Editorial / Conto
Jornal de Espiritismo nº 91 · Novembro 2018Página 24 min
EDITORIAL / CONTO O transe mediúnico inicia com forte expressão corporal. A agitação é intensa, desta vez, mas a educação do médium contém a manifestação da entidade espiritual no estritamente necessário, uma vez que o que se tem em vista é o auxílio eficaz a alguém que já percebemos surgir na proximidade em grande desequilíbrio. De braços orientados ao limite para longe do sítio em que estou, responde ao cumprimento gentil inicial: «Não quero falar convosco!
». Sem sentir a paz reinante na sala, a entidade espiritual, ofegante, insiste em voz ritmada, sem que eu próprio me movesse: «Chega-te para lá!». Mas, que remédio, mesmo sem o contrariar, começou-se a desatar o novelo gerado naquela cabeça complicada. A dada altura explica que (segundo acredita) é um Espírito das trevas: «Ah! Então já somos dois», disse-se-lhe. «Também me sinto assim quando dou conta da minha ignorância.
Mas ela não consegue durar para sempre». O diálogo avança com naturalidade e cresce, fraterno. Entre toda a história que emergiu nos minutos seguintes, antes de o entregar à mãe que não via e que esperou anos, emocionada, que a conseguisse ver, o que mais me impressionou é que ele acreditava vir a ficar para sempre naquelas dores de alma. Já sabia ser imortal, mas não descortinava que, se assim é, então como deixar de pensar que, a dada altura, conseguiria descobrir como começar a ser feliz?
Sem falarmos nestes termos, percebe-se como aquela ideia arcaica de céu e inferno pode ser destruidora. Allan Kardec demonstra como mais ninguém que são apenas estados de alma, logo, sensações temporárias, mais ou menos intensas, articuladas dentro de leis da natureza em mecanismos de causa e efeito. Desta vez foi assim. Mas sabe o que vem à ideia quando semanalmente se participa numa reunião mediúnica deste género? Se as conhece, decerto sabe, mas pode não se ter dado conta.
Parece-nos algo parecido com a sensação que tem um viajante que sai pela sua própria cidade, indo a cantos onde nunca tinha posto o pé. Ali, depara com realidades que contrastam com o que julgava saber, tal e qual como o viajante que sai do seu próprio país e se dirige a culturas de cor e textura díspar. A Verdade e a Mentira Allan Kardec demonstra como mais ninguém que são apenas estados de alma, logo, sensações temporárias, mais ou menos intensas, articuladas dentro de leis da natureza em mecanismos de causa e efeito.
As entidades espirituais que, depois de analisadas, são trazidas a manifestar-se pela equipa assaz competente de pessoas desencarnadas, bondosas e sábias, por vezes chegam com uma carga de conteúdos que quase parecem vir de outros habitats do universo. No caso, a dada altura damo-nos conta de como as religiões podem ser atávicas e perigosas para quem nelas acredita. E, pasme-se, por razões diversas, há quem as aceite cegamente e acredite que é mesmo como elas afirmam.
“Mea culpa”, dizia-se. Aqui entre nós, é preferível deixar a culpabilidade na gaveta. Se há algum erro, é de aproveitar os ritmos que a vida oferece e tratar de reparar o dano. Diante da imortalidade da alma, a tendência hereditária vinda de Deus inclina o ser espiritual que somos para as múltiplas descobertas da bondade que, gentil, não se cansa de esperar em cada degrau evolutivo a acenar que, a cada dia, vamos conseguindo estar mais perto dela.
Ali, mais adiante, dias mais felizes chamam por si. Fazemos votos de que sinta também esse reflexo cristalino nestas páginas. Os colaboradores do jornal oferecem-lhas no seu melhor esforço. Por isso, é caso para lhe desejar uma boa leitura! foto pixabay Diz uma parábola judaica que certo dia a Mentira e a Verdade depararam uma com a outra. A Mentira disse à Verdade: - Bom dia, Verdade. E a Verdade resolveu conferir se era mesmo um bom dia.
Olhou para o alto, não viu nuvens de chuva. Vários pássaros cantavam e, ao ver que realmente era um bom dia, respondeu à Mentira: - Bom dia, M entira. - Está muito calor hoje!, disse a Mentira. E a Verdade, ao verificar que a Mentira dizia a verdade, relaxou. A Mentira então convidou a Verdade para tomar um banho no rio. Despiu-se das vestes, entrou na água e disse: - Vem, Verdade! A água está ótima. E assim que a Verdade, sem duvidar da mentira, despiu as suas vestes e mergulhou, a Mentira saiu da água e vestiu-se com as roupas da Verdade, indo logo embora.
A Verdade, por sua vez, recusou-se a envergar as vestes da Mentira e, por não ter do que se envergonhar, saiu em plena nudez a caminhar na rua. E, aos olhos das outras pessoas, era mais fácil aceitar a Mentira vestida de Verdade, do que a Verdade nua e crua. Texto em circulação na Internetautor desconhecido. foto pixabay E assim que a Verdade, sem duvidar da mentira, despiu as suas vestes e mergulhou, a Mentira saiu NOVEMBRO.
