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Opinião (pág. 13)

Jornal de Espiritismo nº 91 · Novembro 2018Página 134 min

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Sem conseguir suportar mais aquele desespero, guinou pela direita, fez uma manobra perigosa e arrancou a toda a velocidade, gritando impropérios para o carro que ia à sua frente. Esta poderia ser uma história comum na guerra diária em que o trânsito se tornou, não fosse o automóvel alvo dos insultos um carro de uma escola de condução e ser um exemplo sintomático da pouca tolerância para as imperfeições dos outros, mesmo quando estão devidamente identificados como aprendizes numa fase inicial de aprendizagem.

E isto é estranho porque podemos divergir em muitas coisas, ter opiniões desencontradas e visões díspares sobre os mais variados assuntos, mas das poucas unanimidades que existem no mundo é que todos somos imperfeitos. No entanto, passamos grande parte da nossa vida a queixar-nos das imperfeições dos outros e a tentar camuflar ao máximo as nódoas próprias. Às vezes até parece que somos obcecados pela ideia da perfeição.

Tudo tem de ser perfeito, se as coisas não forem exatamente como idealizamos já não está ótimo, está só assim-assim. E se não está Imperfeitinho da Silva perfeito, pelo menos tem de parecer perfeito. É um contra-senso. Somos mesmo imperfeitos, cometemos erros, enganamo-nos, temos defeitos de carácter, vícios e isso chateia-nos um bocadinho. Vale-nos o facto de ao chegarmos à Doutrina Espírita dizerem-nos que, sendo verdade que não somos perfeitos, um dia chegaremos lá.

E ficamos um pouco mais aliviados. É muito fácil reconhecermos a nossa imperfeição de um modo geral. Se alguém nos perguntar: “És perfeito?”, nós rimo-nos com a ingenuidade da pergunta. “É claro que não sou perfeito. Sou imperfeito, e muito!”, colocando uma ênfase especial no advérbio de quantidade e espetando o indicador à frente do nariz para acentuar a aparência de modéstia e humildade. O caso muda um pouco de figura se alguém nos disser: “És mesmo invejoso!

” ou “Que egoísmo!” ou ainda “Nunca vi ninguém tão orgulhoso!”. Nessa situação, torna-se difícil segurar o ímpeto de responder à letra: “Já olhaste bem para ti, ó camafeu?”. Isto acontece porque, ainda mais do a ideia de sermos imperfeitos, o que detestamos mesmo é que os outros descubram as nossas imperfeições. Destilamos azia e lidamos muito mal com esta coisa de não estarmos sempre certos, de colocarmos a nu a nossa falibilidade e de contra a nossa vontade viverem dentro de nós emoções e sentimentos contraditórios que gostaríamos de erradicar.

Não queremos sentir uma ponta de inveja do familiar que alcançou notoriedade, mas sentimos! Não gostamos da raiva que nos surge ao colega que todos os dias não dá descanso aos nossos calos, mas sentimos! Não queremos ter ciúmes quando alguém que amamos tem uma expressão de carinho para outra pessoa, mas ela arrebanha tudo dentro de nós! Porque sentimos isso? Porque ainda faz parte da nossa essência, do nosso Espírito, daquilo que somos verdadeiramente.

Outra coisa curiosa e muito simples que a Doutrina Espírita nos transmite, é que somos um aprendiz nesta escola da vida. Um petiz cheio de sonhos e ilusões que ainda tem que palmilhar muito caminho e enfrentar duros obstáculos para adquirir a lucidez e sabedoria necessárias que o leve a fazer melhores escolhas, errar menos e viver melhor. As imperfeições de hoje são uma consequência natural dessa pequenez e a razão mais direta para grande parte dos problemas e dores que surgem na vida.

Conseguir compreender esta relação é o primeiro passo para avançarmos no caminho de novos comportamentos e pensamentos, construindo hábitos mais saudáveis. Sacudir a água do capote, iludir-nos, é permanecermos empancados no próprio processo evolutivo. Esta ilusão é um mecanismo de defesa muito débil porque nos expõe consecutivamente às inevitáveis consequências dolorosas a que as nossas imperfeições nos empurram. A vida proporciona-nos constantemente situações que nos permitem perceber as nossas imperfeições, os nossos erros, aprender, corrigir a nossa perspetiva e ajustar a rota.

Normalmente, são situações expressas em crises, momentos difíceis e acontecimentos dolorosos. Pelo nosso livre-arbítrio temos sempre a possibilidade de estarmos atentos à situação, ou não, de percebermos as nossas responsabilidades, ou não, e de concentrarmos esforços para corrigir essa imperfeição, ou não. Mas enquanto não aprendermos a agir corretamente, surgirão constantemente novas oportunidades para o fazermos, provavelmente com um nível de dor crescente, o qual funcionará como um sinal de alerta, procurando nos despertar para a realidade e estimular a necessidade de correção.

O Espiritismo não exige nada a ninguém, ele apenas aponta caminhos nesta nossa demanda de harmonia e felicidade. Em vez de aspirarmos a ser ascetas, em vez de querermos ser impecáveis e perfeitos apenas em aparência, precisamos ousar sermos homens e mulheres que riem, choram, se enganam, que amam, que se levantam, sofrem, cantam, gritam, que se magoam, arrependem-se, mas que estão sempre prontos a escolher melhor. Se fizermos isto, iremos sentir-nos mais leves e descomprometidos, aceitando que apesar de ainda termos atitudes e sentimentos menos positivos, isso não nos torna pessoas más, mas Espíritos em crescimento.

O nosso compromisso de sublimação é connosco e com Deus e não de uma aparência vazia que pretende corresponder às expectativas que os outros possam ter de nós. Desta forma, estamos prontos para crescer de forma equilibrada. Estamos prontos para abraçar a verdadeira prática espiritual, que mais não é do que a descoberta e a ampliação do potencial que existe dentro de nós para sermos cada vez melhores e nos aproximarmos mais um pouco da essência pura do amor sublime que rege o Universo.

E com esta atitude em relaçãoanós próprios, também desenvolveremos uma maior tolerância em relação aos erros e imperfeições dos outros, sobretudo se estiverem identificados como alunos de uma qualquer escola deste mundo em que vivemos. Por Carlos Miguel Após um cruzamento, o condutor que estava à minha frente começou a gesticular de uma forma revoltada e impaciente, ao mesmo tempo que apertava a buzina do seu automóvel como se dali dependesse a sua vida.

foto pixabay NOVEMBRO.DEZEMBRO.