entrevista Onde estava no 25 de Abril?
Jornal de Espiritismo nº 9 · 2005Página 106 min
Não é importante saber se estava por cá ou se no plano espiritual em 1974, quando ocorreu a Revolução dos Cravos, que derrubou a guerra colonial e a ditadura que a impunha...
Importante é relembrar, agora, quando dia 25 de Abril se comemorar a data dessa revolução, que um dos grandes benefícios resultantes da coragem dos Capitães de Abril foi o do reconhecimento legal da liberdade de consciência e de reunião. Os espíritas mais novos não terão como comparar, pois não viveram nessa época. Mas o movimento espírita português beneficia de forma extraordinária das consequências do 25 de Abril.
Se alguém lhe disser que a ditadura salazarista não itas, pergunte por que razão foram expropriados edifícios que eram propriedade, por exemplo, da Sociedade Portuense de Investigações Psíquicas na vigência do ditador Salazar e outros em Lisboa...
Obtivemos resposta de alguns dos espíritas que já o eram no tempo da repressão. Não são tão poucos como isso. Mas, a englobar todos os contactáveis, teríamos um livro, e este espaçoeo tempo de o fazer não dão para tudo. Assim retomaremos o tema oportunamente noutras edições. O registo histórico desses depoimentos pode ser interessante. Neste artigo, falamos com Maria Luísa Ferreira, de Santarém, a cidade de cujo quartel saiu o capitão Salgueiro Maia, que viria a deter, em Lisboa, Marcelo Caetano. Eis o discurso directo, com a colaboração prestimosa de António Mendonça, da Associação Cultural Espírita de Santarém:
- Quando é que teve conhecimento da doutrina espírita?
- Já desde pequena que era agente de muitos e variados episódios medianímicos. Lembro-me que a minha mãe me encarregava de ir ao mercado adquirir géneros e quando se aproximava a altura de efectuar os pagamentos às vendedeiras, ouvia uma voz que me dizia a quantia exacta a entregar. Ao princípio isto confundia-me, mas lá me fui habituando.
Perto dos 40 anos, talvez aos 38, iniciei um período de doença. Fiz inúmeros exames e consultei diversos médicos, que nunca atinaram com qualquer diagnóstico sobre o meu mal-estar. Cheguei a pesar 32 kg!
Até que um dia, o meu saudoso pai, em conversa com o sr. tenente Alves, na altura colocado na Escola Prática de Cavalaria, pelo ano de 1956, foi informado que o meu mal era de origem espiritual. Ou seja, eu detinha uma mediunidade para educar. Então fui apresentada a diversos grupos que se reuniam em Santarém e nos quais fui introduzida. As reuniões na época versavam o intercâmbio mediúnico e as pessoas queriam era saber coisas da vida rotineira ainda pouco voltadas para a evangelização e para a doutrinação.
Não me senti muito bem e carregava muitas dúvidas. Pelo ano de 1959, conheci um novo grupo, de Almeirim, dirigido pelo meu irmão Torquato e pelo sr. Virgílio Godinho e que estava também ligado a um centro de Lisboa, dirigido também por outro oficial, o tenente Isidoro Duarte Santos, grande trabalhador da Seara Espírita.
Fizeram-se trabalhos importantes e um dos que mais me marcou foi uma manifestação de uma entidade que me declarou estar prestes a reencarnar, que me tinha muito afecto e que estava ali para se despedir de mim. Eu tinha cerca de 40 anos. Aquela entidade disse que iria viver muito perto de mim e me acompanharia ao longo da minha vida, já encarnada.
- Maria Luísa que ideia tem do movimento espírita dessa época, havia repressão?
- Em Santarém e em Almeirim nunca houve quaisquer desaguisados. Recordo que o centro de Almeirim estava constituído, com estatutos e tudo, mas a páginas tantas o sr. Virgílio pensou em encerrar as actividades temendo interferências por parte das Autoridades, mas em conversa tida
comigo lá consegui dissuadi-lo. Mesmo assim dirigiu-se à Polícia de Almeirim, contactando o comandante e perguntando se de futuro poderiam os elementos do grupo vir a ser incomodados pelas autoridades, ao que o oficial respondeu “que tinham perfeito conhecimento do que se passava e do muito bem que a distribuição de alimentos e de roupas proporcionava às gentes mais pobres da vilaas gentes do Bairro do Pupo. E que as pessoas que frequentavam as actividades eram tidas por ordeiras e respeitadoras da lei, que não se preocupasse que eles também não”.
O centro de Almeirim tinha a designação de LUZ
BENDITA e&, tendo o meu irmão de ir para Moçambique, o sr. Virgílio convidou-me para o ajudar a dirigir as actividades, embora eu não tivesse grandes conhecimentos.
