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Jornal de Espiritismo nº 91 · Novembro 2018Página 35 min

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Quem criou o mal Resposta – Na ótica espírita quem cria o chamado mal, assim como o sofrimento, não é Deus, mas sim o próprio ser espiritual que cada um de nós é, submetido à lei de causa e efeito que responde aos estímulos que lhe enviamos através do nosso comportamento mental. Isto tem de ser visto num plano de vidas sucessivas, articulado com o livre-arbítrio de cada um. Quando colidimos com as leis da natureza – e essa é uma delas – estas respondem de modo compatível com vista a alertar que não estamos a optar por soluções que sejam favoráveis ao nosso bem-estar.

Nesta eventualidade, gera-se uma longa dinâmica de progresso. Nascido da ignorância, o mal baseia-se sobretudo no egoísmo e no orgulho. As imperfeições que lhe são inerentes vão sendo buriladas num caminho de aperfeiçoamento gradativo, num movimento evolutivo multimilenar progressivamente acelerado, já que quanto maior a quantidade e qualidade dos recursos interiores que conquistamos mais facilmente avançamos em sabedoria e amor.

À partida, dentro das imensas limitações da atual posição evolutiva que nos caracteriza, o mérito e a estruturação interior das conquistas psíquicas é indispensável ao progresso espiritual. Em termos gerais, o que é então o mal? Será decerto aquilo que se considera oposto ao bem. Para proceder mal existirá o pressuposto de que quem age nesse sentido terá alguma noção, pelo menos, do que é fazer bem. Mesmo sem ser neste sentido que a palavra é aplicada na pergunta, posso escrever mal uma palavra – por exemplo, “catrapácio” – como tanta gente fará.

Porém, se não duvidar do que sei e não for conferir ao dicionário como se escreve, vou andar muito tempo a pensar que escrevi bem. Por sua vez, quem sabe que o modo correto de a escrever é cartapácio – uma carta muito grande ou muitos manuscritos agregados em forma de livro – verá que estarei a escrever mal. Este item dá a entender que quem pratica o mal, se não souber como é fazer bem naquele caso, não terá noção de o estar a praticar.

Para ele, fazer assim mal é fazer bem. Mas não será assim para sempre. Um dia, a experiência incessante da vida amadurecer-lhe-á o discernimento, com múltiplas respostas niveladas à sua conduta, e perceberá como é que se faz melhor, de facto, naquela circunstância. A maturidade do senso moral vem sempre a caminho, nem que seja a pé coxinho. Poderá dizer que há casos em que a pessoa que pratica o mal sabe que o está a fazer.

Sim, é verdade. Há um ponto que pode ficar aqui em aberto: saber que se faz esse mal não se restringe no indivíduo a uma informação racional, sobretudo se considerarmos a complexidade do psiquismo humano que envolve um quadro subconsciente de motivações díspares resultantes das múltiplas experiências recolhidas na presente existência material, assim como as conclusões que o inconsciente assinala tomadas a partir do somatório de conclusões obtido noutras vidas.

Para proceder mal existirá o pressuposto de que quem age nesse sentido terá alguma noção, pelo menos, do que é fazer bem. Supondo que o ser sabe como fazer bem e faz mal, em muitos casos faz isso porque há uma componente emocional que o arrasta nesse sentido e desfavorece o fator racional que deveria predominar. Exemplo disso são os casos de vingança, adiante entendidos como completamente despropositados. Se incluirmos, como devemos, a prática do mal como sendo também a incidência do nosso comportamento em lapsos, isso em boa parte pode ser compreendido assim: quando se aprende a andar de bicicleta temos de lidar com a deslocação do veículo movido pela força aplicada nos pedais e com a força da gravidade.

Confesso que me recordo que, em criança, de início tive de fazer várias experiências e caía com alguma frequência, até que pouco a pouco comecei a saber lidar com isso essas forças, e dificilmente caía. A experiência é uma grande mestra. Se entendermos a vida de cada pessoa (ser espiritual), como se compreende na ótica espírita, num plano de milhões de anos, compreendemos que cada um se desloca da mais profunda ignorância para um sabedoria relativa, mas cada vez mais depurada.

As fases iniciais desse percurso, permeadas de elevados níveis de ignorância a todos os níveis, nas coordenadas do egoísmo e do orgulho, assinalam as arestas da personalidade que se vão limando à força das leis da natureza, que também regulam a chamada natureza humana, em função do livre-arbítrio. Este é a pedra angular das aquisições evolutivas, pois pela forma como optamos as leis imponderáveis criadas por Deus respondem de modo compatível, não por castigo, ensinam os amigos espirituais, mas para nos alertarem que estamos em caminho autolesivo – a sua função é levar-nos a pensar: O que estou a fazer para sentir isto e o que deverei fazer para me sentir melhor?

Na perspetiva espírita não há outro caminho sobre os milénios que não o do mérito pessoal das conquistas consolidadas do consciente até ao arquivo imortal sediado no inconsciente do ser espiritual. A lei de causa e efeito recoloca adiante dos nossos passos os erros para, experimentalmente, recolhermos todo o aprendizado de que necessitamos e que esses erros nos proporcionam como mais ninguém. O mal que exista é uma fase temporária do Espírito que está a caminho de descobrir que a irresponsabilidade tem preço tão mais pesado do que possa parecer à partida e que o preceito de Jesus de Nazaré – que ainda estamos longe de entender plenamente – a recomendar que amemos os inimigos, façamos bem aos que nos odeiam e oremos pelos que nos perseguem e caluniam, é uma fonte imensa de bem-estar interior, assim que experimentalmente aplicado.

Por isso, como se depreende, o mal que existe dentro de cada um é um conjunto de problemas de imaturidade do senso moral, que pede solução progressiva e intransferível, na escola das vidas sucessivas em que estamos matriculados. É difícil? Agora parece, mas mais adiante quem sabe se não mudaremos de perspetiva? foto pixabay Pediram-nos que respondêssemos a estas perguntas colocadas por A.R.: «Quem criou o mal dentro de nós, se fomos criados por Deus?

» e «Custa-me a aceitar que um Pai crie um filho para uma longa vida de tanto sofrimento para chegar a Ele». NOVEMBRO.DEZEMBRO.