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Jornal de Espiritismo nº 91 · Novembro 2018Página 124 min

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Pureza doutrinária Estimulam tambémohábito sadio de questionar as nossas certezas, sempre passíveis de aperfeiçoamento, de retoque maior ou menor. Em qualquer quadrante de opinião espírita, as dúvidas podem concorrer para todos produzirmos mais e melhor na vinha do Senhora Quem todos pretendemos servir. Nas dúvidas e insegurança, temos no adorável Mestre Jesus o consultor e confidente por excelência. Ele vê e compreende muito bem tudo das nossas vidas, das nossas mentes, de todo o nosso sersem juízos, censura ou acusação.

Sabe-nos no nosso próprio estádio evolucionário (por onde também jornadeou há milhares de milhões de anos); não nos incute sentido de culpa, mas de responsabilidade e determinação em avançar; acolhedor, benevolente, Ele escuta todas as dúvidas ou desabafos. Confiar-lhos humildemente, sem reserva, já nos envolve em paz; e pode por acréscimo facultar-nos luz para uma solução. Confiemos totalmente no Mestre adorado, certos de não haver mistérios no Universo; há-os na mente humana, para se extinguirem com tempo e maturação.

A solução deles sempre existiu; cresçamos, porfiemos, até ela nos caber no entendimento. Sobre a teoria do “corpo fluídico” de Jesus, não me inclino para ela; mas, à luz da razão e do próprio texto da codificação, não se afigura nenhum papão nem me O percurso dos sequiosos de aprender é fértil em interrogações, perplexidade, dúvidas, que lhes aguilhoam a constância na fé e no estudo. leva (já me levou ridiculamente, quando mais imaturo) a depreciar o seu defensoro digno Jean Baptiste Roustaing.

A tese não contradiz o Espiritismo, não retira a condição de espírita a ninguém, não diminui ou aumenta a dignidade e grandeza de Jesus. Mas… constitui facto realou não? Em verdade, ninguém fica mais perfeito por aderir a qualquer das duas ideias; apenas cumpre a TODOS respeitar os seguidores da ideia oposta à sua, e escutar-lhes as razões. “A Génese”, capítulo XV, aprecia as duas teses e sustenta a do corpo carnal, sem deixar de afirmar: a do corpo fluídico “não é radicalmente impossível, segundo o que hoje se sabe sobre as propriedades dos fluidos”.

Kardec defende serenamente a tese “corpo carnal”, mas sempre sem desprimor ou menosprezo pelos contraditores, tanto coevos como os do século IV. Tal isenção e respeito, nem sempre vemos entre nós quando reposta a questão. Convenhamos: nem é cristã ou cívica tal atitude, nem com ela honramos o exemplo nobre do Codificador. Talvez por dificuldade em debatermos sem paixão diferenças que naturalmente SEMPRE teremos, ou por insegurança de opinião, evitamos estas questões; mas tal omissão não favorece o progresso, antes indica termos muito a crescer e aprender.

Há defensores intransigentes da pureza doutrinária. Parece-me equívoco e de emotividade malsã; a pureza da doutrina independe em absoluto de fervores proselitistas de A ou B; sempre ela mesma, é imutável, autónoma, autossustentada, observável de várias perspetivas: sensibilidade, perceção, condicionalismos do observador. As nossas convicções, essas depuram-se, amadurecem, até lograrmos sublimar a perceção em conhecimento.

Não haja ilusões: ainda temos muito a errar no nosso aprendizado, e têm errado até sumidades admiráveis, sem deixarem de o ser. O erudito Paulo de Tarso, obreiro infatigável da expansão cristã, não foi imune ao primarismo cultural do seu tempo: apregoou a subalternidade da mulher (1.ª Coríntios, 14:34). João Evangelista, apóstolo dileto de Jesus e único a acompanhá-Lo até ao Calvário, foi repreendido pelo Divino Amigo, quando Lhe pediu para fazer cair fogo do céu sobre os samaritanos (Lucas 9:54).

José Herculano Pires, figura espírita de inegável mérito, foi crítico infeliz e incongruente (“A Pedra e o Joio”, Pires, JH, Ed Cairbar, São Paulo 1975) duma obra de cunho científico, do também saudoso Hernâni Guimarães Andrade: “A Teoria Corpuscular do EspíritoUma Extensão dos Conceitos Quânticos e Atómicos à Ideia do Espírito”; o genial Andrade cedo intuíra, e expressou matematicamente, o que na mesma década de 70 foi reforçado por “best sellers” foto pixabay mundiais, “O Ser Quântico” e “O Tao da Física”, de Danah Zohar e Fritjov Capra, respetivamente; e depois, por muitos autores.

Quanto mais sabemos, mais notamos a imensidão do que falta saber. É bom recordarmos com António Damásio (neurocientista citado pelo teólogo Frei Bento Domingues (”Uma religião inteligente”, PÚBLICO, 29/7/2018): “os nossos esforços são modestos e hesitantes, devemos estar abertos e atentos quando decidimos abordar o desconhecido”. Ainda com aquele prestigioso dominicano, ponderemos: “Uma religião que não pensa, ou que só pensa o já pensado, cai no fundamentalismo e na violência”.

Mas acima de tudo, para otimizar a frutificação espiritual de todos, com as respetivas ideias, há que vivermos o consabido mandamento maior: AMARMO-NOS UNS AOS OUTROS, suma realização para todos nós, em qualquer área de opinião. Assim, aplicando realmente a pureza da doutrina espírita, fruiremos a concórdia que ameniza todas as diferenças. Por João Xavier de Almeida Há defensores intransigentes da pureza doutrinária.

Parece-me equívoco e de emotividade malsã; a pureza da doutrina independe em absoluto de fervores proselitistas de A ou B; sempre ela mesma, é imutável, autónoma, autossustentada, observável de várias perspetivas NOVEMBRO.DEZEMBRO.