Aqui trabalharam os médiuns Emília Proa, Maria do Rosário, Gracinda, Efigénia Mendonça, Maria Leonor, Nazaré e Romana Leonor. Com o tempo chegaram novos colaboradores: Albino Lambério, Mariana Correia, Maria Silva e marido, António José, Maria Luísa Gonçalves, Angelina, Maria Luísa Canelas, Emília Vieira, Otília Noronha e Judite Pires.
Recebemos a visita de Divaldo Pereira Franco em 1971, quando da sua primeira estadia em Portugal trazido pela mão do grande e saudoso irmão Eduardo de Matos, fundador da revista «Fraternidade». Conseguiu-se uma audiência de cem pessoas. A partir da visita do Divaldo tudo mudou. Pela mão da irmã Argentina Santos, que veio até nós através de Eduardo de Matos, recebemos a visita de Nair Cravo, brasileira de Curitiba (Brasil), e do irmão Vítor Hugo, m
de Setúbal. Vieram ajudar-nos na 1 modificação dos trabalhos e tarefas várias do nosso grupo. Já lá vão 40 anos. A irmã Nair, depois de nos transmitir via mediúnica uma linda mensagem pediu | uma concentração a todo o grupo, o nome do grupo seria mudado e todos o receberíamos por intuição, pois tinha sido escolhido no plano espiritual onde outro grupo com o mesmo nome nos ajudaria em nossos trabalhos. Assim fizemos. O nome que todos recebemos, uns de uma maneira, outros de outra, foi Samaritanos de Boa Vontade, designação esta confirmada por Vítor Hugo.
Além dos trabalhos no centro, teríamos que vir para a rua através de trabalhos de assistência social, ajudando idosos, desamparados, doentes, promovendo pessoas, facilitando e colaborando nos estudos e na procura de emprego. Tudo foi feito com a ajuda de todos. Ao longo da década de 1960, Almeirim teve um grupo que se reunia aos domingos, às 16h00, e que desenvolvia trabalho mediúnico, tendo à mesa 8 pessoas e chegando a ter como assistentes perto de 40,.* Ao longo da década chegaram a existir 6 grupos em Santarém, constituídos por 7 a 14 elementos, que se dedicavam ao trabalho medianímico e à visitação de carenciados.
Não há notícia de qualquer episódio repressivo embora houvesse rumores de que em Lisboa as coisas às vezes “aqueciam”.
Nos anos 70 as coisas melhoraram depois da vinda do Divaldo e do 25 de Abril, havendo maior curiosidade sobre a doutrina.
O Grupo Samaritanos de Boa Vontade prosseguiu com a chegada de novos irmãos: Augusto, Miranda, Maria Virgínia Serra, Maria Aurora e seu marido, Lurdes Covão, Manuela Arnaldo e Vítor Godinho, Vitória Pinto Mendes, Lucinda Batista e tantos outros. De Almeirim o local dos trabalhos deslocouse para Paço dos Negros onde assentámos durante 11 anos, anos 80 e 90.Recebemos a visita de Ariston Santana Teles, Manuel dos Santos Rosa, de Lisboa, e de Julieta Marques, do Algarve.
Entretanto um vendaval derrubou a pequena casa, tendo o irmão Miranda, um lutador, cedido espaço na sua habitação para dar continuidade aos trabalhos. Em 2002, devido à necessidade do irmão Miranda melhor acompanhar a sua mulher na doença, os trabalhos deslocaram-se para a Ponte da Asseca e, em 2004, para Santarém. Aqui procedeu-se à formalização da Associação Cultural Espírita de Santarém e à adesão desta à Federação Espírita Portuguesa em Novembro de 2004. - Que vultos espíritas conheceu?
-Tive a honra de conhecer o querido Chico Xavier aquando da minha viagem ao Brasil em 1968, assim como Divaldo Pereira Franco, que tivemos a honra de receber diversas vezes em Santarém. Não posso esquecer as visitas e colaboração do irmão Albino Trindade, as reuniões, aos domingos de Verão, com inúmeros irmãos e irmãs que vinham de Lisboa, juntando-se grupos de 70 ou mais pessoas, na Quinta dos Anjos, perto de Santarém (cerca de 5 km) conjuntamente com o irmão Eduardo de Matos. Visitas de irmãos, óptimos palestrantes e grandes trabalhadores da Seara, como Manuel Santos Rosa, Julieta Marques, Sérgio Thiessen, Divaldinho e mais recentemente José Carlos Lucas.
Texto: JG. Fotos: António Mendonça e JG
* Nota da Redacção: Hoje sabe-se que as reuniões mediúnicas não devem ser abertas ao público, mas na época a prática descrita na entrevista estava generalizada, e até nos 1.ºs anos
A fachada do e: Psíquicas, na Rua Álvares Cabral, na cidad: alterada. Agora, funciona ali uma tipódfafia.

