos fenómenos da hipnose, sugestão, histeria, inclusive Carl Jung.

Segundo a sua teoria, os sonhos eram a satisfação simbólica dos desejos recalcados, porém, tendo estudado vítimas da I Grande Guerra Mundial, que tinham sonhos terríveis, os sonhos destes não podiam ser o reflexo dos seus desejos, sendo a sua teoria questionada. Na visão espírita, a “Psique” traduz-se na mente humana e nas suas funções psíquicas, como expressão do espírito, estando mais próxima da definição de Psiquismo apresentada pelo Dicionário da Língua Portuguesa.

Também para Freud, no nosso inconsciente estariam: os nossos medos, pulsões (impulsos) agressivas, pulsões inatas, desejos, recalcamentos (resistências) e na nossa parte consciente ou mais superficial; as percepções, fantasias, memórias, lembranças, raciocínio. A premissa inicial de Freud era a de que existem conexões entre todos os eventos mentais e quando um pensamento ou sentimento parecia não estar relacionado com os pensamentos e sentimentos que o precedem, estas conexões estariam no Inconsciente.

Denominou essa explicação de Teoria Topográfica da mente, dividindo a mente em três instâncias: 1. Inconsciente – onde estariam os conteúdos recalcados, mais profundos, aos quais não teríamos facilmente acesso, senão através dos sonhos, traços de memória, psicoterapia; 2. Pré-consciente – conteúdos latentes, reprimidos; 3. Consciente – o nosso domínio mental. Em 1923, Freud, reformulou a sua primeira teoria e lançou a Teoria Estrutural da mente, tentando explicar os processos psíquicos.

Dividiu assim a mente em: 1. ID – inconsciente, inato, fonte de prazer, desejos, pulsões; 2. EGO – elo de ligação dos processos psíquicos, com o seu conjunto de representações e funções, teria um papel de mediador; e 3. SUPER-EGO – ou ideal de ego, com valores, punições e recompensas. Quando não existisse um equilíbrio entre estas três instâncias do aparelho mental, surgiria o sintoma ou desequilíbrio. Por exemplo, pessoas, que tivessem um excesso de ID, na satisfação ou busca imediata do prazer, sem que o seu Ego conseguisse frear os seus desejos, haveria um sintoma mental.

Ao contrário, um Super-ego, demasiado exigente, rígido, com muitas regras e sem prazer, autocontrolado, também, surgiria uma descompensação psíquica. À semelhança, Calderaro, instrutor de André Luiz na obra “No Mundo Maior”, psicografada por Francisco Cândido Xavier, no capítulo 3, “A Casa Mental”, faz uma descrição quer anatómica, quer psicológica do Aparelho Mental. Refere que o nosso cérebro pode ser dividido em três partes, e é comparado a um edifício de três andares.

No primeiro andar, encontra-se “o sistema nervoso” – cérebro inicial, repositório dos nossos movimentos instintivos e sede das atividades subconscientes. Porão da individualidade, onde residem os nossos hábitos e automatismos. Também denominou essa região do domínio do “subconsciente” ou não consciente. O segundo andar, onde estaria “o córtex motor”, a nossa atividade consciente, e por sua vez, as conquistas atuais baseadas no esforço e vontade, do domínio consciente.

E o terceiro andar, estaria “os lobos frontais”, onde estão as nossas aspirações superiores, no nosso esforço de ascensão. Representa a parte do organismo mais nobre em evolução. O ideal e meta superior, do domínio do “superconsciente”. Referiu ainda que “a criatura estacionada na região dos impulsos perde-se no labirinto de causas e efeitos, desperdiçando tempo e energia”. Muitos foram os teóricos que tentaram definir e entender a Psique, para além de Freud até a atualidade, o que discorreremos futuramente, dos seus dissidentes até à Psicologia Transpessoal, quarta força em Psicologia, que introduziu a dimensão do Espírito.

Em conclusão, podemos definir, Psique como sendo “formada pelos fenómenos e procedimentos que ocorrem na nossa mente”. Continuaremos esse capítulo, a definir, a onda mental, fluxo mental, corrente mental e como influenciam a nossa atmosfera psíquica, que para além da nossa Psique, nos define e caracteriza a presença em qualquer parte. * Psiquiatra, Terapeuta com Formação em Terapia Familiar e Abordagem Sistémica, Psicodrama; Terapeuta Transpessoal.

Gláucia Lima, médica psiquiatra e estudiosa da doutrina espírita, responde às questões dos leitores. Na presente edição já viu o assunto no título. JULHO.AGOSTO.